Desde que introduzi a discussão de futuros no processo de place branding, tenho conduzido dinâmicas cocriativas de explorações de cenários futuros. Uma constante, que confesso ter me surpreendido, é a dificuldade que as pessoas têm atualmente de imaginar futuros, e o detalhe aqui é justamente a imaginação.
É muito comum a proposição de cenários que esticam o presente, mas é raríssimo encontrar cenários que efetivamente ultrapassem a extensão do presente. Esse fenômeno não é isolado, e é importante distingui-lo de outros comportamentos aparentemente semelhantes.
O que observo não é aquilo que poderíamos chamar de futurofobia, que é o medo da incerteza que paralisa. Ou ainda, a recusa em projetar qualquer coisa porque o futuro é, por definição, desconhecido e, portanto, ameaçador. Tampouco é uma espécie de futurotopia, o seu oposto simétrico e igualmente inútil, que é a crença cega num futuro redentor e homogêneo. Um futuro que dispensa esforço coletivo porque vai acontecer de qualquer forma.
É algo mais sutil e, por isso mesmo, mais difícil de perceber e de combater. É aquilo que François Hartog descreve como presentismo, um regime de historicidade onde o a experiência do tempo passa a ser organizada predominantemente a partir do presente. Prefiro chamá-lo de hipertrofia do presente. Porque o que está em jogo não é apenas a centralidade do agora, mas uma expansão desse presente sobre o espaço onde deveriam coexistir a memória do passado, o presente propriamente dito, e a imaginação inerente aos futuros.
Não à toa, o planejamento urbano tradicional, com seus planos diretores e sua lógica predominantemente linear, segue sendo um dos instrumentos predominantes de pensar cidades. Mesmo quando esse planejamento se mostra insuficiente para lidar com rupturas como pandemias, eventos climáticos extremos, transformações tecnológicas e mudanças culturais que redefinem continuamente nossa relação com os lugares.
A incapacidade de romper
Nesse ambiente, o que falta não é informação. Falta a capacidade de romper, de imaginar algo que seja uma alternativa ao que existe, e não apenas uma continuação melhorada dele. E, aparentemente, essa capacidade não desapareceu por acaso, ela se atrofiou num mundo marcado pela aceleração social descrita por Hartmut Rosa, no qual a velocidade de resposta ao presente parece ganhar precedência sobre a capacidade de imaginar futuros.
Costumo provocar as pessoas rememorando que, se perguntássemos sobre o futuro das cidades nos anos setenta do século passado, provavelmente ouviríamos coisas como carros voadores e teletransporte. Ao perguntarmos hoje, diante de tanta tecnologia em nosso dia a dia, o mais comum é ouvirmos algo como ruas largas e câmeras de segurança.
Talvez isso também decorra da tradição do planejamento urbano que historicamente exclui as comunidades do processo de imaginar a cidade. Ao longo do tempo, essa separação pode ter contribuído para uma cultura que passou a tratar a esperança como ingenuidade, e qualquer visão de futuro coletivo com a suspeita tipicamente reservada aos delirantes. Ou seja, o presentismo parece ser mais uma condição estrutural do tempo que vivemos do que necessariamente uma característica do comportamento humano.
Rupturas de cima para baixo
Nem sempre foi assim. O urbanismo do século XX produziu visões, que compreendo como grandiosas e, em grande parte dos casos, equivocadas. Le Corbusier propôs no Plan Voisin, em 1925, a demolição de uma grande área do centro de Paris para substituí-la por torres e amplos eixos viários, subordinando a rua à lógica do carro. Já vimos essa mesma lógica em algum lugar?
Brasília não copiou literalmente esse gesto, já que não havia tecido urbano consolidado para demolir, mas compartilhou a mesma ambição de reordenar a vida urbana a partir de um desenho totalizante. Em outra direção, Ebenezer Howard imaginou em Garden Cities of To-morrow, de 1902, conter a cidade industrial em assentamentos de tamanho limitado articulados por controle coletivo da terra.
Já os Metabolistas japoneses, em torno da World Design Conference de Tóquio em 1960, conceberam megaestruturas renováveis e mutáveis. Kenzo Tange levou essa imaginação ao limite ao propor a expansão de Tóquio sobre a baía por eixos suspensos. Frank Lloyd Wright, em Broadacre City, apresentada em 1935, imaginou uma cidade radicalmente descentralizada e de baixíssima densidade, uma utopia espacial oposta a Le Corbusier, mas igualmente sem paralelo no presente que existia.
Entre tantas críticas possíveis a esses projetos, e elas não são poucas, nenhum deles estava apenas esticando o presente, mas propondo rupturas. Rupturas frequentemente concebidas de cima para baixo, cheias de certezas e pouco abertas à participação coletiva. Eram, certamente, futuros singulares tratados como inevitáveis, o que precisamente os tornou tão datados.
Boa parte dessas propostas compartilhava um mesmo problema: ignorar a escala humana e a pluralidade. Mas ainda assim, havia algo que o presentismo eliminou por completo – a disposição de perguntar se a cidade poderia ser radicalmente diferente do que era. Essa pergunta é o pré-requisito de qualquer transformação real, e aparentemente, esquecemos como fazê-la.
Retropia, Presentismo e Colonização
A questão aqui é justamente a característica estrutural dessa nossa incapacidade, e os padrões que ela produz quando lugares deixam de imaginar futuros próprios. E isso não é um colapso, mas a adoção, quase inevitável, de pelo menos um entre três modos de operação que parecem estratégia, mas não são.
O primeiro modo de operação é o que Zygmunt Bauman chamou de retrotopia. Seria a substituição da utopia, que apontava para frente, pela nostalgia, que aponta para trás, como horizonte político e identitário. Operar em modo retrotópico é não imaginar o futuro porque já se convenceu sobre seu tempo preferido, um passado idealizado que provavelmente nunca existiu da forma como é lembrado.
Embora os passados sejam tão plurais quanto os futuros, é importante lembrar que é preciso entendê-los para explorarmos possíveis futuros. Passados por vezes esquecidos, apagados, sequestrados, envergonhados, romantizados. Nesse sentido, é impossível não lembrar do Sankofa, conceito do povo Akan, de Gana, que se traduz como “voltar e buscar”. Se desenha na figura de um pássaro que avança com a cabeça voltada para trás, pegando um ovo que carrega nas costas.
Não se trata de nostalgia, nem de culto ao que passou, mas da compreensão de que não há futuro explorado com honestidade que não passe por um gesto de retorno, por reconhecer o que ficou para trás e ainda nos constitui. Avançar e olhar para trás não são movimentos contrários, e nenhum lugar atravessa bem o que vem pela frente sem antes saber o que carrega nas costas.
O segundo é o oposto aparente do primeiro, mas igualmente paralisante: a cidade que não olha para o passado nem para o futuro. E que vive, permanentemente, presa ao presente imediato, respondendo a crises e emergências, sem visão ou direção. Podemos chamar de presentismo reativo, a administração do cotidiano como se o futuro fosse um problema que se resolve sozinho. Ou que não vale a pena antecipar porque a incerteza é grande demais para ser enfrentada.
E há ainda um terceiro modo, ainda mais perigoso porque se disfarça de solução. Ouvi esse termo pela primeira vez da futurista Rosa Alegria: colonização de futuros. Entendo como a ocupação do nosso imaginário por visões de futuro construídas por outros, em geral por elites econômicas ou tecnológicas e que produzem futuros de um para muitos. Futuros que parecem universais, mas que servem a interesses específicos.
O exemplo usado por Alegria é revelador: a exposição Futurama. Concebida por Norman Bel Geddes para o pavilhão da General Motors, na Feira Mundial de Nova York de 1939, essa exposição apresentou ao público norte-americano uma visão de cidades do futuro construídas inteiramente em torno de rodovias. Não porque fosse a melhor forma de organizar uma cidade, mas porque era o futuro que melhor servia ao produto de quem o patrocinava.
A GM não vendia apenas carros, vendia uma civilização. Aplicado aos lugares de hoje, esse mecanismo opera de forma mais sofisticada: cidades adotam modelos globais de inovação urbana, estéticas de modernidade e vocabulários de cidade inteligente. Mas sem mediação com suas identidades e comunidades, e passam a adotar futuros importados.
Esses três modos – a retrotopia que olha para trás, o presentismo reativo que não olha para lugar nenhum e a colonização que terceiriza o olhar – não são mutuamente exclusivos. Com alguma frequência coexistem na mesma cidade, grande ou pequena. Às vezes, na mesma política pública, e é essa sobreposição que torna o problema tão difícil de delinear e, por isso mesmo, tão difícil de combater.
Não somos um povo sem imaginação
Dizer que não sabemos mais imaginar cidades não é dizer que somos um povo sem imaginação ou que nossa cultura é resistente ao futuro. Ou pior, que há algo irremediável na nossa relação com o tempo. Porque imaginação coletiva não deve ser tratada como comportamento cultural, e sim como uma habilidade. E habilidades se atrofiam quando não são exercitadas, mas se reconstroem quando são criadas condições para as exercitá-las.
Quando comunidades são colocadas em condições reais de imaginar juntas, acontece algo que vai muito além dos cenários que produzem. A qualidade técnica desses cenários, aqui, é o de menos. O que de fato importa é a relação das pessoas com o lugar, a percepção de que o futuro lhes diz respeito e de que elas têm algo a dizer sobre ele.
É disso que trata o Imaginative Communities, livro do Robert Govers, cuja edição brasileira sou coautor. A tese central é que os lugares admirados no mundo não conquistam essa admiração por marketing nem por uma imagem bem construída. Conquistam por aquilo que efetivamente fazem: iniciativas, projetos e políticas imaginativas, fiéis ao próprio caráter, sustentadas por um senso forte de pertencimento e propósito e voltadas a fortalecer o local.
Imaginação e criatividade
A imaginação coletiva é o que dá substância a uma reputação capaz de durar. Onde avanço um passo em relação ao Govers é aqui: no meu trabalho de campo, coesão costuma emergir menos como ponto de partida e mais como resultado de imaginar junto. Na formulação mais direta do livro, que quase soa simples demais para a complexidade que descreve. Comunidades imaginativas são faróis de esperança num mundo impiedoso, competitivo e globalizado, em que as identidades se perdem.
O que torna esse argumento mais do que otimismo bem-intencionado é uma distinção que continua me parecendo essencial para entender o problema: a diferença entre imaginação e criatividade. Enquanto a criatividade pode ser incorporada de fora para dentro, a imaginação, no sentido em que uso o termo, é necessariamente situada, parte da identidade do lugar, das suas singularidades, das suas contradições.
É algo comparável ao que Simone Weil chamou de enraizamento, descrevendo como uma necessidade da alma humana, ligada à participação real e ativa na existência de uma coletividade. E capaz de manter viva a herança do passado sem se fechar ao que ainda pode surgir. Ou seja, um lugar que imagina a partir de si mesmo não está negando o presente nem fugindo para o passado. Está exercendo a capacidade de se tornar diferente do que é.
A pergunta que fica não é se é possível reconquistar essa capacidade, porque a resposta para isso já existe na prática. Mas se estamos dispostos a criar as condições para que isso aconteça. Isso exige, antes de qualquer coisa, tratar a imaginação coletiva como o que ela é, afinal: infraestrutura.
Crise de permissão
O que me parece mais revelador nesse quadro é que não estamos diante de uma crise de capacidade, mas de uma crise de permissão. Comunidades não estão imaginando futuros radicalmente diferentes do presente não porque não consigam, mas porque nossas instituições raramente reconhecem que imaginar o futuro também faz parte do papel das comunidades. Imaginar a cidade é um ato político tão legítimo quanto votar, pagar imposto ou ocupar uma praça. A cidade que existe não é a única cidade possível, apenas a que resultou das escolhas, omissões e colonizações do imaginário que se acumularam até aqui.
O futuro ainda não existe, e é justamente por isso que ele pode ser diferente do presente, o que é ao mesmo tempo a coisa mais óbvia e a mais difícil de aceitar. Principalmente numa época em que o presente ocupa tudo e não sobra espaço para imaginar que as coisas poderiam ser de outro jeito, outro sotaque, outra escala, outra relação com o tempo, com a memória e, principalmente, com quem a habita as cidades.
E é nessa brecha que o place branding, quando não confundido com narrativa promocional, encontra seu papel decisivo: não escolher entre o que um lugar já foi e o que ainda pode ser, mas fazer do primeiro o material com que se imagina o segundo. Não se trata de congelar um passado idealizado nem de projetar um futuro sem raiz, e sim de criar as condições para que uma comunidade explore aquilo que pode se tornar sem deixar de reconhecer de onde parte.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Retrotopia. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.
BEL GEDDES, Norman. Magic Motorways. 1940
GOVERS, Robert; ESTEVES, Caio. Imaginative Communities: cidades, regiões e países admirados. Edição brasileira. Antuérpia: Reputo Press, 2020.
HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
HOWARD, Ebenezer. Garden Cities of To-morrow. 1902.
LE CORBUSIER. Plan Voisin, Paris, France, 1925. Paris: Fondation Le Corbusier.
ROSA, Hartmut. Alienação e aceleração: por uma teoria crítica da temporalidade tardo-moderna. Petrópolis: Vozes, 2022.
WEIL, Simone. O enraizamento. Petrópolis: Vozes, 2023.
Ilustração da capa:


