O futuro é uma jornada, não um teletransporte


18 out 2017

Em geral, discussões sobre o futuro tendem a variar entre duas tendências: uma é otimista, antevendo inúmeras possibilidades de abundância e de soluções que as novas tecnologias nos trarão; a outra é pessimista, muitas vezes motivada pelos cenários distópicos desenhados em ficções científicas. Em algum ponto, entre estes dois extremos, há espaço para análises mais cuidadosas, com um olhar distanciado de emoções que uma discussão desta relevância cria.

O fato é que por mais científicos que possamos ser, o futuro vai além de qualquer previsão. Podemos é claro falar em tendências e potenciais. Mas, como toda a história, o resultado dos grandes acontecimentos e das grandes eras vai além da simples soma de suas partes.

A história é um fenômeno dinâmico, um sistema vivo, guiado por milhões de variáveis que muitas vezes nos escapam. E, ao falarmos sobre o século XXI, precisamos levar em conta que cada avanço diário levará a uma mudança exponencial em seguida.

No momento, estamos nos primeiros segundos de uma Era onde cada possibilidade é uma convergência de inúmeras transformações, que vão muito além da nossa percepção imediata. Talvez, muitas discussões falhem ao entender a tecnologia como um fim, mas não como um meio para uma transformação ainda mais fundamental: a da nossa própria natureza.

O que vivenciamos hoje é uma mudança de curso dos paradigmas que moldaram nossa visão de mundo e do nosso modo de pensar sobre nós mesmos pelos últimos séculos. Cada vez mais, o salto, tão exponencial quanto qualquer tecnologia, será o salto do nosso mindset.

A pergunta é: estamos prontos para esse salto?

Por muito tempo o ser humano esteve acostumado a uma ilusão de controle. A história da sociedade é a história de como transformamos condições precárias em potenciais de evolução. A simples ideia de dar forma a algo é o que fez nossa sociedade resistir e se manter viva por séculos.

Agora, estamos diante de um novo momento. Nossas escolhas e mesmo nossas vidas estão cada vez mais nas mãos de tecnologias que, ainda hoje, são temidas por uma grande parte da população. O questionamento que encaramos é: será que  somos tão exponenciais quanto o mundo que se abre diante de nós?

É claro que hoje temos crianças que mal falam mas já se divertem em aplicativos. Temos jovens capazes de se concentrar em dezenas de coisas ao mesmo tempo. Mas também temos discussões que beiram o superficial espalhadas pelas redes sociais. Também temos líderes carregados de ideias ultrapassadas. O mundo ainda vive entre duas realidades bem distintas, muitas vezes fadadas a um confronto.

Neurologicamente, nossa biologia ainda guarda resquícios do que os cientistas chamam de “cérebro reptiliano”: a parte mais primitiva do nosso tecido cerebral, ainda condicionada por respostas involuntárias de nossos ancestrais. Quando confrontado com uma situação que provoca algum tipo de choque, a tendência é nosso cérebro “paralisar”, retrair-se diante do inesperado e se colocar em um modo incapaz de processar novas ideias. Mas, como disse Alvin Tofler, em seu livro Future Shock, diante de uma sociedade avançando em um ritmo nunca antes visto, o choque não só é inevitável, como é essencial.

É o choque que nos permite sair do estado automático de passividade e assumir uma postura (cri)ativa diante da realidade em curso.  Vemo-nos, em um cenário que desafia não apenas nossas vontades, mas nossa própria natureza. A boa notícia é: somos seres altamente adaptáveis (assim como nosso cérebro). Podemos ser muitas vezes teimosos mas, assim como a perspectiva de um futuro nos coloca diante dos nossos defeitos, também abre caminhos para explorarmos o melhor de nós.

Hoje, temos a chance de colocar em análise tudo que entendemos como o ser humano. Podemos, com a ajuda de inúmeras inovações recentes, que vão da engenharia genética à neurociência, provocar evoluções disruptivas em nosso status quo, redefinindo toda nossa realidade, subvertendo padrões até então imutáveis. Toda essa soma de potenciais só se fará pertinente quando redefinirmos, sobretudo, o modo de pensar de cada uma dessas tecnologias.

Assim como os computadores e os smartphones foram inevitáveis, há muito o que esperar dos próximos anos e do que vamos incorporar ao nosso dia-a-dia. É claro que haverá resistência e polêmica, como sempre ocorre em todas as eras de transformação. E a beleza de um mundo tão inovador não está no confronto diante do inevitável, mas sim no potencial que enxergamos e fazemos dele.

O segredo de uma Era que Dee Hock, fundador da Visa, batizou de Caórdica (que une harmoniosamente elementos de ordem e caos) é pensar criativamente em todas essas transformações. Criatividade como o potencial humano de descoberta. Como podemos desenhar um futuro centrado em pessoas? Como podemos fazer com que as pessoas deem um passo além, rumo às possibilidades dessa nova era?

Nesse novo mundo, os mindsets serão combinados e reprogramados. Ao mesmo tempo em que discutimos inovações como computação quântica, inteligência artificial e idas à Marte, discutimos também conceitos essenciais que nos definem, como empatia, amor, sexualidade, verdade, vida… todas as questões humanas que trazemos há séculos conosco. Mas, agora, daremos a elas novas perspectivas. Pela primeira vez, não vamos lidar com um conceito puro de verdade absoluta. A verdade será algo muito mais próximo de uma fragmentação de olhares e ideias: caberá a nós conectar os pontos e criar caminhos por entre esses conceitos.

Quando a inteligência artificial estiver em seu auge, muitas questões até então intransponíveis serão respondidas. Talvez, não da forma que esperamos. Mas é nesse contexto que o diferencial humano se fará essencial. A história ainda poderá ser escrita pelas nossas escolhas, ou por como escolhemos lidar com o que nos é apresentado. O choque que hoje vivenciamos é principalmente o das inúmeras ideias que colidem em um mundo conectado. A física quântica nos ensinou que nada é simplesmente binário e tudo está intrinsecamente conectado à visão de quem observa. E o que a tecnologia pode, sem dúvida, nos ajudando a evoluir, é o modo como observamos e encaramos o dia-a-dia.

Essa transição não se dará em pouco tempo. Será necessário ampliar a arena na qual se discute o futuro. É preciso democratizar o acesso ao conhecimento que moldará os próximos anos. Muitos medos surgem da incompreensão. A única forma de transformar esses medos em expectativa é levando mais informação e possibilidades onde formos capazes.

Hoje, na era da Big data e do acesso instantâneo ao conhecimento, podemos organizar cada vez mais cenários de estudo e de imersão, onde o foco seja refletir sobre como pensar o futuro. E, mais do que isso, precisamos nos posicionar como parte desse futuro.

Não são as tecnologias que de um dia para o outro farão do mundo um paraíso. Elas definitivamente nos desafiarão a buscar algo novo, mas, como toda busca, partirá de nós o olhar e as visões que definirão a qualidade daquilo que criaremos. Um novo mundo é inevitável. O que faremos com ele, é uma escolha que ainda precisamos fazer.

 

Imagem da capa:  Psssking

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Felipe Esrenko
Felipe Esrenko

Felipe é formado em comunicação e design, se especializou em storytelling e design educacional. É fundador da Monera, consultoria com foco em desenvolvimento de tecnologias de ensino e jornadas customizadas de aprendizado para empresas e pessoas.

Comments

  1. Carlos A. Orvate : novembro 5, 2017 at 10:06 pm

    ‘COMO SERIA BOM SE NOSSO MELHOR PROFESSOR ESTIVESSE SEMPRE A DISPOSIÇÃO PARA NOS AUXILIAR NOS MOMENTOS DE INCERTEZA’. Esse é o pensamento que impulsiona meu projeto para um Objeto de Aprendizagem 4.0 – Objeto de Realidade Virtual para Assistencia Tutorial Específica ou se preferir Heuristic Researcher Virtual Assistence as Tutor.
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