Fazendo futurismo a partir da ficção científica


07 jul 2018

Há 200 anos, Mary Shelley publicava seu romance Frankenstein em meio à Primeira Revolução Industrial. Em um contexto de aceleração do desenvolvimento científico, a escritora inaugurava o gênero da ficção científica ao especular possibilidades tecnológicas com um olhar calcado nos instrumentos e técnicas disponíveis à sua época.

Esse foi o mesmo raciocínio também seguido pelos autores da primeira onda da ficção científica, conhecida como Hard Science Fiction por ter como característica uma grande preocupação em se ater aos fatos científicos ao explorar cenários futuros a partir desses artefatos especulativos. Muitos desses autores, aliás, também eram acadêmicos especializados em física, matemática e biologia, por exemplo, o que garantia um maior conhecimento técnico a ser desdobrado em possibilidades fictícias de futuros imaginados.

Um dos exemplos mais populares é a atuação de Arthur C. Clarke que, além de ter sido escritor de ficção científica, também hoje é considerado um futurista tanto por conta da verossimilhança de sua ficção quanto por sua atuação como cientista. Clarke foi um dos responsáveis por desenvolver os satélites geoestacionários, sendo que a órbita na qual estes giram foi batizada de Órbita Clarke em sua homenagem.

Dentre suas obras adaptadas para o cinema está 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), longa dirigido e roteirizado por Stanley Kubrick junto ao escritor inglês. Além de um marco da história do cinema e uma inspiração para demais diretores, o filme também se tornou referência para empresas de tecnologia como a Apple, que chegou a programar sua assistente digital Siri com uma das falas do filme.

Ainda, foi nesse mesmo ano em que o filme foi lançado que também um outro escritor de ficção científica ganhava proeminência com a publicação do romance Do Androids Dream of Electric Sheep?. Mais tarde, em 1982, o livro de Philip K. Dick chegou aos cinemas na adaptação dirigida por Ridley Scott e intitulada Blade Runner. O longa, da mesma maneira que 2001, também se tornou um marco da ficção científica, antecipando a estética e os temas a serem elaborados no subgênero cyberpunk.

No ano passado, o filme ganhou a sequência Blade Runner 2049 dirigida por Denis Villeneuve. Ao mesmo tempo em que o longa acrescentou mais camadas ao debate em torno dos replicantes, ele também não deixou de prestar homenagem à obra original ao trazer alguns de seus personagens de volta à narrativa, porém com um novo olhar tecnológico e social inspirado pelo contexto atual, no qual já produzimos androides e ginoides realistas e exploramos técnicas de edição genética como o CRISPR.

Blade Runner 2049 questiona os limites da vida artificial. O que era somente uma metáfora em 1982, está muito mais próximo da realidade hoje, diante dos avanços da inteligência artificial e da genética. Temas como memória, consciência e identidade são apresentados por meio de pessoas criadas em laboratório, chamadas de replicantes, concebidas para realizar tarefas que humanos não querem exercer. Para serem escravos, na prática. (Cortesia da imagem: American Cinematographer)

 

Ao mesmo tempo, hoje também observamos como essa relação entre a ficção científica e o desenvolvimento tecnológico está mais clara, de modo que as empresas e governos já procuram se antecipar com a ajuda do olhar do autor para vislumbrar essas tendências. Esse é o caso do escritor Neal Stephenson, autor de Snow Crash, que se tornou consultor da empresa de tecnologias imersivas Magic Leap, bem como o próprio Bruce Sterling, um dos fundadores do cyberpunk e que passou a trabalhar com Internet das Coisas e a metodologia do design fiction junto à esposa Jasmina Tešanović.

Em seu romance Snow Crash (1992), Neal Stephenson delineou um conceito que chamou de “metaverso”, no qual os humanos interagem uns com os outros em um espaço tridimensional usando avatares. Ficção e realidade se misturam e desde Dezembro de 2014, Stephenson é “Chief Futurist” da Magic Leap. (Foto: Max Photographr para GDC ONLINE via Flickr)

 

Fora isso, também faz sentido justificar essa popularização da ficção científica como inspiração para o desenvolvimento tecnológico conforme se leva em conta a crescente popularidade do Future Studies, ao qual se incluem as disciplinas do trendhunting e do futurismo, mas também a ficção científica, apesar de esta se focar em um futuro mais distante do que os demais – isto é, por volta de dez anos a frente. Com um ritmo cada vez mais acelerado e um desenvolvimento tecnológico que cresce em níveis exponenciais, pensar em um cenário dez anos a frente, portanto, não é mais tão absurdo.

É nesse sentido que atua a Envisioning, um instituto de pesquisa virtual que fornece uma previsão tecnológica para políticos e formadores de decisões em todo o mundo. A empresa fundada pelo futurista Michell Zappa estreou esse específico mapeamento que combina ficção científica e tecnologias reais em um primeiro trabalho para a Swarovski, no ano passado. “Já faz um tempo que observamos essa relação entre ficção científica e fatos científicos. Em 2017, produzimos um relatório para a Swarovski Professional no qual essa relação pôde ser melhor investigada”, conta Zappa. “Neste ano, o programa DEFTECH* (DEFence TECHnologies) se focou nas mesmas intersecções e começamos a medir a relação entre o nível de maturidade de uma tecnologia (Technology Readiness Level ou TRL) e as citações originais da tecnologia apresentada na ficção científica.”

Em parceria com o departamento de defesa do Governo da Suíça (Armasuisse), com o qual a Envisioning já mantém um trabalho há quatro anos, foram produzidas duas visualizações que apresentam a relação entre as tecnologias ficcionais dos filmes 2001: Uma Odisseia no Espaço e Blade Runner 2049 com as atuais pesquisas científicas e tecnológicas a partir da referências de artigos e publicações acadêmicas, bem como registros de patentes e demais fontes noticiosas.

Visualização de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, com as suas 60 tecnologias (Crédito: Envisioning)

 

No relatório de 2001 – Uma Odisséia No Espaço, tecnologias como controle de temperatura corporal, touch screen, câmera digital e inteligência artificial foram mapeadas de modo a identificar quão à frente de seu tempo estava o longa, já que tais tecnologias só passaram a ser comercializadas décadas mais tarde ou ainda estão em desenvolvimento.

Visualização de Blade Runner 2049, com as suas 50 tecnologias (Crédito: Envisioning)

 

Já na visualização de Blade Runner 2049, encontramos a comparação entre tecnologias como videoconferência holográfica, máquina de acesso à memória e humanos sintéticos com pesquisas e produtos que já estão sendo desenvolvidos.

Depois de explorar tecnologias de defesa, inteligência artificial, manufatura, realidade virtual e engenharia genética ao longo do programa DEFTECH, ambas Envisioning e Armasuisse resolveram transformar essa parceria em um produto mais acessível ao público final, de modo a promover a divulgação e inovação científica. “Ao mesmo tempo em que mensuramos a maturidade de desenvolvimento dessas tecnologias, também acabamos determinando a velocidade em que isso acontece e, desse modo, ajudamos a impulsionar um cenário mais positivo de mudanças tecnológicas”, acrescenta Zappa.

Nos próximos meses, a Envisioning irá disponibilizar uma nova etapa da pesquisa Sci-Fi/Sci-Fact. Desta vez, o objeto de estudo é Detroit: Become Human, o mais novo título lançado pela desenvolvedora de videogames francesa Quantic Dream. Tendo como pano de fundo os Estados Unidos no ano de 2038, a obra aborda o desenvolvimento e popularização de androides realistas que, por sua vez, acabam se tornando conscientes.

Para encerrar a edição 2018 do programa DEFTECH, a empresa ainda fará o mapeamento das tecnologias vislumbradas no universo de Neuromancer, obra seminal do subgênero cyberpunk e que tornou William Gibson uma das referências e inspirações contemporâneas, tanto para demais autores de ficção científica como para desenvolvedores de tecnologia.

Acompanhe a pesquisa por aqui: https://www.envisioning.io/sfsf

* A autora do texto é pesquisadora da Envisioning e participou do projeto Deftech 2018.

 

Crédito da imagem da capa: Justin Peralta

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Lidia Zuin
Lidia Zuin

Lidia Zuin é jornalista, mestre em semiótica e doutoranda em artes visuais pela Unicamp. Head do núcleo de inovação e futurismo da UP e pesquisadora da Envisioning, trabalhou para a Rockstar Games e publicou artigos em sites como Versions, Kill Screen e Folha de S.Paulo. Como pesquisadora acadêmica, possui textos publicados em periódicos e livros.

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