Quando a sua identidade profissional deixa de caber em um cargo, contar bem a própria trajetória vira parte do trabalho.
Desenvolver uma carreira fluida, considerada generalista por especialistas em carreira, para mim, sempre pareceu ser um caminho estratégico a seguir, mesmo quando eu fazia isso sem tanta consciência e com zero intencionalidade.
Apesar de sempre me sentir muito confortável nessa fluidez, por vezes, me vi confrontada com uma pergunta que quase sempre me levava a uma resposta longa: “Adriana, o que você faz? Qual é o seu cargo?”
Com o tempo, precisei buscar ferramentas, estruturas de comunicação e posicionamento que me ajudassem a expressar qual seria o eixo que conectaria as diferentes formas pelas quais venho gerando valor ao longo da minha trajetória.
Nossas trajetórias vão muito além das formações e se ampliam para a expressão de quem somos, pelas lentes das coisas que fazemos, para além do que está descrito no escopo dos nossos contratos de trabalho – muito além.
Esse movimento de consolidar uma estratégia de expressão sobre carreira fluida, somado à busca por compreender esse cenário no futuro da minha carreira, me trouxe ao O Futuro das Coisas, especialmente no programa Carreira à Prova de Futuros. Lá, entramos em contato com a ideia de vida em portfólio, uma das metodologias que exercitamos durante os encontros.
Carreira fluida
Tenho pensado que esse conceito ajuda a nomear uma realidade profissional cada vez mais comum: trajetórias menos lineares, compostas por diferentes frentes de atuação, públicos, linguagens e entregas. E que, ao mesmo tempo, ajuda a enfrentar uma dificuldade muito prática: como apresentar tudo isso sem parecer fragmentado ou disperso?
Na rica curadoria de conteúdos, li o artigo A era da identidade profissional fluida, no qual a futurista e líder desse programa, Lília Porto, argumenta que identidade e reputação profissional já não se constroem apenas em torno de títulos, cargos e funções, mas também “em rede”, por meio da capacidade de transitar entre múltiplas personas conectadas por valores, experiência e propósito.
O texto também faz uma distinção importante: fluidez não significa, necessariamente, dispersão; pode significar a capacidade de alinhar repertórios diversos. Ufa. Senti que eu estava mesmo no ambiente certo e cercada por colegas de turma que também se identificam com isso. Recomendo essa leitura para quem atua em mais de uma frente. Aliás, ainda tem alguém atuando em uma única frente em 2026?
Há profissionais que ensinam, empreendem, lideram equipes, prestam consultoria, desenvolvem projetos, mentoram pessoas, atuam em voluntariado, praticam esportes, produzem conteúdo e facilitam experiências de aprendizagem. Em muitos casos, o desafio não está na multiplicidade em si. O desafio está em tornar inteligível a lógica que conecta essas frentes.
Mosaico de micro-identidades
O artigo usa uma expressão interessante ao falar de um “mosaico de micro-identidades” interconectadas por valores e competências. Gosto dessa imagem porque ela ajuda a deslocar a leitura da carreira como uma sequência rígida de cargos para uma leitura mais próxima de um ecossistema profissional: diferentes formas de atuação, diferentes contextos, mas um mesmo eixo estruturante.
É justamente aí que a ideia de vida em portfólio entra em campo. Não apenas como descrição de carreiras não lineares, mas como método de organização e apresentação dessas trajetórias. Em vez de olhar para experiências diversas como peças soltas, a proposta convida a perceber como elas podem compor uma narrativa coesa. A cultura de portfólio de vida é um dos marcos que ajudam a explicar a emergência dessa identidade profissional mais fluida.
Na prática, isso muda bastante a forma de se apresentar. Em vez de tentar reduzir a trajetória a um único rótulo, a pergunta passa a ser outra: o que, de fato, conecta as várias formas pelas quais eu contribuo, trabalho, ensino, lidero e gero valor?
Lilia Porto aponta competências que se tornam decisivas para navegar essa condição: propósito norteador, storytelling, competências antecipatórias e autogestão.
Por isso, a vida em portfólio me parece menos uma defesa do “fazer de tudo” e mais um exercício de curadoria, coerência e direção. Não se trata de acumular frentes aleatórias. Trata-se de reconhecer, organizar e comunicar uma arquitetura profissional que, embora múltipla, tenha sentido.
Narrativa mais clara e coesa
Para quem vive carreiras mais fluidas, ou deseja vivê-las, talvez uma das tarefas centrais hoje não seja escolher uma única definição profissional. Talvez seja construir uma narrativa suficientemente clara e coesa para que diferentes experiências deixem de parecer dispersas e passem a ser compreendidas como partes de uma mesma proposta de valor.
Para vivenciar essa experiência, saiba mais aqui.
Imagem da capa: Mous Lamrabat



