Voltemos lá na década de 1940… o Leasing ganha popularidade, baseado, sobretudo, no empréstimo de armas para os países aliados, com possibilidade de compra ou de devolução após o uso.

A partir disto, o conceito se estendeu para os imóveis, carros, outros bens duráveis e até não duráveis mundo afora, com possibilidade de renovação contratual recebendo um produto mais novo e atual. Isso foi o primeiro passo para substituir a compra pelo “aluguel”.

Chegou então a indústria dos eletroeletrônicos… percebendo que esse modelo as faria ter menor receita, as grandes companhias começaram a incutir o desejo de posse no consumidor final (com a publicidade, claro!), alinhando-o com a obsolescência programada: aparelhos cada vez mais caros e mais rapidamente caindo em desuso, a recompra seria garantida quando uma tecnologia mais avançada com um design mais atraente fosse lançada a cada ano.

Na indústria da moda, a coisa foi por um caminho similar. Os grandes estilistas do início do século 20 faziam roupas para durar, alfaiataria de qualidade que passava por gerações, mas, essa indústria também percebeu que precisaria massificar, apenas tendo em mente que o consumidor queria continuar consumindo estilo. Surge então o fast fashion, que traz para as araras de grandes magazines o que está sendo apresentado nas passarelas, com preço acessível, capilaridade, às vezes qualidade duvidosa e muitas vezes, com trabalho escravo ou análogo à escravidão.

No meio disso tudo veio também o aquecimento global, a consciência sobre o uso indiscriminado de recursos, a geração de lixo não reciclável, o aumento da temperatura global e a escassez. Cada vez mais pessoas tornavam-se conscientes do seu impacto no mundo, sua pegada. Este efeito pêndulo nos fez entrar em uma nova era, que alia a tecnologia à consciência e ao legado que queremos deixar.

Esta é a era do “Less is more“,  do desapego, com pessoas mais preocupadas em ter novas experiências (algumas querendo mostrá-las nas redes sociais) do que ter coisas… mais bacana do que ter o carro do ano é viajar para um lugar que ninguém nunca foi, comer no restaurante que é delicioso e poucos conhecem, ser descobridor, desbravador, influenciador.

O futuro tem este tom, de ter cada vez menos e experenciar cada vez mais.

Car sharing já é realidade em muitos países (em 2015, 4,8 milhões de pessoas utilizaram o serviço no mundo). Em 2020, o setor deve movimentar 6,2 bilhões de dólares; House Sharing já acontece via Airbnb (em que é possível alugar um quarto na casa de alguém ou o apartamento inteiro) e há muitos projetos em que pessoas com perfis semelhantes decidem morar juntas e compartilhar espaços e a vida (há até um aplicativo em que o usuário encontra seu “match” de moradia).

Ter um escritório já não faz mais sentido para muitas empresas: o Coworking é a solução perfeita, provendo espaço, tecnologia e networking; Há cada vez mais lojas e apps em todo o mundo em que é possível alugar e compartilhar ferramentas, máquinas, robôs, celulares, bolsas e roupas de grifes famosas; A informação é compartilhada, o conhecimento está disponível para todos, online, em tempo real, na nuvem: os filmes e as músicas estão em streaming, as aulas estão em vídeos.

O ter vai dando lugar ao experimentar para depois ter (ou não).  Há agora um filtro no que se consome, uma equação que parece ser boa para as pessoas, para o planeta e até para as marcas, que terão consumidores mais convictos de uma compra.

Ao contrário do dicionário que define Compartilhamento como:

1- Partilha: divisãopartilharepartimento

ou

2- Ação de repartir: distribuiçãorepartiçãosubdivisão.

… o compartilhamento é libertador, democrático, diminui desigualdades, desperdícios, aumenta o poder de consumo e a abundância.

As empresas que mais investem em tecnologias disruptivas baseadas em compartilhamento são, ironicamente, as mais valiosas nas bolsas de todo o mundo! Airbnb, Uber, Wework, Netflix, Spotify, Whatsapp, WeChat, Amazon… boa parte delas não existia há 10 anos.

Quais serão as empresas mais valiosas do mundo nos próximos dez anos? Especialistas dizem que elas ainda não nasceram…

Certamente elas irão nascer detectando “dores” dos consumidores, democratizando o “ter” e o acesso, utilizando menos recursos e mais tecnologia. Essas empresas irão focar menos no indivíduo e em sua exclusividade pela posse, e mais em sua exclusividade por ser quem é e pelo seu papel no mundo!

Crédito da imagem da capa: H Heyerlein

Bianca Zeitoun Oglouyan

Formada em Gastronomia e Hotelaria, já trabalhou em hotéis, teve seu restaurante, mas desde 2006 trabalha no varejo, com marcas nacionais e internacionais. Se apaixonou pelo empreendedorismo social em 2008 e estuda o tema desde então, já foi voluntária no TEDx microrrevoluções, na Yunnus&Youth; hoje conduz sua empresa de consultoria para redes de varejo e shoppings, a TEAR e também o projeto Laços, que capacita e empodera microempreendedores em favelas e comunidades. Ainda não sabe direito com o que vai trabalhar no futuro, mas está aproveitando a jornada!

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