A ficção científica como ferramenta para a inovação e prototipagem de futuros


23 jul 2017

Os futuros mostrados nas ficções científicas muitas vezes podem ser desconcertantes e chocantes. Outras vezes, parecem mais coisas fantasiosas demais.

Podemos até associar as sci-fis às naves espaciais e aos alienígenas, mas elas oferecem mais do que um escapismo: elas são preditivas, ou seja, podem antecipar o que está por vir e podem inspirar pessoas.

O Star Trek inspirou várias tecnologias, como a telepresença e o celular. Martin Cooper, diretor de P&D da Motorola, creditou ao comunicador “Star Trek” a inspiração para o design do primeiro celular no início da década de 1970. O cientista da Apple, Steve Perlman, diz que teve a ideia do programa multimídia QuickTime depois de assistir a um episódio do Star Trek: “The Next Generation”, onde um dos personagens ouve várias músicas em seu computador. O design do iPad foi inspirado em 2001: Uma Odisséia do Espaço (1968).

Star Trek (crédito: Paramount)

 

Embora o futurista, inventor e artista Leonardo da Vinci tenha desenhado um protótipo do que seria o submarino, o pai do submarino moderno, Simon Lake foi fisgado pela ideia da possibilidade das viagens e explorações submarinas desde que leu Vinte Mil Léguas Submarinas de Jules Verne, em 1870. Ele construiu o Argonaut – o primeiro submarino a operar com sucesso em oceano aberto, em 1898 – ganhando até notinha de parabenização de Verne.

Robert Goddard, cientista americano que construiu o primeiro foguete movido a combustíveis líquidos – lançado com sucesso em 16 de março de 1926 – ficou fascinado com o voo espacial depois de ter lido uma publicação jornalística de 1898 do romance de HG Wells sobre uma invasão marciana, War of Worlds. Como Goddard recordaria mais tarde, o conceito de voo interplanetário “mexia tremendamente com minha imaginação”.

Muito mais do que inspiração para objetos. Solucionar desafios da humanidade

Semana passada a Harvard Business Review publicou um artigo provocando líderes e gestores a lerem ficções científicas.  O autor, Eliot Peper, cita a Nova Iorque do final do século XIX. Nessa época, a cidade era fétida: cento e cinquenta mil cavalos transportavam pessoas e mercadorias pelas ruas de Manhattan, produzindo 45 mil toneladas de estrume por mês. Diante da crise iminente, em 1898, planejadores urbanos se reuniram com outros colegas espalhados pelo mundo para discutirem soluções. Nenhum deles era capaz de imaginar algum tipo de transporte que não precisasse de cavalos.

Quatorze anos depois, os automóveis já superavam a quantidade de cavalos em Nova Iorque. Eliot acredita que se esses urbanistas do século XIX tivessem tido acesso às tecnologias atuais como Big Data, Machine Learning e técnicas modernas de gestão, mesmo assim, nenhuma dessas ferramentas teriam ajudado: elas simplesmente confirmariam as preocupações existentes naquela época:

Extrapolar tendências passadas é útil, mas limitativa em um mundo de mudanças tecnológicas aceleradas.”

A ficção científica poderia ter ajudado esses urbanistas. Ao apresentar realidades alternativas plausíveis, as histórias das sci-fis questionam nossos pressupostos. Elas revelam a impermanência do status quo, e como o futuro pode ser adaptável.

Daniel Suarez em Change Agent, vislumbra um futuro próximo em que a biologia sintética irá remodelar todas as indústrias; Cingapura terá ultrapassado o Vale do Silício como centro mundial de inovação após regulamento da FDA induzir uma fuga de cérebros da Califórnia; os personagens circulam em veículos autônomos fabricados a partir de materiais quitinosos, enquanto bebês CRISPR representam um novo problema social. Isso ilustra que, assim como a Internet não parou de revolucionar a indústria de computadores, os impactos dos avanços na biologia sintética não serão limitados à biotecnologia.

Já “New York 2140”, de Kim Stanley Robinson, apresenta um cenário em que o aumento do nível do mar inundado Manhattan, leva os gestores de fundos hedge e investidores imobiliários a criarem um novo índice de mercado intermareal. À medida que a mudança climática acelera e a economia mundial se concentra cada vez mais nas megacidades, repensar as infraestruturas torna-se uma prioridade cada vez mais urgente.

Mas, mesmo que William Gibson tenha cunhado o termo “ciberespaço” em sua obra-prima Neuromancer, de 1984 e A Era do Diamante de Neal Stephenson, tenha inspirado Jeff Bezos a criar o Kindle, Eliot não argumenta que os CEOs devam ler ficções científicas para descobrirem o que pode acontecer no futuro. E aí concordo demais com ele:

Porque, mesmo que a ficção científica seja essencialmente sobre o futuro, ela também é sobre o presente. O best-seller 1984, escrito pelo jornalista e romancista britânico George Orwell e publicado em 1949, têm semelhanças preocupantes com o que vivem os Estados Unidos em 2017. Mais do que ficcionista, Orwell conhecia a natureza humana e a relação sempre evolutiva entre tecnologia, poder e sociedade.

A ficção científica não é só preditiva. Ela reestrutura nossa perspectiva sobre o mundo, criando espaço para questionar nossos pressupostos. As suposições bloquearam as principais mentes do século XIX levando-os a acreditar que as cidades estavam condenadas a se afogar no estrume dos cavalos. Os pressupostos derrubaram a Kodak apesar do fato de seus engenheiros terem construído a primeira câmera digital em 1975.

Embora os nossos pressupostos forneçam atalhos cognitivos para dar sentido ao mundo, o problema é que eles não conseguem se atualizar quando o mundo muda.

Já explorar os futuros mostrados nas Sci-fis liberta nosso pensamento de mitos e restrições. Isso nos obriga a reconhecer que às vezes a imaginação é mais importante do que a análise.

A ficção científica como ferramenta para prototipagem de futuros

Há muitas tecnologias exponenciais e disruptivas que CEOs, empreendedores e profissionais estão procurando entender. Temos visto que eles estão particularmente interessados em automação e nas novas ferramentas de comunicação, como Realidade Virtual e Realidade Aumentada, para agilizar a eficiência organizacional, além de criar um ambiente mais responsivo e dinâmico.

Então, como podemos levar o que aprendemos das ficções científicas para usarmos na nossa vida profissional?

Há, pelo menos, três benefícios de prototipagem com a ficção científica:

Clareza: A ficção científica permite ao profissional, empresário e gestor esclarecer conceitos e ideias difíceis de explicar para que todos na organização possam entender a sua natureza e seu potencial.

Criatividade: Usar a ficção científica para prototipar é um processo criativo que gera idéias e conceitos inovadores mais ricos e mais disruptivos.

Conexão: A prototipagem garante que as inovações e as ideias que geramos sejam fundamentadas em verdadeiras descobertas e verdades humanas resultando em inovações mais significativas.

É possível utilizar o poder visionário da ficção científica como abordagem para a inovação e olhar o futuro do seu trabalho e de sua vida sob uma nova lente.

Se você gostou da ideia de explorar o futuro usando uma nova lente, veja nosso MANIFESTO.

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Lilia Porto
Lilia Porto

Entusiasta do movimento maker e do future thinking, é sócia e fab manager do Joy Fab Lab, laboratório de prototipagem e inovação, com a chancela do MIT. Economista, pós graduada em Finanças e em Marketing é também idealizadora e curadora do O Futuro das Coisas, principal plataforma da América Latina, dedicada a criar conteúdos exclusivos em Futurismo e em Tecnologias Emergentes.

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