Certa vez, João Vinício Marques, um de nossos alunos, ao ser perguntado “o que era o NEX?”, respondeu: “É uma escola dentro da escola, professor!” O que seria uma escola dentro da escola? “Pois é, existe a nossa escola, onde a gente aprende a passar no vestibular, e existe a escola dentro da escola, onde a gente aprende a viver.”
João estava falando sobre o Núcleo de Extensão (NEX) da Escola Técnica Estadual Dom Bosco, o primeiro núcleo de extensão escolar de Pernambuco.
É possível tornar nossa educação mais criativa, viva e colaborativa?
Em busca dessa pergunta, comecei uma viagem pelo Brasil me voluntariando em diferentes iniciativas.
Nos últimos 8 anos, venho pesquisando formas livres de aprendizado, mas sempre batia no muro quando o assunto era a ‘educação formal’. Existem práticas e métodos incríveis, mas sempre em escolas alternativas, nos Estados Unidos ou na Europa.
Até que, em 2023, durante uma estadia no Recife, tive a oportunidade de conhecer Ricardo Francisco, também conhecido como Rico, professor com 42 anos de educação que estava silenciosamente revolucionando práticas na rede estadual.

Uma sala abandonada
Tudo começou em 2021, quando Rico propôs tornar um antigo almoxarifado em um espaço criativo. Muito inspirado pelos ambientes acadêmicos de extensão, a ideia seria estender a escola de baixo pra cima, fazer com que ela alcançasse o que parecia ser difícil alcançar pelo currículo comum.
Em plena pandemia ele enviou um convite nos grupos da escola, dizendo que abriria um “Núcleo de Extensão”. A maioria não entendeu o que isso significava, mas alguns alunos curiosos surgiram.
A primeira ação foi transformar a sala em desuso num espaço colorido. Começaram com oficinas de envelopamento, pintura e grafite para reformar cadeiras, mesas e armários da sala. Pediram que professores e alunos doassem decorações e objetos pro espaço.
Com a sala pronta, na primeira reunião, Rico perguntou aos alunos o que eles queriam fazer com aquele Núcleo de Extensão. A resposta foi que gostariam de aprender a falar em público. Assim, nascia o primeiro departamento, o de Palestras, com o Ricardo conduzindo um curso de oratória. O objetivo era formar palestrantes que discursassem sobre temáticas relacionadas à grade técnica da escola em marketing e publicidade, dando à eles voz e autonomia.
Em pleno contexto pandêmico, a primeira grande ação que esse departamento desenvolveu foi o #QualificaPais, uma iniciativa para a requalificação profissional dos pais dos alunos, em um momento em que muitos estavam perdendo seus empregos. Os próprios alunos assumiram temporariamente o papel de “professores”, supervisionados pelo Ricardo, conduzindo uma formação em marketing pessoal e reorganização do currículo para os pais. Uma inversão hierárquica no mínimo curiosa, pra não dizer fascinante.
Em seguida, nasceu o departamento de Ação social, junto com o seu primeiro evento, o Cine Solidário. Negociando com a gestão, em uma tarde do ano, os alunos transformam a escola em um cinema, cobrando 1 quilo de alimento como ingresso da sessão. Todo o alimento arrecadado era então destinado para uma instituição de escolha dos próprios alunos.

Ricardo Francisco (Rico) e eu.
A escola pública e viva
Com o sucesso dos dois primeiros temas, anualmente os alunos passaram a propor a abertura de novas temáticas de acordo com suas próprias necessidades de aprendizagem. Um mapeamento de talentos e conhecimentos emergentes na escola pelos próprios jovens.
Com 497 alunos, hoje a escola é impactada por 24 líderes e 2 diretores que criam eventos para 250 inscritos em doze departamentos. Cada departamento funciona como grupo temático e trabalha de forma independente ou colaborativa na produção de oficinas e eventos ao longo do calendário escolar, definidos e coordenados pelos próprios alunos.
Enquanto os líderes são responsáveis por desenvolver os temas ao longo do ano, os diretores coordenam reuniões de planejamento, produção e atuam como elo de comunicação com a gestão escolar para autorização dos eventos. Um design que autoriza o aluno a intervir e co-construir a agenda pedagógica da instituição.
Os jovens não são obrigados a participar, nem ganham pontos extras. Os maiores benefícios são “fazer parte de algo maior” e “fazer amigos”. Em última instância, é uma experiência produtora de pertencimento, um trabalho complexo de colaboração em escala.
Por meio de atividades artísticas, pedagógicas e colaborativas, ora os alunos atendem demandas da gestão escolar, ora propõem as próprias intervenções . A gestora conta: “os alunos conseguem captar mais atenção dos outros alunos que os palestrantes externos”.
O ponto alto do ano são os chamados NEX DAY e a FEIRA NEX, iniciativas que “param a escola” para colocar os alunos como produtores de conhecimento por meio de seus departamentos. O primeiro acontece exclusivamente com os 250 inscritos no projeto, o segundo é uma experiência onde alunos não-inscritos e pessoas externas são convidadas.
Esses eventos, propostos por alunos como Vitória de Castro, Pedro Paulo e Bruno Felipe, têm como objetivo criar conexão e desenvolver oficinas entre os jovens e comunidade escolar. Funcionam como uma espécie de festival de aprendizagem, com múltiplas atividades simultâneas, propostas e co-produzidas pelos alunos. “O dia mais aguardado do ano”, eles dizem.
Métodos, design e autonomia
Anualmente, a cada nova turma, nós – Rico, Ciano e eu –, adultos-facilitadores, conduzimos três formações com os alunos para prepará-los com os métodos que precisam para construir e liderar essas comunidades de aprendizagem. O que fazemos é resultado de pelo menos oito anos trabalhando com facilitação de grupos e design de comunidades de aprendizagem. Um conjunto de práticas inspiradas em iniciativas como os Agile Learning Centers, Enrol Yourself, Masters of Learning e Estruturas Libertadoras.
A gestão escolar é a principal parceria do núcleo autorizando o uso dos espaços e tempo dentro da escola para as atividades, enquanto os professores têm papel de tutores, mentores e parceiros. Uma relação que se diferencia do que acontece em sala de aula, agora com o docente sendo um co-construtor e conselheiro das propostas, em vez de um definidor total das regras e processos.
Os líderes trabalham com um sistema de gestão entre pares, onde semanalmente as duplas propõem oficinas, reuniões e eventos criados com seus membros. Entregamos materiais didáticos e ferramentas produzidas por nós, adultos-facilitadores, como o Criando o Rolê, Kanban Comunitário e um Diário de Bordo com técnicas de aprendizagem autodirigida, métodos ágeis, metadesign, design de conexões e design thinking. Um conjunto de práticas que facilitam trabalhar a pedagogia da autonomia, de Paulo Freire, e a pedagogia engajada, de bell hooks.
Por exemplo, Súelly e Maria Eduarda, líderes de mídias sociais, coordenam 80 inscritos. Durante o NEX DAY, o departamento delas ficou responsável por produzir conteúdos audiovisuais. Como facilitadoras, elas distribuíram os jovens em pequenos grupos com papeis específicos. O papel delas foi planejar, organizar e liderar as células, mediando o processo, não apenas “fazendo diretamente”.
Resultados e conclusões finais
Nesses últimos anos, o NEX tornou-se um espaço criativo, vivo e colaborativo dentro de uma escola pública no estado de Pernambuco. Recebeu diferentes premiações de instituições que celebram projetos inovadores. O prêmio do SEBRAE pelo #QualificaPais por impacto em empregabilidade, o selo do Instituto Ame Sua Mente, por promover saúde mental preventiva e o Educação Inovadora do IEL/Sistema Indústria por preparar a geração para o mercado de trabalho.
Com o sucesso da iniciativa pernambucana, em 2024, fechamos uma temporada de um ano em Itanorte, no interior do Mato Grosso, promovida pela Fundação André e Lucia Maggi, para a criação de um segundo Núcleo de Extensão Escolar, na Escola Estadual Argeu Augusto de Moraes. Com 110 alunos no ensino médio, o NEX Argeu teve duração de 1 ano, 40 inscritos, 4 departamentos e 10 líderes. Com departamentos refletindo o próprio território, como Agricultura, Esportes, Perícia Criminal e Artes.
Mas independente das temáticas – que são apenas um pano de fundo para a relação – o que mais foi repetido pelos alunos foi o fato de termos “juntado alunos que não se falavam”. Em outras palavras: comunidade. Marcos Matheus, um dos egressos do Núcleo de Mato Grosso, certa vez disse: “eles pegam o valentão, a patricinha e o nerd da escola e fazem eles virar amigos”.
Nossa hipótese é que o engajamento em atividades extracurriculares – consentidas e projetadas de baixo para cima – aumenta o senso de pertencimento e impacta diretamente e indiretamente no envolvimento escolar como um todo. Sendo práticas de prevenção à evasão escolar e saúde mental, além de ser uma formação complementar, que possibilita mais autonomia nas escolhas no presente e futuro pessoal, acadêmico e profissional.
“É indiscutível que os alunos do NEX se sentem parte e ‘em família’ dentro da escola”, me disse Andrea de Kássia, gestora da escola. Como se o Núcleo fosse capaz de restabelecer uma teia de afetos com a comunidade onde está inserida.
O futuro das juventudes é relacional
E se houvesse um NEX em cada escola? Se ele fosse replicado em uma empresa, seria capaz de reduzir a rotatividade de funcionários? Seria mais eficiente que os treinamentos convencionais para desenvolver habilidades comportamentais e um plano de carreira? E os pais que estão confusos ao lidar com essa geração? Alguma dessas práticas podem apoiar nas relações parentais?
Todavia, mesmo com os sucessos do Núcleo, estamos cientes das dificuldades de trabalhar dentro de uma organização dura como a escola pública. Por isso, nos mantemos em observação, diálogo aberto e em movimentação para aprender a se relacionar com esses ambientes complexos. Porque entendemos que não existe resposta única, muito menos “facilmente replicável”, na educação.
Fato é que aprendemos e construímos uma linguagem, um léxico, que tem nos ajudado a conduzir projetos e relações significativas com a Geração Z. Com o tempo o NEX tem se demonstrado uma abordagem interessante e bastante eficaz para desenvolver participação e interação entre a juventude. Nos ajudando a compreender que:
Não existe um problema com a geração Z, existe um problema em como nos relacionamos.
Seguimos na busca de oportunizar acesso ao aprendizado interativo e participativo, essencial para produção de seres vitais e engajados na sociedade. Uma escola dentro da escola, uma escola inventada, que produza um aprendizado mais vivo, criativo e colaborativo.


