Estou me percebendo, com muitas coisas, cada vez mais desapegado.

Se o “plano A” não dá certo, vou para o “plano B”. Se não existe ainda um plano B, abre-se espaço para uma das maravilhas da vida: a invenção.

Eu sei que posso estar parecendo ingênuo aos seus olhos agora.

Afinal, certas coisas não deveriam ser tão fáceis de se desapegar. Se eu deixo pra lá e crio algo novo com alguma facilidade, estaria eu realmente valorizando o que eu “tinha”?

O valor, na nossa sociedade, é muito confundido com apego, posse.

Seria possível valorizar muito alguma coisa, alguém ou alguma experiência e mesmo assim não se apegar?

Isso me faz lembrar dos monges tibetanos que constroem complexas mandalas de areia e depois as destroem sem dó nem piedade.

Dizem que isso é uma das receitas para a felicidade.

Ao se desapegarem da mandala, será que os monges “não se importam” com ela?

Seria o apego uma medida de importância?

Soa bastante cruel e capitalista pra mim: eu percebo o quanto me importo na medida em que eu tenho a posse de algo (um objeto, uma pessoa ou determinada situação que eu escolho “congelar” na minha mente).

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Don Miguel Ruiz Jr. escreveu um livro chamado Os 5 níveis de apego: a sabedoria tolteca para o mundo modernoAo iniciar sua “teoria” sobre os apegos, o autor usa a metáfora do futebol. Selecionei alguns trechos abaixo:

1. Eu Autêntico

“Imagine que você gosta de futebol e que pode ir a um jogo em qualquer estádio do mundo. Poderia ser um estádio magnífico ou um campo de terra batida. Os jogadores poderiam ser excelentes ou medíocres. Você não está torcendo a favor nem contra um lado específico. Não importa quem está jogando. Assim que vê um jogo, você se senta, assiste e curte durante os noventa minutos. Você simplesmente curte o jogo pelo que ele é”.

2. Preferência

“Desta vez, você assiste a uma partida e, novamente, em qualquer estádio do mundo, com dois times quaisquer, mas agora está torcendo para um deles. Você percebeu que se investir um pouco mais de si para identificar uma preferência, a montanha-russa emocional torna o jogo mais empolgante”.

3. Identidade

“Agora você é um torcedor de um time específico. As cores do time mexem com suas emoções. Quando o árbitro apita, o resultado do jogo lhe afeta emocionalmente. Trata-se do seu time favorito. Você ainda pode ir a qualquer estádio do mundo, mas nada se compara a ver esse time jogar. O seu time, ganhando ou perdendo, define parte do seu caráter fora daqueles noventa minutos de jogo”.

4. Interiorização

“Usando mais uma vez a analogia do esporte, no nível quatro a sua associação com o time favorito agora se torna uma parte intrínseca da sua identidade. A vitória e a derrota agora têm a ver pessoalmente com você. O desempenho do time afeta a sua autoestima. Ao ler as estatísticas, você reprova os jogadores por nos fazerem ficar mal. Se o time adversário ganha, você fica com raiva por eles terem derrotado você”.

5. Fanatismo

“Neste nível, você tem adoração pelo seu time! Seu sangue jorra nas cores dele! Torcedores do time adversário se tornam inimigos automaticamente, pois esse escudo tem de ser defendido! Esse é o seu terreno, e os outros devem ser subjugados para que também possam ver que o seu time é o verdadeiro, e que os outros são apenas uma fraude”.

Nós navegamos por entre os 5 níveis de apego em diferentes contextos da nossa vida.

Existem coisas que eu sou mais apegado que você, e vice-versa. Cada um sabe onde aperta o “calo” do apego.

Um grande segredo é não deixar as nossas identidades nos consumirem. Isso acontece quando chegamos nos níveis 4 e 5 do apego.

Gosto de pensar no nível 4, interiorização, como “domesticação”. É quando uma identidade se torna tão fixa que começa a nos adestrar.

Aí a coisa começa a ficar perigosa.

Os níveis 4 e 5 de apego podem ser entendidos como profundas raízes do sofrimento humano.

E o que apego tem a ver com aprendizagem?

De certo modo, eles são contrários. Quem é muito apegado não aprende nada novo.

No final de seu livro, Don Miguel Ruiz Jr. conta sobre um jogo de futebol que estava assistindo. Ele torcia para um dos times e o jogo era contra o seu maior rival.

Em certo momento, a televisão ficou sem som. Só a imagem aparecia. Superada a frustração inicial por não viver a experiência como esperava, ele resolveu fazer um experimento: “vou assistir a esse jogo como se nunca tivesse assistido a nada parecido na vida”.

Ele começou a prestar atenção na movimentação dos jogadores, nas estratégias, nos detalhes. Nenhum narrador estava explicando pra ele o que acontecia a cada momento.

Os “mestres explicadores” haviam saído de cena. O experimento permitiu que ele visse com os próprios olhos, pensasse com a própria cabeça, sentisse com o próprio coração.

De repente, ele estava vibrando com as jogadas de ambos os times.

Para isso, ele também precisou desligar seus próprios “narradores” internos. Não era sobre analisar cada passe. Era sobre se entregar à experiência.

Em um nível profundo, desapegar significa “deixar ir” a voz dos narradores, tanto externos quanto internos.

É a possibilidade de reagir com estranhamento, de perceber algo como se fosse a primeira vez, de dizer não aos reducionismos, de viver o que é.

O desapego não é apenas algo necessário para o aprendizado. Ele é parte fundante do próprio processo de aprender.

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Alex Bretas

Alex Bretas é escritor, palestrante e especialista em aprendizado autodirigido e lifelong learning. É o idealizador do MoL, uma comunidade de aprendizagem autodirigida, e coautor do livro Core Skills: 10 habilidades essenciais para um mundo em transformação. Colabora com as empresas na redefinição da sua cultura de aprendizagem e com os indivíduos na sua capacidade de aprender a aprender. Saiba mais em www.alexbretas.com

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