E se eu te contar que a neurociência condena a premissa sob a qual a maior parte da educação está fincada?
Primeiro, devo confessar: não sou muito afeito à neurociência. Pelo menos não da maneira como ela costuma ser evocada nos papos de boteco e discussões de LinkedIn.
Mas sei que muita gente estuda neurociência seriamente. E isso me fez ter a curiosidade – uma palavra que logo retomaremos – de relacioná-la com aquilo que tem sido meu objeto de investigação há anos: o processo de descoberta.
A educação mata o processo de descoberta: disso já sabemos. Mesmo assim esse homicídio doloso continua sendo acobertado. O que está em jogo não é uma simples diminuição do prazer ao aprender, mas uma série de implicações que a morte da descoberta gera na própria razão de ser da atividade educativa.
Imagine que você está assistindo uma série de suspense da Netflix. Alguém morre no primeiro episódio. Seu nível de curiosidade vai aumentando a cada passo da investigação, a cada pista encontrada, a cada novo suspeito. Você fica tão fissurado que acaba maratonando a série num único dia. Tudo isso para finalmente descobrir quem matou.
O que aconteceria se o roteiro revelasse o assassino nos primeiros minutos? A educação é isso: ela nos dá spoilers o tempo todo. O interesse é uma variável desimportante na esteira fordista do ensino. Ensinar – no sentido de transmitir conteúdo passivamente – afugenta a curiosidade. Não há espaço para que o cérebro produza algo único a partir das peças que junta.
É claro que estamos diante de uma evidência anedótica, sem força de pesquisa científica. Mas a neurociência, até onde eu pude escavá-la, parece desembocar na mesma conclusão.
Em 2014, os neurocientistas Matthias Gruber e Charan Ranganath, da Universidade da Califórnia, publicaram na revista Neuron um estudo que deveria ser lido por todas as pessoas que se relacionam com educação.
Eles colocaram os participantes num scanner de ressonância magnética e observaram o que acontece no cérebro embebido pela curiosidade. Com o sistema de recompensa ativado, a dopamina acende o centro de formação de memórias do hipocampo, o que sugere que a curiosidade favorece o aprendizado e a retenção de informações. Nada surpreendente até aí. Mas a pesquisa revelou algo mais.
Ao aguardarem para saber as respostas das perguntas do experimento, os participantes do estudo eram confrontados com rostos de pessoas desconhecidas exibidos brevemente na tela. Nos testes de memória, as pessoas lembravam melhor tanto as respostas das perguntas quanto os rostos que tinham visto – que não tinham qualquer relação com as perguntas que as deixavam curiosas.
Isso revela que o estado da curiosidade não apenas prepara o cérebro para capturar o conteúdo que queremos descobrir: ele também melhora a retenção de informações incidentais, não relacionadas com o que nos chamou atenção, absorvidas no mesmo período.
Quando estamos genuinamente curiosos com algo, aprendemos melhor tudo à nossa volta – mesmo o que não estamos tentando aprender.
A curiosidade não é uma mera ativação neuronal que facilita a absorção de um conteúdo específico. Ela é o estado corpóreo que nos abre para o mundo.
E o que acontece ao se descobrir algo? Os pesquisadores John Kounios e Mark Jung-Beeman passaram anos mapeando o que chamam de “momento a-há” – a experiência súbita do insight (ou clarão, em bom português).
Usando um aparelho que mede a atividade cerebral, eles notaram uma explosão de ondas gama de alta frequência no lado direito do cérebro, e essa tempestade cerebral acontecia um terço de segundo antes da pessoa se deparar conscientemente com sua descoberta. O cérebro descobre antes de nós, e o a-há que ele produz não é um ato deliberado, mas uma eclosão que só ocorre à deriva.
Descobertas não podem ser induzidas por forças externas nem controladas pela nossa vontade. O que influencia é o ambiente, que inscreve em nosso corpo determinados afetos. Estados de baixa motivação intrínseca e alta pressão avaliativa – o retrato da educação tradicional – desligam o motor de descoberta do sistema nervoso.
Toda educação a partir da transmissão e do controle está literalmente arrancando a tomada do mecanismo neural que nos permite descobrir. O contrário também ocorre: afetos que instigam a curiosidade, a brincância e a leveza é que geram ebulições sinápticas.
Uma das principais variáveis dessas ebulições é a interação com outras pessoas. Por meio de uma técnica recente chamada hiperscanning – capaz de registrar o cérebro de duas ou mais pessoas simultaneamente –, a equipe do pesquisador Artur Czeszumski observou, numa meta-análise de treze estudos com 890 participantes, que seus cérebros se sincronizam nas regiões pré-frontais e temporoparietais durante momentos de aprendizagem social. Alimentado pela alegria do encontro, o sistema dopaminérgico constrói pontes cognitivas que nos motivam intrinsecamente a aprender.
Aprender junto é uma experiência neurologicamente distinta de aprender sozinho. Desde que não haja tentativas de imposição e disciplinamento, a sociabilidade é uma aliada que nos convida a mergulhar na grande mente coletiva.
A neurociência aponta um veredito: é a curiosidade que abre o cérebro para o mundo. Descobertas não podem ser induzidas nem controladas, e só saem do casulo em ambientes propícios. Cérebros se sincronizam quando aprendemos com outras pessoas. Essas pesquisas escancaram o principal equívoco neurológico da educação: a insistência no ensino passivo e individualizante.
Não é uma questão de preferência pedagógica. É o nosso hardware.
E se a neurociência condena, ela também aponta caminhos. É possível criar as condições para que os a-hás aconteçam. É possível abrir espaços onde a curiosidade nos devolve para o mundo. Não controlando o que as pessoas vão descobrir, mas projetando os ambientes onde nossos cérebros possam saborear sua brincadeira favorita.
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Referências
Gruber, M. J., Gelman, B. D., & Ranganath, C. (2014). States of curiosity modulate hippocampus-dependent learning via the dopaminergic circuit. Neuron, 84(2), 486–496. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.neuron.2014.08.060.
Kounios, J., & Beeman, M. (2009). The Aha! moment: The cognitive neuroscience of insight. Current Directions in Psychological Science, 18(4), 210–216. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1467-8721.2009.01638.x.
Jung-Beeman, M., Bowden, E. M., Haberman, J., Frymiare, J. L., Arambel-Liu, S., Greenblatt, R., Reber, P. J., & Kounios, J. (2004). Neural activity when people solve verbal problems with insight. PLoS Biology, 2(4), 500–510. Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pbio.0020097.
Subramaniam, K., Kounios, J., Parrish, T. B., & Jung-Beeman, M. (2009). A brain mechanism for facilitation of insight by positive affect. Journal of Cognitive Neuroscience, 21(3), 415–432. Disponível em: https://doi.org/10.1162/jocn.2009.21057.
Czeszumski, A., Eustergerling, S., Lang, A., Menrath, D., Gerstenberger, M., Strunk, S., Thomaschke, R., & König, P. (2020). Hyperscanning: A valid method to study neural inter-brain underpinnings of social interaction. Frontiers in Human Neuroscience, 14, 39. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fnhum.2020.00039.
Satta, E., Zareian, B., & Nozaradan, S. (2022). Cooperative behavior evokes interbrain synchrony in the prefrontal and temporoparietal cortex: A systematic review and meta-analysis of fNIRS hyperscanning studies. eNeuro, 9(2). Disponível em: https://doi.org/10.1523/ENEURO.0268-21.2022.


