Este artigo nasceu de outro artigo. Uma troca de mensagens entre nós – Nira e Diogo – sobre um texto dele, publicado aqui no O Futuro das Coisas. Uma boa conversa regada pelo amor à aprendizagem gerou a ideia e o desafio de escrevermos em parceria. Estilos e históricos diferentes só enriqueceram a experiência, cujo resultado está aqui. Um artigo que nasce das reflexões em parceria – que a nós gerou alegria e animação, e, esperamos, a você leitor, também.

Um dos grandes, ou talvez, o maior benefício de instigar a reflexão é que, quase sempre, provocamos as pessoas a pensar dentro de sua realidade, balizadas por seu repertório conceitual e seus paradigmas. Para além, no mínimo corremos o risco de estimular o desenvolvimento de uma teia de pensamentos fiada pela diversidade de olhares. Nesse sentido, o desafio seria a inclusão, para desenharmos oportunidades, pontes, janelas, conexões que, continuamente com fluidez, conectam olhares plurais, dando vida a expansão de uma “teia” de vias. Essas teias tornarão efetivas as relações, interações, cooperação, comunidades e um contínuo movimento de transformação e impacto, como um movimento de ondas que criam novas ondas e assim, indefinidamente, um verdadeiro universo de aprendizagem.

Assim, aí vai nossa primeira provocação, entretanto, permita-se ir além, desprenda-se, desaprenda e sinta o que pode aprender. Explore as possibilidades de expansão de seu olhar, ou de novos olhares.

Se alguém perguntar: Qual o caminho para se alcançar algo?

A resposta seria: Por meio da aprendizagem.

Todavia, é quase como um reflexo linguístico de um exercício para ampliar o entendimento ou oferecer complemento e/ou sentido pleno ao que significa aprendizagem.  Assim, ao contrário do que usualmente fazemos, vamos tentar um exercício diferente: ao invés de focarmos nas expressões – processo de aprendizagem; sistema de aprendizagem; método e metodologia de aprendizagem, experiência, jornada e, até mesmo cultura de aprendizagem – vamos pensar somente em aprendizagem, pelo menos na fase inicial desse conjunto de reflexões e provocações.

Tudo é resultante da aprendizagem – aprendizagem como um meio que viabiliza e engaja propósitos e a diversidade de pensamentos, conhecimentos, técnicas e formas de trabalho – meio constituído de processos, sistemas, experiências, métodos e metodologias, jornada e cultura. Mas primeiro, vamos pensar puramente no caminho de construção do conceito, portanto no significado e sentido da aprendizagem, para depois pensarmos em sua finalidade (propósito/ legado), aplicabilidade – e por fim, como um fenômeno cultural.

Como você conceitua aprendizagem? Quando você pensa em aprendizagem, você pensa em um resultado/produto final? 

Partindo de uma abordagem mais livre e não convencional podemos considerar o processo de conceituação de aprendizagem a partir de nossa subjetividade?

Aprender é inevitável, pois é um processo humano que acontece desde o nascimento (ou até mesmo antes, no útero). Quando começamos a reconhecer padrões no rosto de nossa primeira cuidadora, já estamos aprendendo.

Talvez o ponto seja que as pessoas não estão atentas aos seus aprendizados nem buscam olhar o mundo com lentes intencionais. Com isso, perdem oportunidades. Ou pior: se fecham em crenças estabelecidas a partir de seu passado e assumem essas crenças como verdades. A partir daí, muitas vezes, ignoram as informações que chegam do mundo através dos sentidos. E se fecham em uma realidade criada pelo seu passado.

Estes dois caminhos – a desatenção às oportunidades de se aprender ao longo do dia (ou seja: falta de reflexão) e se fechar para a aprendizagem do novo, assumindo crenças e experiências passadas como verdade – são resultado de um misto da história pessoal com a cultura em que se está inserido.

No texto “Notas sobre a experiência e o saber de experiência”, Jorge Larrosa Bondía traça uma crítica ao modo de pensar a educação como relação entre ciência e técnica, ou teoria e prática. Ele explora o significado das palavras experiência e sentido e propõe pensar-se a educação a partir da relação entre elas, experiência/sentido.

Considerando esse pressuposto, partimos para observar seus efeitos nos mais variados ambientes de aprendizagem, quer seja uma sala de aula ou nos ambientes institucionais e organizacionais. O peso de obrigatoriamente desenvolvermos o pensamento fazendo uso apenas da racionalização técnico-científica ou apoiando-se em estratégias reflexivas já consagradas pode contribuir para um sentimento de ansiedade, atrapalhando na exploração de nossas experiências e vivenciá-las, impedindo ou até limitando nossa aprendizagem. Portanto, é preciso valorizar as experiências no mundo da vida que darão sentido à busca por um determinado conhecimento.

A aprendizagem é uma teia multidimensional, sensorial, senciente, e por ela, tudo se conecta e tudo se faz possível.

Justamente esta coleta de experiências múltiplas talvez seja uma forma contraintuitiva de pensar a aprendizagem, já que, hoje, tendemos a inseri-la apenas no contexto do ensino e da educação. Ao nos tornarmos colecionadores de experiências de forma aberta, ampliamos nossas possibilidades de dar sentido à realidade e fazer conexões inesperadas e criativas. Isso não significa uma ode à intuição nem um desprezo da razão, mas um reconhecimento de que elas caminham juntas.

E vale dizer que, entre as nossas possíveis experiências, estão livros e filmes, um passeio, uma viagem, uma conversa, uma observação atenta, unidos a movimentos intencionais e reflexivos, que se tornam elementos fundamentais da aprendizagem. Aprendemos com as vivências dos outros também e ainda bem.

É curioso que, da perspectiva da neurociência, Lisa Feldman Barrett afirma que aprendizagem se dá quando acontece algo fora do que prevemos, e que contraria nossas experiências passadas, desde que estejamos abertos a enriquecer nosso repertório. A única forma de contato que temos com o mundo exterior são os nossos sentidos. Mas, segundo a neurocientista, nem sempre usamos as informações que chegam através deles para definir a realidade. Muitas vezes, esta definição é apenas uma aproximação com base em nossas vivências anteriores. Em outras palavras, enxergamos, ouvimos, enfim, sentimos nosso passado.

Um exemplo disso é o que já podemos sentir, ainda que de forma atenuada, o sabor e a crocância de uma maçã sem mesmo prová-la. E, talvez, se no ato de morder uma maçã, o sabor for próximo daquilo que esperamos (com base no passado), vamos simplesmente sentir o que já sentimos antes. Por outro lado, se a maçã estiver salgada, levaremos um susto e precisaremos compreender aquela realidade inesperada.

Mas o que define nossa capacidade de nos abrirmos a novas experiências?

Reuven Feuerstein (1921-2014), em sua obra “Além da inteligência: Aprendizagem mediada e a capacidade de mudança do cérebro” contrapunha-se à ideia filosófica de que o conhecimento era uma característica inata. Feuerstein (1970) pensava:

“É preciso recuperar a forma de pensar, ao invés de recuperar conteúdos ou notas”

“A falta de mediação é causa de dificuldades de aprendizagem.”

“Todas as pessoas são modificáveis. Os cromossomos não têm a última palavra”.

Feuerstein acreditava que, para que um indivíduo alcance seu potencial de aprendizagem, é fundamental que haja a interação de um indivíduo com outro indivíduo. Para ele, não se pode distanciar: fator cognitivo do fator emocional/afetivo. Portanto, nesse contexto, a aprendizagem e o desenvolvimento humano poderiam ser potencializados por meio da mediação, e nesse processo a subjetividade do mediador (professor, pai, mãe, amiga (o), seu líder, um colega de equipe, adulto) contribui para o desenvolvimento das habilidades e competências (tanto reflexivas quanto instrumentais; comportamentais e técnicas) do mentorado (aluno, filho, um líder, colaborador).

Nesta breve síntese das ideias de Feuerstein, destaca-se ainda, não só a importância das experiências de aprendizagem mediadas como a importância de uma pessoa viver experiências diversas para o alcance do seu potencial de aprendizagem e desenvolvimento humano. Feuerstein considerava que, pessoas que convivem em ambientes propícios e ricos em relações interpessoais, desenvolvem mais efetivamente seu potencial de aprendizagem do que aqueles que não teriam esse privilégio.

Assim, destaca-se em Feuerstein, um olhar que entende que o desenvolvimento cognitivo e humano, perpassa pelos aspectos, cognitivos, interacionistas, afetivos e sociais. Cujo potencial humano configura-se pela busca do conhecimento e práticas dos valores éticos.

Este pensamento, mais uma vez, conversa com a neurociência contemporânea. Em seu livro How Emotions are Made, Barrett diz que “é preciso mais do que um cérebro para formar uma mente”. Nós nos tornamos humanos a partir do relacionamento com outros humanos. Nossos cérebros se desenvolvem e criam conexões a partir desta interação. Enxergamos o mundo com lentes de afeto porque o próprio afeto é responsável pelo nosso desenvolvimento como humanos na forma como nos conhecemos hoje. Sem interação social e cultural, não nos tornamos quem somos.

Em artigos publicados em parceria com outros pesquisadores, Barrett afirma ainda que a divisão entre cognição e emoção é artificial e que estes dois conceitos não poderiam ser separados. Esta perspectiva parte do princípio de que as emoções são construções sociais, assim como boa parte dos conceitos que adquirimos por meio da aprendizagem sociocultural.  Nesta visão, o próprio desenvolvimento das conexões neurológicas depende das interações com outras pessoas, literalmente construindo o cérebro a partir da aprendizagem social e cultural.

A APRENDIZAGEM VISA UMA AÇÃO TRANSFORMADORA:

PENSAR… REFLETIR…/ PLANEJAR… AJUSTAR…/ (RE)PLANEJAR / DECIDIR… AGIR…/ AVALIAR… (RE) AVALIAR…PENSAR…/ PROJETAR… PARA TRANSFORMAR…

Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social que tomamos parte” Paulo Freire (2000)

Nesse universo das reflexões que estamos tecendo, onde conceituamos a aprendizagem como uma “teia entre sujeitos e na relação dos sujeitos com o mundo” corrobora com um rito de passagem e uma mudança de paradigma necessária, em que, o foco não deve ser mais no ensino, cujo pressuposto é o professor (ou alguém que pretende ensinar algo) como protagonista do ambiente de aprendizagem, mais sim, o foco está na vida, no mundo do trabalho, na capacidade de observar e pensar livremente, no ecossistema, nas relações, nas conexões, nas vivências e experiências, nos sentidos e significados, nos complexos, que configuram a dinâmica entre os sujeitos e  o ambiente, bem como o contexto de aprendizagem.

O autor e jornalista Franklin Foer autor da obra “O Mundo que Não Pensa – A Humanidade diante do perigo real da extinção do Homo Sapiens” reflete que estamos delegando e terceirizando nossas capacidades intelectuais para empresas como Apple, Google e Facebook. Segundo ele, a consequência disso é tornar a vida, em vários aspectos, sobretudo social e político, cada vez menos diversa e mais automatizada. Não estamos aqui refletindo contra a tecnologia ou a revolução digital, apenas usando esse ponto de vista do autor como ponto de reflexão.

Foer aponta o risco da nossa obstinação por tecnologia nos fazer chegar a um ponto crítico da evolução humana, em que, nos afastamos de uma característica que nos diferencia das outras espécies nossa capacidade de pensar, imaginar, refletir e reconhecer, diríamos ainda que, nos diferencia não só das outras espécies como também das máquinas. E é nesse contexto que estamos observando a mentalidade do Design emergir novamente com abrangência e impacto em diversas áreas, exatamente porque nos ajuda a recuperar a capacidade de pensar, imaginar, refletir e reconhecer. Assim, é prudente ficarmos atentos a tudo que pode limitar as conexões que podemos tecer em nossa teia de aprendizagem, como a aprendizagem condicionada em vez de aprendizagem intencional ou o consumo condicionado ao invés do consumo consciente.

E como isso está afetando nossa capacidade de nos abrir para novas experiências e aprendermos a aprender?

Agora, faça um exercício reflexivo e imaginativo e observe como é comum encontrarmos certos estímulos – como recompensas, por exemplo – que nos levam a aprender de maneira condicionada e mudar de. Esses estímulos estão presentes nas organizações, nas salas de aulas, em nossas relações, nos mais diversos ambientes de aprendizagem com o objetivo de catalisar bons resultados. Mas não estamos condenando a possibilidade de uma pessoa ser recompensada por um esforço ou querer ser recompensada por ter alcançado uma meta.

Por outro lado, recompensas podem gerar outras respostas condicionadas. Isso pode levar o aluno a estudar, buscando uma pontuação apenas para obter aprovação e não pelo prazer de estudar e, o resultado pode ser o desencantamento, apatia, uma relação conflituosa com o espaço de aprendizagem. No ambiente de trabalho, o engajamento a uma iniciativa criativa e cooperativa, só acontece se houver recompensas associadas ao esforço para tal. Imagine os efeitos da sistematização do estímulo à aprendizagem e ao comportamento condicionado e, considere que o contexto é complexo.

Já na perspectiva cognitivista aprender é, sobretudo, “ter” outros conhecimentos a partir das mais diversas situações. Essa diversidade de experiências e vivências leva a mudanças e novos conhecimentos, portanto, a aprendizagem não se resume a mudanças de comportamento como as teorias do condicionamento costumam tratar.

Esse seria um cenário que dá fluidez à aprendizagem, por se interessar pela mudança do conhecimento, pela renovação do conhecimento, pela aprendizagem ao longo da vida.

Aprendizagem é o que dá fluidez à vida. É uma TEIA multidimensional, sensorial, senciente, uma ALDEIA, e por ela, tudo se conecta e tudo se faz possível.

Essa rede (TEIA) chamada aprendizagem, estende-se, dando a oportunidade para que potenciais caminhos sejam construídos a partir dos mais variados objetivos. A aprendizagem é mais do que um processo ou metodologia, é uma via. Uma substância viva, uma rede de conexões que permite a exploração de um universo, ora conhecido, ora desconhecido. É o que nos permite prosperar, realizar e sentir – encontrando o sentido para nossa existência. É o que nos une nas relações humanas e ao ecossistema que nos rodeia. É a base de nossa evolução antropológica e está inevitavelmente associada às nossas relações afetivas no mundo.

Aprendemos porque sentimos. E nos emocionamos porque aprendemos. Não há espaço na vida humana que não esteja associado à aprendizagem. A ideia de enquadrá-la apenas em determinados espaços, horários, situações parece fazer pouco sentido no mundo atual. Vivemos a herança da era da administração industrial e de seus reflexos na educação. Mas é preciso libertar a aprendizagem ela não precisa, não pode, não deve se limitar aos espaços designados para ela. É preciso retomar a reflexão, o prazer da descoberta, a valorização dos interesses pessoais.

Como a TEIA de aprendizagem poderia se tangibilizar para a população menos favorecida? Adultos e crianças em escolas públicas? Como pegamos essas ideias e as implementamos?

Para muitos brasileiros e brasileiras (crianças e adolescentes) mais vulneráveis, a escola pública se transforma em refúgio para fugir da violência e da fome, por exemplo. E não vamos esquecer o contexto da educação de jovens e adultos, como parte desse complexo. São nesses espaços que professoras e professores realizam o impossível, mesmo com suas limitações.

Não temos uma resposta definitiva. Devemos compreender as necessidades sociais e cognitivas e o contexto cultural dos alunos, o que ajudará a mediar a aprendizagem, acompanhando o aluno em ação-reflexão-ação, em processos simultâneos de: aprender; aprender a aprender; aprender a conviver e aprender a ser. O próprio contexto da vida do aluno, da sua escola e de sua comunidade podem revelar as primeiras vias dessa TEIA. No cenário de adversidades se fortalece o contexto de cooperação e coopetição, tornando-se parte do cenário de aprendizagem.

Acreditamos que a essência da TEIA é a cooperação. Então, precisamos ajudar a expandir e tornar sustentável essa cooperação por meio de uma teia de cooperatividade sistêmica entre Estado, Sociedade/Comunidades e Iniciativa Privada, capaz de agir antecipadamente e preventivamente contra o agravamento das limitações e vulnerabilidades das escolas públicas e comunidades mais carentes. E a sustentabilidade dessa TEIA depende das políticas públicas criadas com foco efetivo no combate às desigualdades.

Crédito da imagem da capa: Alina Grubnyak

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Nira Bessler e Diogo Souza

Nira Bessler é apaixonada por aprendizagem. Curiosa pelo mundo. Ouvinte atenta. É formada em jornalismo pela UERJ e certificada no Programa de Adult Learning and Development da Universidade de Toronto. Como executiva, atuou por 15 anos no mercado financeiro, nas áreas de Educação e de Relações com Investidores. Atualmente, faz mestrado em gestão de pessoas na FGV. Diogo Souza é pai de João Pedro, administrador, professor e mentor. Tem procurado fazer parte da construção de um mundo sem desigualdades, empenhando-se em contribuir com o desenho de estratégias de inovação social e ecossistemas mais inclusivos e justos. E tem buscado ajudar as pessoas a construírem seu próprio caminho por meio de sua dedicação ao desenvolvimento de ambientes e espaços de aprendizagem.

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