Pensar o território é pensar as relações entre memória, identidade, poder e futuro. Mais do que um espaço físico ou uma delimitação geográfica, o território é constituído por histórias, vínculos, saberes e disputas que atravessam diferentes temporalidades. Nele, permanecem marcas de experiências que nem sempre são reconhecidas pelos registros oficiais, mas que seguem produzindo sentidos no presente.

Este artigo propõe uma reflexão sobre o território como espaço vivo de memória e construção de futuros, considerando as formas pelas quais comunidades preservam, transformam e transmitem seus conhecimentos e modos de existência. Em diálogo com autores como Ailton Krenak, Milton Santos e Antônio Bispo dos Santos, busca-se compreender como os territórios revelam processos de apagamento e resistência e como olhar para suas camadas históricas pode contribuir para imaginar futuros mais responsáveis e plurais.

Território, Memória e Futuros 

Tendemos a acreditar que lugares históricos são apenas aqueles reconhecidos oficialmente, como cidades antigas, monumentos, museus, centros de poder ou cenários de grandes acontecimentos. Aprendemos a olhar para determinados espaços como guardiões legítimos da memória coletiva, enquanto outros territórios permanecem invisíveis e esquecidos. Essa violência silenciosa na forma como aprendemos a reconhecer a história revela mais sobre quem possui o poder de narrá-la do que sobre a própria história. Afinal, quem decide o que merece ser lembrado? Quem define quais corpos, culturas e acontecimentos entram para os registros oficiais e quais serão apagados?

Entretanto, o território nunca dependeu de reconhecimento para carregar memória, pois é um corpo atravessado por tempos múltiplos. Guarda marcas do que foi vivido, celebrado, destruído, enterrado e reinventado. Não começa quando alguém o registra e não termina quando se esvazia. Permanece acumulando sentidos. Afinal, caminhar por ele é atravessar, simultaneamente, diferentes camadas históricas que continuam agindo sobre o presente.

Território não é apenas onde a história aconteceu. É onde a história continua acontecendo, seja para trás, como memória em disputa ou para frente, como futuro em construção; não é apenas um espaço onde a vida acontece. Ele também molda imaginários, subjetividades, relações e futuros. Ao mesmo tempo, é continuamente transformado por quem o habita, em uma relação dinâmica de influência mútua. Os territórios funcionam, assim, como matéria viva de construção e experimentação social, onde diferentes modos de existir são produzidos, tensionados e reinventados. São espaços de aprendizagem contínua

Palhaços da Folia de Reis em Piabetá, bairro do município fluminense de Magé. A festa acontece há quase 80 anos. (Foto: Gui Christ / Gringo / VICE)

Uma praça construída sobre antigos quilombos vai além do concreto e do paisagismo. Ali, ainda resistem fugas, pactos comunitários e formas de resistência que talvez nunca tenham entrado nos livros escolares. Um rio contaminado pela mineração não é impactado apenas por rejeitos químicos, mas também por memórias interrompidas de povos que dependiam dele para viver. Um prédio abandonado no centro de uma cidade revela mais desigualdade e apagamento social do que muitos arquivos públicos.

Essa percepção dialoga diretamente com o pensamento de Ailton Krenak, que critica a ideia de uma humanidade separada da natureza e questiona os modos de vida que rompem os vínculos entre os seres humanos e a terra (Krenak, 2019). Em suas reflexões, nos lembra que adiar o fim do mundo exige recuperar vínculos com os territórios e reaprender a escutar aquilo que foi silenciado pelo progresso colonial. O território, portanto, não é cenário da vida, mas participa dela.

Na cosmovisão afro-brasileira, os territórios também podem ser compreendidos como ancestralidade em movimento. O passado não desaparece: pulsa no presente e orienta os futuros. O axé circula nos corpos, nas festas, nos terreiros, nos encontros e nas práticas coletivas. Territórios são lugares de continuidade espiritual, política e cultural. Por isso, destruí-los é também destruir memórias, cosmologias e possibilidades de existência (Santos, 2015). E controlá-los sempre significou controlar narrativas, apagar cosmologias e definir quais vidas seriam consideradas dignas de memória.

É por isso que muitas políticas urbanas, projetos de desenvolvimento e processos de gentrificação não produzem apenas deslocamentos físicos, mas amputações simbólicas. E, quando uma comunidade tradicional é removida, perdem-se referências espirituais, redes de cuidado, sistemas próprios de aprendizagem, culinárias, ritmos, sotaques, tecnologias comunitárias e modos específicos de existir no tempo. 

Territórios periféricos e populares não podem ser reduzidos à ideia de carência. Há inteligência histórica acumulada nesses espaços. Milton Santos compreende o espaço como resultado de uma acumulação desigual de tempos (Santos, 2000). Essa percepção rompe com a ideia moderna de território como simples recurso econômico ou delimitação geográfica. Mesmo quando aparentemente vazio, ele nunca está vazio. Há marcas invisíveis habitando o chão, os sons, os caminhos e as ausências. É uma biblioteca viva, na qual o tempo permanece em movimento.

Não existe separação entre natureza, espiritualidade, política e comunidade, por isso, território também é relação. Afinal, a terra pode ser entendida como corpo vivo, ancestralidade e continuidade da existência. Em diálogo com essa compreensão, Antônio Bispo dos Santos  desloca concepções coloniais de natureza e território ao propor outras formas de relação entre os seres e a terra (Santos, 2023). Não se trata de um ambiente separado da vida humana, mas de uma trama na qual pessoas, rios, plantas, bichos, pedras, ventos, memórias e espiritualidades compartilham existência. Tudo possui vida e memória e conta histórias.

Muitos territórios resistem por meio da memória viva. Não necessariamente da memória escrita, mas daquela incorporada ao corpo, à oralidade e ao ritual. Um canto ancestral, uma dança, um toque de tambor, uma receita, uma roda de conversa ou um grafite podem funcionar como arquivos vivos de uma comunidade. Quando mantêm suas histórias circulando, mantêm-se vivos.

Por isso, imaginar a partir do território é também um gesto político. Significa perguntar: quais futuros cabem aqui sem apagar quem já estava aqui? Quais memórias precisam ser protegidas? Quais precisam ser discutidas, porque nem toda memória é confortável e nem todo legado merece homenagem? Quais práticas antigas podem se transformar em tecnologias sociais? Quais feridas ainda organizam o presente? Quais histórias foram deixadas como vestígio porque alguém não quis transformá-las em monumento? 

Essa perspectiva também nos leva a questionar a ideia de futuro dissociado dos territórios, como se fosse possível imaginar novas formas de existência sem considerar rios, montanhas, florestas, bairros, aldeias, periferias e corpos. Futuro sem território é só abstração com autoestima alta.

Roda

Os territórios ensinam por sinais, e alguns deles são evidentes: uma enchente recorrente, uma rachadura no muro, uma festa que não pode mais acontecer porque a rua foi tomada por carros, um rio canalizado que volta a aparecer quando chove. Outros sinais são mais sutis: uma música que só os mais velhos lembram, uma palavra que desapareceu, um caminho que ninguém usa mais, uma árvore que virou ponto de encontro. 

Esses sinais funcionam como códigos vivos. Assim como os símbolos Adinkra, do povo Akan, condensam provérbios, valores, alertas e ensinamentos em formas visuais, os territórios também inscrevem seus próprios sinais no corpo da cidade, da floresta, da casa e da comunidade (Agbo, 2006). Cada marca pode ser lida como uma mensagem, um aviso sobre o que está se rompendo, uma memória do que ainda resiste, uma pista sobre o que precisa ser cuidado. Esses sinais são alertas e convites: alertas sobre o que estamos perdendo; convites para decidir o que ainda pode ser reconstruído.

Construir história para trás e para frente é pensar que o passado é espaço em disputa e o futuro é consequência em construção. Entre os dois, existe o território: esse chão onde o tempo não passa em linha reta, mas em roda. 

Em diálogo com Bendor, Eriksson e Pargman (2021), olhar para o passado também pode ser uma prática de futuro: uma forma de tornar explícitas as heranças, rupturas, apagamentos e possibilidades que seguem moldando o que ainda pode vir a existir. O passado, nesse sentido, não é apenas origem; é campo de imaginação, reinterpretação e responsabilidade.

Algumas culturas indígenas trabalham com a ideia de considerar gerações passadas e futuras nas decisões; Mulgan (2022) retoma a ideia de imaginar a presença da sétima geração à frente e das sete gerações anteriores como forma de ampliar a responsabilidade temporal. Talvez o problema do nosso presente seja justamente decidir como se não houvesse memória antes nem consequências depois.

Todo território já chega carregado de significados. Imaginar o futuro sem escutar essas camadas é repetir a lógica que sempre autorizou apagamentos em nome do progresso. É como construir adiante arrancando as raízes do que já foi construído.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “que futuro queremos construir?”, mas: com quais memórias estamos dispostos a nos responsabilizar? Que histórias precisam voltar a circular? Que territórios precisam ser reparados antes de serem desenvolvidos ou reinventados? Que saberes antigos podem orientar novas tecnologias? Que vozes foram tratadas como ruído quando, na verdade, eram avisos?

Construir história para trás e para frente é aceitar que o futuro nasce do chão, da escuta e do vínculo. Nasce quando o território deixa de ser tratado como superfície disponível e passa a ser reconhecido como presença viva, inteligência coletiva e parente do tempo.

Considerações finais

O território não é um espaço vazio ou neutro, mas um lugar atravessado por memórias, saberes, conflitos, afetos e formas de resistência. Ao longo deste artigo, buscou-se demonstrar que as disputas territoriais são também disputas pela memória, pela identidade e pelos futuros possíveis.

Reconhecer as histórias, práticas e conhecimentos preservados nos territórios significa enfrentar processos de apagamento e ampliar aquilo que entendemos como patrimônio e memória. Nesse sentido, o diálogo com Ailton Krenak, Milton Santos e Antônio Bispo dos Santos evidencia que passado, presente e futuro estão profundamente conectados.

Construir história para frente e para trás implica, portanto, escutar os territórios, reconhecer suas múltiplas camadas e assumir responsabilidade pelas histórias que escolhemos preservar e pelos futuros que desejamos construir. O futuro não nasce de um espaço vazio, mas dos territórios, das memórias e dos vínculos que sustentam a vida.

Referências

AGBO, Adolph H. Values of Adinkra & Agama symbols: for artists, designers, craftsmen, teachers, students, and all who appreciate and use traditional symbols. Ghana: [s. n.], 2006.

BENDOR, Roy; ERIKSSON, Elina; PARGMAN, Daniel. Looking backward to the future: on past-facing approaches to futuring. Futures, v. 125, art. 102666, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.futures.2020.102666.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

MULGAN, Geoff. Another world is possible: how to reignite social and political imagination. London: Hurst, 2022.

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora; Piseagrama, 2023.

SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília, DF: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa, 2015.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.

Foto da capa: Gui Christ / Gringo/ VICE

Isa Maria Rodrigues

Estrategista cultural, fundadora da Futurumã - Laboratório de inteligência cultural brasileira e vice-presidente da ALAF – Associação Latina de Futuros. Atua com uma cosmovisão periférica e pensamento criativo-divergente, articulando práticas para construção de futuros possíveis, plurais e regenerativos.

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