Uma ficção científica para lidar com os desafios do século XXI


11 set 2018

O divertido Geek’s Guide to the Galaxy – um dos mais conhecidos e acessados podcasts sobre ficção científica – trouxe, no episódio 325, Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus.

Harari, que é fã de ficção científica e tem um capítulo inteiro sobre esse gênero em seu novo livro 21 Lições para o Século 21, revelou sua visão sobre as Sci-fi, de que a maioria delas se concentra em narrativas fantasiosas e extravagantes demais.

“Hoje, pra mim, a ficção científica é o gênero literário mais importante”, disse ele. “Isso molda a compreensão do público sobre assuntos como inteligência artificial e biotecnologia, que provavelmente mudarão nossas vidas e a nossa sociedade mais do que qualquer outra coisa nas próximas décadas”.

Sim, a ficção científica em geral está associada à ficção fantástica e ao terror. Mas também é um estilo literário que lida com a ciência, tanto real quanto imaginada, e seu impacto na sociedade. Tem um papel importantíssimo para esclarecer conceitos e ideias difíceis de explicar. Principalmente, abrir as nossas cabeças para novas possibilidades antes não imaginadas. Já falei sobre esse assunto aqui. Veja também aqui os principais gêneros da Sci-fi.

A ficção científica é um entrelaçamento de romance, ciência e profecia.” – Hugo Gernsback.

Harari, no entanto, acredita que o poder desse gênero poderia ser utilizado para nos ajudar a lidar com situações que só agora estamos vivenciando e nos preparar melhor para o futuro.

Um exemplo do que ele quis dizer:

Até bem pouco tempo atrás, a nossa vida dividia-se entre passar um tempo na escola e na universidade, para em seguida, entrar no mercado de trabalho. Este modelo bifásico começou a ficar obsoleto. Hoje, para nos mantermos relevantes temos que continuar a vida toda aprendendo e reaprendendo (como diz Tofler), nos reinventando uma dúzia de vezes, se for preciso. Isso criar imensos desafios psicológicos, pois a mudança é sempre estressante. No meu caso, reinventar-se aos 40 anos pode ser algo bastante difícil. E se for preciso reinventar-me novamente aos 50? E mais uma vez aos 60? A escola não prepara a gente para uma vida tão mutante e tão fluída.

Você seria capaz de se reinventar quatro, cinco, seis vezes durante a sua vida?

E se fosse produzida uma Sci-fi que explorasse a situação de uma pessoa que, aos 40 anos, abrisse um novo negócio e depois de um ano este ficasse obsoleto com o surgimento de uma nova tecnologia? Ou após assumir um trabalho completamente novo e desafiador para ela, de repente perdesse o emprego por causa da automação, tendo que começar tudo da estaca zero?

Um filme que abordasse um assunto “quente” como a inteligência artificial e o impacto no desemprego, e como a protagonista encontrou caminhos alternativos para reinventar-se seria inspirador.

Exatamente pelo fato da ficção científica desempenhar um papel tão importante na formação da opinião pública, Harari considera que precisamos de mais filmes e narrativas que lidem com questões mais realistas, aumentando a conscientização das pessoas.

Claro que as Sci-fi nos divertem, mas, e se elas jogassem mais luz para os grandes problemas do século XXI? O que faremos quando a inteligência artificial (IA) tirar milhões de pessoas do mercado de trabalho? Como é que iremos usar o imenso poder da engenharia genética? Como é que vamos lidar com o aquecimento global?

Hoje, se você quiser entender melhor o impacto da IA sobre os empregos, tem que ler artigos na Science, na Nature, ou mesmo aqui no O Futuro das Coisas. Ficcionistas estão perdendo oportunidades de explorar essas questões.

Se você lê livros e assiste filmes sobre IA, já deve ter observado que a trama principal gira em torno do momento em que o computador ou o robô ganha consciência e começa a ter sentimentos (como na série Westworld, por exemplo). “Acho que isso desvia a atenção do público dos problemas realmente importantes para coisas que provavelmente não irão acontecer tão cedo”, disse Harari no podcast.

“Penso que grande parte da confusão entre inteligência e consciência é culpa dos filmes de ficção científica. Muitos se concentram na forma como um computador ou um robô inteligente ganha consciência e, depois, ou o cientista se apaixona pelo robô ou o robô tenta matar os humanos, ou as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Isto está muito longe da realidade. Na maior parte desses filmes, o robô é uma mulher e o cientista que se apaixona é um homem. Penso que estes filmes não são sobre o medo humano dos robôs inteligentes. São sobre o medo masculino de mulheres inteligentes e não sobre a inteligência artificial”, disse Harari nessa outra entrevista.

Sci-fi e Sci-fact

Suponhamos que o Brasil proíba a fabricação de super soldados autônomos (robôs que usam a IA). De que servirá isso se, ainda assim, a Rússia produzir robôs assassinos?

F.E.D.O.R. é o primeiro robô-humanoide russo, que está sendo preparado para ser enviado para o espaço em 2021. Ele já aprendeu a atirar com as duas mãos com alta precisão e a dirigir um carro. O governo russo jura que ela não será um exterminador, “mas uma inteligência artificial que será muito útil em diversos campos”, assegura Dmitry Rogozin, ministro da Defesa da Rússia, também responsável pelo programa espacial do país.

 

É preciso que mais e mais pessoas se conscientizem dos piores cenários possíveis, e que é necessário usar essas tecnologias principalmente para o bem.

“Que tipo de relações entre pais e filhos teremos quando os pais puderem viver 200 anos? Sim, quando eu tinha 30 anos eu tive um filho, e agora ele tem 170 anos”, especula Harari, que considera esse um tema maravilhoso para um filme de ficção científica – sem rebeliões de robôs, sem apocalipse, sem um governo tirano – apenas um filme singelo sobre a relação entre mãe e filho quando essa mãe tem 200 anos e o “filhinho” 170 anos.

Há muitos cenários de ficção científica que nunca se vão se materializar porque a sociedade pode agir para se proteger e regular tecnologias perigosas. O que Harari defende é que em vez de ficar abordando coisas que não fazem sentido científica e tecnologicamente, seria mais útil e interessante discutir coisas mais plausíveis em vez de ficar alimentando medo ou utopia.

Por estar em formato narrativo, a ficção científica nos permite obter licença artística para reimaginar o mundo. O nosso mundo. A nossa vida e o nosso futuro.

Crédito da imagem da capa: Austin Neill na Unsplash

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Lilia Porto
Lilia Porto

Economista, ativista da cultura maker, é co-fundadora do Joy Fab Lab, uma plataforma de inovação e educação maker. Também é idealizadora aqui do O Futuro das Coisas, oferecendo curadoria diária e gratuita de tendências, tecnologias e inovações, além de auxiliar marcas e instituições a terem acesso às melhores evidências disponíveis sobre o futuro de diversas áreas para que protagonizem transformações ao redor.

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