É impossível falar do mundo do trabalho e não mencionar o movimento corporativo rumo à Inteligência Artificial. Com a acessibilidade crescente desta tecnologia, comecei a acompanhar organizações que passaram a definir os seus modelos como AI First, colocando-a no centro da sua estratégia. Seja para aprimorar entregas ao cliente ou para planejar os próximos passos, a IA foi apresentada como o grande diferencial competitivo.

Mas o que tem me chamado a atenção desde o início é que, na pressa de adotar a próxima ferramenta, as organizações estão negligenciando justamente o ativo que a tecnologia não consegue replicar: as pessoas

A adoção acelerada da IA tem gerado um cenário de instabilidade para a força de trabalho. Em fevereiro, a Forbes criou uma matéria impulsionada pela declaração do banco de investimentos Goldman Sachs, trazendo um alerta sobre o aumento do desemprego nos Estados Unidos. Em março, veio a notícia de que Atlassian demitiu 1,6 mil funcionários com a justificativa de que a IA traria um “reequilíbrio” de recursos. A tônica do momento é de empresas pressionando os funcionários para a adoção da IA e a colocando no centro da estratégia.

Substituição das pessoas

Sem dúvida, a IA tem um papel importante na velocidade para resolução dos problemas de negócio. Principalmente, diante de um mundo de complexidade, com alto volume de dados, necessidade de tomada de decisão rápida e de alta adaptabilidade.

Porém, com o foco de gerar vantagem competitiva e valor centrado na adoção da IA, há um questionamento contínuo sobre a substituição da força de trabalho. E algumas empresas estão agindo como se isso fosse possível. O risco é que elas sejam abaladas ao olhar especificamente para ferramentas como diferencial e negligenciar o verdadeiro ativo de valor do futuro do trabalho.

Pois assim como outras ferramentas ou modelos antes considerados grandes diferenciais competitivos, essa solução não garante vantagem sem contar com as pessoas que compõem a força de trabalho. Se isso ainda não estava claro, o recente relatório do Fórum Econômico Mundial, “The Human Advantage: Stronger Brains in the Age of AI“, mostra, mais uma vez, o quanto o fator humano é essencial para o desenvolvimento da economia.

O lançamento deste relatório não é coincidência. Estamos vendo números crescentes de burnout, com profissionais se sentindo esgotados. Como resultado, empresas perdem talentos e produtividade, têm dificuldades na linha de sucessão de lideranças e prejudicam a própria longevidade.

Cérebro humano

Acredito que a grande vantagem competitiva das organizações será cuidar da máquina humana mais fundamental: o cérebro.

Esse órgão, essencial para nossa sobrevivência, responsável por funções básicas e habilidades complexas, é o que nos permite navegar no mundo do trabalho. Desde aspectos inconscientes, como as emoções que influenciam nosso comportamento, até os aspectos conscientes, como análises complexas.

Por isso, quando falamos sobre habilidades do futuro, sejam elas hard ou soft skills, estamos falando da capacidade do nosso cérebro de mediar processos emocionais e cognitivos que transformam informações em algo tangível e de valor para o trabalho e para as empresas. Não à toa, há anos acompanho notícias de como a tecnologia está tentando replicar a capacidade do cérebro humano. Porém, as máquinas não conseguem replicar a sua complexidade.

Mas se o cérebro é tão essencial para o mundo do trabalho e para a construção de soluções para a sociedade, por que ainda não o tratamos com a relevância devida?

A partir dessa reflexão, o Fórum Econômico Mundial traz para o centro o conceito de Brain Capital, ou capital cerebral, formado pela saúde do cérebro (Brain Health) e pelas habilidades cognitivas e socioemocionais (Brain Skills).

Foco, criatividade para pensar novas soluções, trabalhar colaborativamente, tomar decisões estratégicas, ser uma boa liderança, não dependem apenas de ferramentas. Dependem da capacidade do nosso cérebro de compreender o ambiente, utilizar nossas habilidades e transformar esses processos em comportamentos e resultados concretos.

Brain Health & Brain Skills

Tudo começa pela saúde do cérebro, o Brain Health. Nosso sono, alimentação e hábitos impactam diretamente o desenvolvimento e a saúde dele. E aqui está um dos maiores desafios das organizações: os ambientes de trabalho têm gerado o efeito contrário ao que precisamos.

Sobrecarga de informações, pressão por produtividade, metas irreais e falta de tempo são alguns dos elementos que estão deteriorando justamente o ativo que as empresas mais precisam preservar. No Brasil, em apenas quatro anos, houve um aumento de 823% no número de pessoas afastadas por burnout no Brasil. Adoecer o cérebro das pessoas em nome do desempenho é uma contradição que não podemos mais ignorar.

As Brain Skills são o segundo elemento do capital cerebral e, assim como a saúde, são desenvolvidas ao longo da vida. O relatório destaca quatro pilares de habilidades: cognitivas, interpessoais, auto-liderança e letramento tecnológico. Dentro de cada um desses pilares, existem outras tantas habilidades, algumas delas sendo delegadas para a IA, afinal, quem hoje em dia escreve um e-mail ou cria um relatório sem a ajuda dela?

Para as organizações, há o desafio de desenvolver essas habilidades. Em pesquisa do Fórum Econômico Mundial, as empresas indicaram que 59% da força de trabalho precisará de requalificação até 2030 para dar conta das novas demandas. Essa necessidade só poderá ser atendida por meio de cérebros saudáveis, garantindo que o aprendizado seja adquirido e consolidado.

Agora, talvez você esteja pensando: as empresas já não estão investindo nisso?

Os investimentos ainda são erráticos. Programas isolados de bem-estar, um treinamento pontual de soft skills ou uma palestra de mindfulness no mês da saúde mental não constroem Brain Capital. O que o relatório propõe, e o que os dados sustentam, é uma abordagem sistêmica e estratégica, que começa pela liderança e permeia a cultura organizacional.

Três movimentos

Como pilares para essa construção, há três movimentos que as empresas precisam fazer simultaneamente.

O primeiro é tratar a saúde cerebral como política de gestão, olhando criticamente para as condições de trabalho: carga cognitiva dos profissionais, equilíbrio de vida e níveis de estresse crônico que a cultura produz. Fatores como sono, estresse, atividade física e engajamento social são moduladores diretos da saúde cerebral e, consequentemente, da capacidade de inovar, decidir e crescer.

O segundo é investir em desenvolvimento com foco em Brain Skills de forma planejada para maximizar o aprendizado dos colaboradores e sustentar esse aprendizado no cotidiano. Acima de tudo, as Brain Skills precisam de um ambiente organizacional que as valorize e as exercite. Empresas que investirem nisso estarão formando profissionais capazes de navegar em cenários de alta complexidade e incerteza, que é exatamente o que o mundo do trabalho vai continuar exigindo.

O terceiro movimento é implementar a IA de forma estratégica, e não apenas como parte da manada. A grande oportunidade não está em delegar o máximo possível para essa tecnologia, mas em usá-la de forma adequada às tarefas e ao capital cerebral disponível. Enquanto a IA assume o que pode ser automatizado, são o pensamento crítico, a criatividade, a empatia e a capacidade de decisão em contextos complexos que vão definir quem de fato gera valor nos negócios.

Cérebro “frito”

Ao empregar esses três movimentos, as organizações poderão de fato superar desafios que a própria IA traz para o ambiente de trabalho. Afinal, dados já mostram que usar essa tecnologia excessivamente pode atrapalhar o desempenho, como relata o artigo “AI brain fry”: dados revelam uma exaustão cerebral preocupante e mostram que a produtividade aumenta ao usar até três ferramentas de IA simultaneamente, mas cai com mais de três. Ou seja, até para aproveitar bem a IA é necessário um equilíbrio. E é o nosso capital cerebral que será capaz de analisar e decidir a melhor forma de implementar a própria IA.

Por isso, o Brain Capital desponta como a grande vantagem competitiva. Organizações que tratarem o cérebro humano como ativo estratégico, investindo em saúde cerebral, desenvolvendo Brain Skills e implementando a IA com consciência, construirão times mais motivados, resilientes, inovadores e preparados para um mercado que não vai parar de se transformar.

Pessoas cuidadas

Há coisas que a IA não será capaz de substituir, e a tomada de decisão que leva em conta a complexidade real do mundo, atravessada pelos nossos próprios processos emocionais e cognitivos, é uma delas.

Transformações no mundo do trabalho, novas ferramentas e tecnologias disruptivas seguirão surgindo. Mas antes de perguntar “como implementamos IA aqui?”, as empresas precisam responder uma pergunta mais fundamental: as pessoas que vão operar, supervisionar e dar sentido a essa tecnologia estão sendo cuidadas?

Porque a verdadeira vantagem competitiva não está na ferramenta, está no cérebro de quem a usa. E um cérebro sobrecarregado, adoecido ou negligenciado não entrega o verdadeiro diferencial almejado pelas organizações.

Investir em Brain Capital não é apenas um gesto de cuidado com os colaboradores. É a estratégia mais inteligente que uma empresa pode adotar. 

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Ilustração da capa: Lorena Spurio

Joana Coelho

Especialista em Neurociência Organizacional e Comportamental Aplicada. É sócia da Nêmesis.

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