Cognifying: A Força Inevitável


28 dez 2016

Hey tripulante do futuro, estamos prestes a finalizar mais um ano e para fechar com chave de ouro, achei super oportuno falar sobre um tema de extrema relevância para o mundo.

Antes de começar a nossa viagem, vamos alinhar algumas coisas importantes.

Teremos dois textos sobre uma das doze forças inevitáveis: “Cognifying”, apontada pelo o  futurista Kevin Kelly no seu livro The Inevitable.

Nosso primeiro foco será mergulhar no conceito e nas possibilidades desta força, um convite à reflexão. O segundo será sobre o impacto no mercado de trabalho e nas organizações, um convite à mudança.

Todos os pontos abordados aqui são embasados no conteúdo do Kevin Kelly, mas com reflexões e questionamentos autorais.

Kevin Kelly (foto: ChinaFotoPress/Getty Images)

O que é uma força inevitável?

Tivemos diversas evoluções no decorrer da história. O homem criou o fogo, que permitiu criar a luz, depois a eletricidade, até chegarmos na super conectividade através da internet que segue uma linha cada vez mais exponencial e inevitável.

Uma definição do que é inevitável na visão do Kevin Kelly, são as forças que movem as tecnologias ao longo do tempo, ou seja, o processo científico por trás delas. Dentro desta análise olhando para o nosso tempo, as redes interconectadas por todo o mundo (a.k.a internet) é o que ditam o ritmo das tecnologias que temos hoje.

Isso implica que não poderíamos cravar a existência do Google, o Uber, o Iphone, etc. Porém, seria possível observar as forças que motivaram a criação deles, como o sistema de busca universal de informações, a ideia do acesso ao transporte particular compartilhado ou um sistema de comunicação a longa distância. Portanto, a compreensão do processo científico pode multiplicar o número de inovações.

Quando está chovendo conseguimos saber com absoluta certeza qual a direção das gotas de chuva (para baixo), mas é difícil saber o caminho delas quando estão na superfície. Assim são as forças inevitáveis: conseguimos enxergar padrões e direções, mas, dificilmente o caminho que elas vão percorrer.  

Força Inevitável: Cognificação

A primeira revolução industrial foi potencializada por uma força inevitável que revolucionou toda a sociedade. Através da eletricidade tivemos acesso a carros, geladeiras e até mesmo ao computador. Ela foi fundamental para sustentar o paradigma industrial.

Estamos no princípio de um novo paradigma que pode moldar uma nova etapa na evolução da humanidade. A cognificação pode significar uma mudança da evolução pela seleção natural para uma outra orientada pela inteligência. O verbo “cognificar” que significa adicionar inteligência a um organismo, representa bem essa nova era.  

O que caracteriza a cognificação como inevitável é o avanço exponencial do poder computacional, a abundância de dados on-line, e também todos conectados a uma rede comum, além de tudo estar mais acessível. Significa dizer que temos o cenário ideal para criar novas formas de inteligências não limitadas pela biologia, as chamadas inteligências artificiais (AIs).

Já temos AIs no nosso cotidiano em forma de recomendação do Netflix e Spotify, nas tags automáticas do Facebook e Instagram, ou até como assistentes virtuais (Siri, Cortana, Allo). Elas agem como um regulador de hábitos, influenciando sem você perceber o seu próprio comportamento.

Estamos diante da cognificação de qualquer coisa, ou seja, qualquer objeto, processo ou serviço pode tornar-se inteligente ao se conectar com uma rede de AI.

Dentro deste novo paradigma o que antes era moldado pela eletricidade, será pela cognificação.

Vamos imaginar um cenário de cognificação no trânsito:

Temos um sinal de trânsito com AI que permite regular os seus comandos com base na conexão com toda a via de tráfego que também possui elementos de AI, assim como os carros autônomos que se comunicam com outros carro, evitando possíveis congestionamentos ou até batidas. Com esta colaboração das AIs toda a mobilidade urbana tende a se transformar e ficar mais eficiente e inteligente.

Imagina o impacto que uma cognificação em massa pode ter em processos industriais e empresariais, nas cirurgias clínicas, no avanço no ensino, na distribuição de recursos, e na gestão pública por exemplo. Tudo isso pode ser feito de forma mais eficiente e rápida por uma AI.

Apenas lembrando que a AI já vem sendo desenvolvida há um bom tempo. O principal fator do seu avanço é que ao invés de ser toda programada por um humano, agora ela está sendo ensinada como aprender por conta própria.

Isso se deve bastante a pelo menos quatro elementos que eu considero essenciais para compreender a cognificacão:

1- Big Data: A torrente de dados que nutrem o aprendizado da AI.

2- Redes Neurais: Desenvolvidas tendo como base o funcionamento do cérebro humano.

3- Deep Learning: Uma forma de treinamento que acelera bastante o aprendizado da AI.

4- Cloud Computing: Rede de AIs que aprendem instantaneamente de acordo com a experiência de cada AI.

Vamos conhecer mais a fundo cada um e o que já está sendo cognificado através deles.

Big Data

Uma vez que grande parte dos serviços passam a ser digitais, todo tipo de dados desde relacionamentos, estilo musical, preferência política, classe social, sentimentos, passam a ser coletados por uma imensa base de dados, o Big Data. Isso ajuda a fomentar um sistema que pode personalizar vários serviços para você. Porém, há uma contrapartida: o acesso às nossas informações.

Podemos ter uma assistente virtual como a Siri da Apple ou até os chatbots que estão sendo utilizados na comunicação de algumas empresas. Munidos de dados on-line e sendo ensinados a aprender padrões de linguagem natural, para que possam auxiliar na compra de um produto, indicar desde conteúdos ou até locais legais para conhecer, e ser uma companhia para as pessoas.

O Instituto Gartner aponta que em 2020 os chatbots possam substituir os apps, ou seja ao invés de precisar de vários apps, um chatbot nutrido de todos os serviços (Waze,Doc, etc) que você utiliza poderia otimizar o seu dia.

Outra aplicação interessante com a união do Big Data e a Internet das Coisas, serão dispositivos que possam ajudar a monitorar a nossa saúde para prevenir potenciais doenças.

O Scanadu é uma ferramenta de medicina personalizada, inspirado na série Star Trek que opera através de um “médico” AI (Watson) dando um diagnóstico instantâneo.

Com o ritmo de crescimento da AI, é bem provável que uma criança nascida hoje, não vá precisar ir a um médico quando ela for adulta no futuro” – Alan Green, fundador do Scanadu.

Portanto, somos professores e os algoritmos aprendem através da nossa montanha de informações, porém eles estão se tornando cada vez mais independentes.

Redes Neurais

Imagine que você esteja caminhando em uma praça. Neste momento o seu cérebro está trabalhando paralelamente em uma série de coisas, registrando, categorizando e interpretando imagens e sons de todas as coisas que estão ao seu redor, além de tentar prever o que pode acontecer depois. Um processo que realizamos a qualquer momento e que é operado através da rede neural biológica.

Andrew Ng um dos precursores de algoritmos que funcionam como o cérebro humano, percebeu através de um chip (GPU) utilizado nos jogos de videogames mais complexos que poderia rodar redes neurais em paralelo. Assim, seria possível realizar de forma independente diversas ações diferentes com a vantagem de ser simulado por um software, ou seja, seria digital e exponencial, sem limites biológicos. Podemos programar a rede neural para aprender qualquer coisa.

As redes neurais estão sendo ensinadas a fazer de tudo desde criar o roteiro de um filme, compor uma canção, aprender a jogar um jogo ou até ser um tradutor tão eficiente quanto um humano. Há uma gama incrível de possibilidades para se aproveitar neste campo. Há inclusive um exemplo brasileiro no uso de redes neurais para criar uma nova composição para o cantor de rapper Sabotage, morto em 2003.

A música Neuron, gravada pelo o grupo RZO e com a participação do Sabotage via uma rede neural criada pela Kunumi que faz parte do grupo Flag.cx em conjunto com o Spotify (onde foi lançada), é o primeiro Rap no mundo criado com o uso da AI. A rede neural foi treinada com as produções intelectuais do rapper que eram avaliadas por um “braintrust” composto pelos realizadores do projeto que validava cada frase criada.

O resultado de uma produção musical através de uma AI demonstra o que pode estar por vir dentro deste campo. O chip (GPU) para operar as redes neurais hoje está bastante acessível, o que aumenta exponencialmente o número de aplicações e testes.

Estamos diante de um sistema com o processamento de um computador e a versatilidade do cérebro humano.

Deep Learning

Da mesma forma que temos um algoritmo que funciona como um cérebro humano, há uma forma de treinamento da AI que é crucial para intensificar a interpretação e compreensão de imagens, palavras e sons. Este método é o que permite uma maior eficiência em como a AI ver, ouve, interpreta e escreve as coisas. A cognificação dos sentidos humanos.

Para exemplificar, no modelo mais comum de aprendizado máquina temos milhares de vídeos sobre cães correndo na praia. A cada momento que você assiste a estes vídeos você está treinando o algoritmo do Youtube para entender o que é um “cão correndo na praia”.  

No entanto, com o advento do deep learning (ou “aprendizado profundo”) é possível não só aprender com o estímulo humano, mas o próprio algoritmo do Youtube vai sendo treinado a analisar diversas camadas (fragmentos do vídeo) daquela situação para interpretar por “conta própria” e afirmar que é um “cão correndo na praia” e não um gato, cavalo, etc.

Tivemos diversos avanços no aprendizado via deep learning neste ano de 2016, apenas para citar alguns:

– A AlphaGo AI do Google venceu o campeão mundial de GO, um jogo hiper complexo até mesmo para humanos.

– AI do MIT interpreta apenas pela imagem quais sons estão sendo realizados e criar sons em vídeos, o que pode ser utilizado para criar trilhas sonoras para filmes e séries no futuro.

– IA Watson detectou um tipo raro de leucemia em uma mulher no Japão em 10 minutos, um processo que se feito por humanos levaria duas semanas.

O Google uma das empresas que mais investem em AI (foram 11 aquisições até agora) possui a infraestrutura ideal para desenvolver AI, um amplo banco de dados e uma estrutura computacional de dar inveja. Para ter idéia a empresa tem dentro do seu Lab, o criador do deep learning, Geoff Hinton e Ray Kurzweil que além de ser um dos mais renomados futuristas, possui diversas invenções no campo de AI.

Acho muito interessante citar a percepção do Kevin Kelly sobre o Google:

O Google está usando o seu sistema de buscas para ensinar a AI e assim melhorar ela, acredito em 2026 o principal produto do Google não será mais as buscas, mas a AI.” – Kevin Kelly

Mas, apesar da otimização de como a AI aprende, faltava uma plataforma open-source onde pudesse ser utilizado como um campo de treinamento ou escola para treinar essas AIs.

O Universe projeto criado através da Open AI (iniciativa do Elon Musk) veio para preencher um pouco esse gap. Ele utiliza vários conteúdos usados por nós e principalmente games para treinar a AI em ambientes próximos à realidade, ou seja, é uma espécie de escola aberta, onde a AI pode aprender sobre várias tarefas em uma técnica de tentativa e erro chamada, “reinforcement learning”.

Os carros autônomos estão sendo treinados utilizando o jogo GTA, que por ter uma narrativa que se passa em uma cidade, vem ajudando bastante o algoritmo entender diversas circunstâncias possíveis na vida real. Outro fato interessante é que por se tratar de ambientes dinâmicos, otimiza a percepção das AIs.

Ainda sobre carros autônomos, o MIT elaborou um teste para entender como a AI vai reagir em situações conflitantes de cunho ético, como em uma colisão inevitável em que você precisa escolher salvar uma criança e o seu cachorro ou um casal de idosos.

Cloud Computing

Para entender porque a cloud computing (computação na nuvem) é tão relevante para a cognificação, vou fazer um paralelo como seria a nossa forma de aprender se tivéssemos todos conectados a uma única rede.

Imagina que você acabou de aprender algo sobre física quântica. Ao mesmo tempo que você aprendeu o assunto, todos que estão conectados à sua rede, instantaneamente aprendem a mesma coisa. Em resumo, nós seríamos organismos conectados à uma inteligência unificada.

Apesar disso ainda não ser possível pra gente, na AI acontece assim: qualquer coisa que uma AI aprenda, todas as outras da rede também vão aprender.

Isso é o que permite a AI Watson encontrar diagnósticos mais rápido do que qualquer especialista em câncer no mundo. Supondo que uma mutação rara surgiu no Brasil e o Watson nunca se deparou com tal circunstância, somente pelo fato do Watson estar conectado a uma rede de AI’s, ele vai conseguir dar um diagnóstico preciso.

Será que as máquinas estão no caminho de se tornar mais humanas e os humanos se tornando cada vez mais máquinas?

O que esperar da Cognificação no Futuro?

Uma visão particular minha é que a cognificação pode ser aquilo que alguns futuristas chamam de Singularidade. A inteligência passa ser um fator comum na evolução de qualquer organismo.

Penso em uma escala da cognificação que começa por:

objetos inertes → processos →  serviços → empregos → organizações → seres biológicos.

Apesar de eu achar que simplesmente não haverá ordem, tudo já está sendo cognificado ao mesmo tempo. O que diferencia são os níveis de eficácia.

Vale citar a visão do Kevin Kelly quando ele diz que não estamos no caminho para criar uma AI consciente, mas sim diversas espécies diferentes com propósitos e especialidades distintas. São organismos que pensam totalmente diferente dos humanos e por isso eles são tão essenciais. Para ele a mesma AI que vai fazer um diagnóstico da sua doença é diferente da que dirige um carro autônomo: “cada um no seu quadrado”.  

Queremos que o nosso carro autônomo esteja focado na estrada, e não com um problema com a garagem, também não faz sentido o Watson “médico” ter distrações durante uma consulta. Estamos criando tipos de inteligências que serão completamente diferente da nossa”. – Kevin Kelly

Portanto, o grande ponto da cognificação é hackear uma falha biológica que não permite expandir a nossa inteligência. Com a integração e a interação com organismos inteligentes será possível encontrar respostas para grandes questões que afligem a humanidade há séculos como os segredos do universo, e até mesmo entender a nossa mente.

Apenas lembrando que eu nem citei o impacto que tem com a convergência com outras tecnologias como por exemplo, com a biotecnologia e a nanotecnologia. O que causa a verdadeira disruptura são todas elas nutridas por cognificação a serviço da humanidade.

Finalizo este texto com uma mensagem do próprio Kevin Kelly e, logo em seguida, uma pequena quest nessa transição de ano:

“Daqui a milhares de anos, quando os historiadores revisitarem o passado, nosso tempo hoje será visto como o início de um período extraordinário. O momento em que os habitantes deste planeta começam a se conectar a um grande organismo unificado. As pessoas do futuro irão nos invejar e desejar ter presenciado o nascimento disso tudo.”

Por essa razão somos os arquitetos de um futuro que ainda não existe, porém as nossas escolhas e a nossa própria consciência irão decidir qual o futuro que vamos deixar para as próximas gerações.

QUEST

O que aconteceria se você cognificasse ou adicionasse inteligência em uma peça de roupa, ou na área de segurança pública, ou na área médica? Qual seria o efeito da cognificação neles? Se você pensou em outras coisas, compartilha aqui nos comentários.

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Bruno Macedo
Bruno Macedo

Bruno é explorador do futuro no F.E.X, empreendedor da DogFactor, pesquisador, game-designer e principalmente um curioso nato que estuda desde neurociência à gamificação. Tudo o que faz procura alinhar 3 coisas: Empatia, Subversão e Diversão.

Comments

  1. Obrigado por contribuir.

    Sobre a pergunta:

    Poderíamos continuar a pergunta respondendo da seguinte forma.

    O que aconteceria se a AI não considerasse o homem como fim último, seja por uma peça de roupa, na área de segurança pública ou médica?

    A resposta assim como demonstra a historia da humanidade é que o homem sofreria, pois estaria na condição de meio. Como somos seres detentores de DIGNIDADE e isso implica a condição de fim último, não podemos deixar de ensinarmos as AIs a sua verdadeira função; que é a de manter sempre nossa posição de fim último. A afirmação não é redundante, mas necessária.

    Obrigado

    Samuel Sabino

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