Quando comecei a me entender futurista, percebia que o assunto que dominava a discussão era, quase sempre, o futuro do trabalho. Aqui mesmo, no O Futuro das Coisas, a dimensão do trabalho e do desenvolvimento humano, tem destaque relevante no editorial a ponto de nunca entender muito bem por que a Lilia me mantém no grupo dos colunistas, uma vez que, não só não falo sobre isso, como, e talvez por isso mesmo, minhas colunas tenham performances pífias quando comparadas ao tema. Bom, hoje isso mudará. Não porque me especializei no futuro do trabalho, longe disso, mas percebi, talvez tardiamente, que o futuro do trabalho se dá, vejam só, na cidade e sobre isso eu sei uma coisa ou outra.
Precisou a chegada da IA e sua popularização para perceber um paradoxo no centro do que tenho escrito por tantos anos sobre os lugares. Insisti, e nisso não mudei de opinião, na necessidade da desterritorialização, termo que, de tanto falar, deve ter gente que ache que ele é meu e não do Deleuze e do Guattari. Uso esse termo num sentido provavelmente mais territorial do que eles autorizariam. Penso que os lugares precisam ir além do seu território cartográfico, pois, sem isso, eles não sobreviverão à competição por atração de talentos, investimentos, visitantes etc. Chamei essa necessidade de “supraterritorialidade”. Mesmo defendendo que um lugar é feito justamente por pessoas, ao melhor estilo shakespeariano, talvez tenha me esquecido justamente delas, das pessoas nesse processo. Enquanto o lugar expande, aparentemente, e esse me parece ser o paradoxo, as pessoas retraem, se movem na direção oposta, ou seja, vão precisar se reterritorializar.
Mas não foi sempre assim?
Não, não foi. Antes da IA, a ideia do nômade digital, pra ficarmos num exemplo amplo o suficiente, foi o sonho de muita gente. Nesse “lifestyle” tão celebrado por um número cada vez maior dos influencers, a geografia havia se tornado uma variável secundária da vida contemporânea, ou seja, quase algo como férias eternas com algumas horas de trabalho num fuso-horário atrativo, com belas paisagens, e custo de vida irrisório. Esse fenômeno, embora não tão simples quanto mostrado nas redes sociais, não se trata de uma fantasia completa. De fato, a desterritorialização é um dos fenômenos acelerados pelo mundo pandêmico e presente no mundo pós-pandêmico, mas talvez não como pensávamos inicialmente.
O termo desterritorialização descreve dois movimentos opostos conforme o sujeito a que se aplica. Ainda que, por tempos, tenha entendido que ele operava da mesma forma, tanto para lugares quanto para pessoas, hoje, tendo a entender que, enquanto ele é estrutural para uns, é uma condição muito mais frágil para outros.
A desterritorialização do lugar foi, e segue sendo, uma dimensão estrutural da sua relevância contemporânea. Já a desterritorialização do trabalho, ao contrário, foi estrutural apenas para uma camada específica da economia, justamente a mais abstrata, mais codificável, mais dependente de tarefas replicáveis e, portanto, mais exposta à automação e, aqui, começa a encrenca. O problema não é o trabalho nômade em si, mas a fantasia de que a liberdade geográfica fosse, por si só, uma nova condição estável do trabalho humano.
A fragilidade ficou mais evidente após a constante discussão sobre quais trabalhos sobreviverão à inteligência artificial, o que gera ainda mais ansiedade num mundo já sobrecarregado dela. A primeira resposta que ouvi, veio de onde menos esperaria.
Pós-punk comunitário
Tenho uma regra que busco seguir desde muito jovem – não quero saber o que meus ídolos acham sobre qualquer assunto que não seja a própria arte que produzem. Sempre tive dificuldade em separar autor da obra, então preferi sempre, simplesmente, não saber suas opiniões. Por acaso, dias atrás, me deparei com uma entrevista do inglês Sting, que acompanho desde os tempos rebeldes da fusão ska-punk do influente The Police até sua opção por um pop jazzístico com uma banda para o disco de estreia que deixaria o próprio Miles com alguma inveja. Achei que falaria sobre música, parei para ouvir, não sei o que ele pensa sobre nada, com exceção da sua incursão pela Amazônia e de sua amizade com Raoni, e só. Mas a entrevista descamba para a IA e para o fim de empregos e arte. Eis que Mr. Gordon manda o seguinte: “Só a comunidade nos salvará”, ou algo assim. Pensei por um milésimo de segundo, será que a criatura anda lendo o que escrevo? Óbvio que não, até porque não precisa de nenhuma genialidade para chegar a essa conclusão. Mas o que isso tem a ver com a desterritorialização? Absolutamente tudo. Comunidade pode ser virtual, óbvio, mas tende a ser local. Muitas formas de vida coletiva, que depois chamaríamos de cidades, regiões ou nações, nasceram do vínculo de proximidade e permanência.
Mas ainda era preciso escavar mais.
Será o futuro local?
Ao podermos trabalhar de qualquer lugar do mundo, imaginamos por óbvio, que os “pés no chão” não são requisitos essenciais. Talvez o problema comece, ou no mínimo passe por isso, porque a camada de trabalho que escapava mais facilmente da cartografia era frequentemente a mesma cujas tarefas podiam, pelo menos em parte, serem convertidas em prompt. Mas tal formulação exige cuidado: a IA não elimina automaticamente empregos remotos, nem torna obsoleta toda forma de trabalho à distância. No entanto, discussões mais recentes apontam para o trabalho “cognitivo” como um dos mais frágeis em relação a possíveis substituições por IA generativa. Essa exposição não significa necessariamente substituição, podendo significar também complementação, aumento de produtividade, transformação das tarefas, mas, em alguns casos, redução de demanda por trabalho humano.
Lisboa tem um caso mais visível de uma aposta que seduziu muitos lugares. Ali, ficou legível o que acontece quando uma cidade organiza sua vitalidade em torno de quem passa, em vez de cuidar das condições de permanência de quem fica. O que mais parecia ser uma abertura se converteu em substituição. A IA generativa adiciona uma camada nova a essa contradição. Segundo o FMI, cerca de 60% dos empregos nas economias avançadas estão expostos à automação cognitiva, e não porque as máquinas sejam mais inteligentes, mas porque uma parte significativa do que chamávamos de trabalho do conhecimento era, no fundo, trabalho de repetição, só que mais sofisticado. A camada de trabalho que havia se desterritorializado talvez seja a mais frágil diante da promptização do mundo, fazendo com que a figura moderninha do nômade digital, ao invés de vanguarda civilizacional, seja na verdade um intervalo, um hiato entre a territorialidade das relações de trabalho e a automação irrefreável.
E é aqui que a coisa complica e o paradoxo se torna evidente ao mostrar uma assimetria que deveria ter sido óbvia desde o início. Se tudo é promptável a ponto de permitir estar distante (do trabalho presencial, da cidade, da infraestrutura, de casa em última instância) para trabalhar, a mesma tecnologia que me permite desterritorializar, me transforma, automaticamente ou quase, em uma tecnologia obsoleta. Esse auto-hacking parece ser inevitável nesse momento de aceleração. Talvez tenhamos passado tempo demais desenvolvendo skills que nos tornariam máquinas e, nos deparamos agora, com o momento em que o que realmente importa são nossas características humanas, entre elas, nossa capacidade de viver em comunidade e nossa relação com os lugares.
Se os lugares se desterritorializam simbolicamente, será que as pessoas vão precisar se reterritorializar materialmente?
A relação entre esses dois movimentos não é, como pode parecer, uma contradição irreconciliável, mas gera uma tensão produtiva que define um lugar mais relevante para o nosso tempo, porque o paradoxo, no limite, revela algo incômodo e não por isso menos evidente. Um lugar só é capaz de resistir ao imaginário à distância, quando é suficientemente relevante para quem está por perto. Ou seja, não existe a possibilidade de “emular” pertencimento – ou ele tem como ponto de origem o próprio lugar, no conceito mais sociológico do que cartográfico, ou ele é só, no máximo, uma imagem projetada que não consegue conectar ninguém em torno dela. Traduzindo, eu posso estar enraizado ainda que distante, desde que o lugar consiga manter sua relevância. Nada é capaz reenraizar se o que define essas raízes, pertencimento, memória, cultura, afeto, não for mantido com cuidado e relevância.
A consequência prática dessa contradição é desconfortável para todo o ecossistema construído em cima da ilusão nômade. Cidades que apostaram excessivamente na atração de populações transitórias vão precisar reaprender o ofício mais antigo da gestão urbana, que não é seduzir quem passa, mas cuidar de quem fica. Estratégias de captura de valor baseadas em classes flutuantes vão revelar sua fragilidade quando a renda que fazia essas classes flutuarem se tornar mais automatizável. Destinos que confundem visibilidade global com vitalidade local vão descobrir que atenção, sem enraizamento, pode até produzir ocupação e talvez reputação, mas dificilmente produz um lugar de fato, com carga simbólica, afeto e pertencimento.
O paradoxo da desterritorialização é, no fundo, uma provocação sobre o retorno do enraizamento como fundamento, não como nostalgia. Lugares precisarão continuar se comportando de forma supraterritorial, indo além de seus limites cartográficos, como ideia e narrativa. Mas as pessoas vão precisar redescobrir que a sua relevância não estará em se tornarem tão leves quanto os sistemas que as substituem, e sim em serem mais densas e situadas, capazes de perceber o que nenhuma máquina percebe porque nenhuma máquina habita, pertence ou permanece.
Imagem da capa: Peter Hamlin


