O futuro da Educação é híbrido e começa em 2019


24 set 2017

Cada vez mais me convenço que o futuro de qualquer coisa ou área, no planetinha azul, é híbrido com uma dose de realidade aumentada e inteligência analítica (IA), que serão progressivamente incorporadas. Mas, o que merece destaque no nosso diálogo de hoje é que ele (o futuro) não SERÁ híbrido: ele já é híbrido e você (talvez) ainda não tenha se dado conta em como isso já está no seu dia a dia.

Vamos abrir os olhos e dar uma boa analisada na praia da Educação, que é onde eu surfo melhor?

O que tem marcado influência nas transformações que acompanhamos pelo mundo, basicamente, é o fato de as gerações estarem se sucedendo nos espaços sociais e profissionais, e exercendo sua influência sobre eles.

Aos poucos, jovens que cresceram digitalmente vão chegando às salas de aula, ao mercado de trabalho, às universidades. Eles trazem para esses espaços comportamentos diferentes em relação às gerações que chegaram aos mesmos espaços, antes deles. E, em breve, a eles se somarão também os que nasceram digitalmente.

Nossa primeira regra para exercitar o futurismo é conhecer a história e os desdobramentos relevantes para o atual status quo. Por ser docente há três décadas – e, (obviamente!), não ser nativa digital – ter vivido todas as transformações que o mundo do trabalho sofreu, nos últimos 30 anos, foi um exercício de superação de conceitos, práticas e paradigmas. Além disso, foi necessário desenvolver novas trilhas mentais e uma nova maneira de observar, analisar e concluir sobre o mundo que me cerca e onde atuo, profissionalmente.

Novamente o mundo muda, mas dessa vez estamos vivendo uma era de mudanças, mas passamos a viver, interagir e trabalhar em uma “mudança de era”. Esse é o atual status quo. Não, não é uma questão de trocadilho ou semântica: é um fato que não pode ser deixado de lado.

Mas, porquê mesmo o futuro da Educação é híbrido?

Os elementos relevantes para esse status quo, e que são a base para traçar um raciocínio futurista, envolvem:

(1) o mindset do novo século (mentalidade, ou ainda, forma de ver o mundo e as coisas) inegavelmente tecnocêntrico mas, quase paradoxalmente, altamente empático (empatia é uma discussão que quero trazer a vocês num próximo texto, porque ela é a base de toda a transformação que estamos vendo nesse novo mundo do trabalho);

(2) a acessibilidade tecnológica das últimas duas décadas, influenciando comportamentos, hábitos de consumo e volume de dados e informações disponíveis, em qualquer área do conhecimento;

(3) a transversalização como marca de uma nova geração de processos, produtos e serviços, onde profissões, especialidades e tecnologias interagem de forma diferente, demandando formações híbridas e perfis profissionais mais flexíveis e empáticos (olha a empatia aí de novo!).

Para quem ainda não sabe bem o que é o tal “híbrido”, vou dar um exemplo que mostra o quanto já somos híbridos: as atividades bancárias que você usa, são híbridas. Isso significa que parte delas são mediadas por tecnologias e à distância da sua agência bancária (aplicativos de smartphones, caixas eletrônicos), e a outra parte é possível somente com sua presença no banco. Isso é hibridismo, e isso é o futuro da Educação… Concordam? Vamos continuar analisando os fatos.

A segunda regra é conhecer o que estabelece o atual status quo desse tema, ou seja, aquilo que o faz ser o que é, nos dias de hoje.

No caso da Educação Superior, já mencionamos a legislação em texto anterior, mas agora cabe destacar um fato novo, que corrobora para a transformação total do futuro das salas de aula: a nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC) que transforma a visão do processo de “educar e formar”, bem diferente de “ensinar e diplomar”. Divergências à parte, a BNCC é uma grande onda de tsunami que compelirá todo o sistema a se repensar e se reorganizar. Ou aprende a nadar e surfar nesse tsunami, ou naufraga e se afoga.

Aprovada (finalmente) agora, em 2017, já tem cronograma de implantação a partir de 2018 (texto final deve ser publicado em breve), e promoverá uma reviravolta na formação da nova geração de estudantes. “Itinerários e eixos formativos”, além dos “mosaicos de aprendizagem”’, são algumas das novas expressões que fazem parte da nova maneira de construir a aprendizagem.

Essas mudanças vão acabar por impactar todo cenário da Educação Básica e seus atores, como estudantes, professores, coordenadores, pais e sociedade. Boa parte delas traz o híbrido – combinação orquestrada didaticamente entre o presencial e o digital – como alavanca para a desejada personalização da aprendizagem. Porém, mais que transformar o modo como a Educação Básica formará o novo estudante, o novo modelo tem o potencial de promover novas atitudes e performance no estudante.

Já a partir de 2019 o Ensino Superior começará a receber estudantes egressos desse novo ensino médio. Após isso, progressivamente até 2027, passaremos por uma transição em que Ensino Superior receberá jovens egressos que cursaram um número progressivamente maior de anos de estudo sob a égide dessa nova BNCC.

Portanto, existem dois pontos de inflexão claros na curva de necessidades de inovação em modelos de aprendizagens ativas, por parte de professores e cursos no Ensino Superior:

(a) 2020, com o começo do aporte de um novo mindset estudantil, embora com apenas dois anos de vivência nesse novo ensino médio;

(b) 2028, quando todos os estudantes que passarem ao Ensino Superior serão egressos de uma nova Educação Básica, regida pela nova BNCC.

Com esse cenário em mente, vamos à última regra: acompanhar e conhecer os elementos de inovação incremental e disruptiva que são intervenientes sobre o status quo do tema. Bom, é aqui que o hibridismo atual se expande e se associa a outras tecnologias educacionais incrementais, mas com fortes tendências disruptivas.

Se em cerca de três anos (2020) os estudantes formados por, e dentro de, uma prática educacional diferente chegarão à sala de aula universitária, a própria sala de aula já precisa ter sido ressignificada. Hoje já se praticam os “espaços de aprendizagem”, elas perdem suas paredes e ganham o mundo, porque os estudantes não irão mais às aulas em busca de “conteúdo”. Conteúdo, de tudo em todas as áreas, é farto e abundante, e está a um clique dos dedos e na palma das mãos.

Então, nesse futuro híbrido, porque irão os estudantes para as aulas, as salas, as universidades?

Pelo mesmo motivo que os jovens buscavam seguir e aprender com Sócrates e Aristóteles, na antiguidade: porque o maior valor de um professor é sua expertise em transmutar conteúdo para conhecimento, conhecimentos para significação, significação para insights, e insights para inovação.

De uma certa maneira, o hibridismo na Educação terá o potencial de nos levar de volta à Grécia antiga, quando nasceu o sentido do “professar”, e assim, do “professor”. Nesse futuro híbrido, nós professores abandonaremos as práticas de “repetir conteúdo” e assumiremos atitudes que reverberam para o tutorar, o inspirar, o engajar, e o dividir responsabilidades, no processo de formação profissional. Literalmente, passaremos a desenhar trilhas de aprendizagem.

É por isso que o Futuro da Educação, no Brasil, é híbrido e começa em 2019, tendendo a uma grande virada (disruptiva, talvez) aproximadamente em 2028.

Entre esses momentos, competências para trabalhar entre o presencial e o digital serão requisitos básicos para a nova geração de profissionais da Educação. Aliás, essa não será mais uma geração de “professores que professam”, mas uma geração de designers educacionais, ou desenhistas de aprendizagens integrativas e significadas. Uma competência muito diferente, e muito mais ampliada, do que o atual Designer Instrucional.

O presente já é híbrido, afinal. O que deve acontecer é que, num breve futuro, toda a nossa vida, incluindo a Educação, será completamente híbrida e pautada em novos e diferentes paradigmas. Cabe a nós abrir os olhos para os sinais à nossa volta e “droparmos” esse tsunami. Educação é nossa praia e aprender a surfar, desde já, é a conclusão desse nosso exercício.

Cortesia imagem da capa: SingularityHub

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Denise Da Vinha
Denise Da Vinha

Fisioterapeuta, Mestre em Fisioterapia, Doutora em Pediatria e Pós-Doutora em Engenharia Biomédica. Especializou-se em Metodologias Ativas de Aprendizagem e em Design Thinking for Education. Além de seguir atuando na carreira docente (no Brasil e na Espanha), atua na assessoria de desenhos Curriculares personalizados e inovadores, onde o principal trabalho é preparar, em mindset e repertórios, o corpo docente de instituições de ensino superior para que encontrem os melhores caminhos da inovação na formação dos egressos, dentro de sua própria realidade e recursos. Há dois anos iniciou a Rede Innovares (Facebook e YouTube), um projeto de desenvolvimento docente, baseado em modelos colaborativos, com o objetivo de dividir conhecimento para multiplicar experiências de aprendizagens. Sua produção científica conta com artigos em periódicos nacionais e internacionais, cursos e palestras em eventos científicos, livros, orientações de pós-graduação, sistematização de processos científicos e técnicos, todos nas áreas de Educação, Fisioterapia e Saúde.

Comments

  1. Mariangela Fazano : setembro 24, 2017 at 5:09 pm

    Grata pelas informações esclarecedoras, sem dúvida contribuem para divulgar essa realidade que já ronda o nosso cotidiano de docentes!

  2. Muito bom o texto e principalmente a parte final onde aponta para uma nova reinvenção do professor no desing educacional, criando e apoiando o desenvolvimento do aluno por trilhas de conteúdo

    • Ana, há cerca de uma década começamos a era das ressignificações. E o seu smartphone é o maior exemplo disso: até 2007, celular era para “chamadas”. Ponto. Finito. Super bem estabelecido, certo? Errado.
      Alguém foi lá e trouxe o conceito de agregar mais valor e personalizar o aparelho em nossas mãos com músicas, navegação, agenda, joguinhos… Muito mais se agregou depois, mas a essência é que o resultado está aí: cada smartphone é único na singularidade do usuário, mas é vendido coletivamente.
      Porque a educação deve ser oferecida coletivamente, mas não pode ser “personalizada” de acordo com as expectativas de projeto de vida de cada estudante? A questão é: não é possível ou não somos capazes disso? Se nós (professores) não formos, há quem será… Daí o motivo da transformação do paradigma do que seja “ser professor” nessa nova era de mudanças. Ser curadores e designers nos leva ao patamar dos smartphones: somos capazes de oferecer o coletivo, e de conduzir os estudantes para a personalização ampliada da aprendizagem.
      Quem souber fazer isso com maestria (e não só com diploma de mestrado/doutorado) está assegurado em qualquer cenário futuro.
      Um abraço e obrigada pelo comentário rico!

  3. Hedi Maria Luft : fevereiro 16, 2018 at 12:52 am

    Gostei muito e faz pensar e repensar a educação, especialmente, a escolar…. bem como a formação de professores.

    • Hedi, você tocou num ponto crucial: a formação de professores. Aliás, a formação de qualquer profissional.
      Continuamos formando como no século passado e esperamos que os egressos dêem conta dos próximos anos no mercado de trabalho… Isso não têm lógica. Vou dar um exemplo na minha área de formação, também, para ver como essa mudança precisa ser mais sistêmcia que somente as “metodologias ativas” de que tanto falam.
      Na área de movimentos, o conhecimento deu um salto com as tecnologias, a partir de 2008: novos conceitos de movimentos, funcionalidade, novas descobertas de elementos “vivos” (fascias, por exemplo) que interferem ativamente naquilo que conhecemos como movimento normal, anormal, treinamento, recuperação de movimentos. Não obstante, em TODAS as escolas continua-se ensinando a anatomia da década de 80, a fisiologia da década de 90, a cinesiologia do início do novo século.
      Pergunta: músculos, tendões, funções biológicas e motoras mudaram? Resposta: não, MAS… descobriu-se muita coisa como interações, ações de cadeias musculares (cujo conceito base vem da década de 60), elementos no controle da dor (como vitamina D, magnésio). Mas isso não faz parte do aprendizado da graduação. Quem quiser ser um profissional que trabalha de forma atual e diferenciada tem que buscar esse conhecimento em pós-graduações e formações, muitas delas não formais (aquelas Lato Sensu). E esses profissionais apresentam resultados melhores que os profissionais diplomados por cursos “regulados” pelo sistema de Educação Superior…
      Onde está a lógica? Não está nos Planos de Ensino, certamente. Quem lhe fala é uma fisioterapeuta que fez 2 cirurgias de coluna e conheceu m-u-i-t-o-s colegas e serviços de fisioterapia, agora como paciente. E percebeu que os melhores (que RESOLVERAM minhas dores) foram os que me trataram com conhecimentos adquiridos FORA do curso de graduação, em formações em abordagens, técnicas e métodos que usam princípios de raciocínio técnico diferente (e muito) daqueles que são ensinados para quem quer um diploma de Fisioterapia.
      Então, assim como precisamos rever a formação de professores, precisamos rever – penso eu – todas as formações. Não basta trocar o modelo de aula: é preciso rever e transmutar todo o conteúdo programático atualmente em andamento.
      Duro, difícil, mas não é impossível. Quem sair na frente… bebe água mais limpa e por mais tempo, já dizia o ditado da minha avó (que, paradoxalmente ao que estamos falando, ainda é muito atual, por sinal!).
      Obrigada pelo comentário e pela atenção!

  4. E você considerar que um curso de híbrido de fisioterapia pode formar um profissional tão capacitado quanto um curso integralmente presencial? Pergunto porque tenho interesse mas ao mesmo tempo tenho receio.

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