Como a Blockchain pode te ajudar a entrar no grupo dos superlongevos


10 mar 2019

Meu filho nasceu há um mês. A felicidade vem junto com um turbilhão de emoções e inquietações. A preocupação com a sua saúde, com o seu futuro, e o mundo que deixaremos para ele. Será que ele viverá até os 120 anos? Ou será que entrará no grupo de pessoas que adoecem mais cedo?

Segundo um estudo publicado no The Guardian, nos próximos 20 anos, o número de pessoas acima de 65 anos que possuem mais de 4 tipos diferentes de doenças – conhecida como multimorbidade – irá dobrar. Essa projeção nos alerta para a necessidade de repensar toda a estrutura e os recursos utilizados nos sistemas de saúde de uma forma realmente conectada globalmente, o que podemos chamar de saúde planetária.

Blockchain é uma das tecnologias exponenciais que pode contribuir nessa mudança de paradigma e ajudar as pessoas a cuidarem melhor de sua saúde. Com o avanço tecnológico,  o sistema de saúde como um todo pode ser exponencialmente mais humano.

A IBM fez uma pesquisa com 200 executivos que atuam na área da saúde em 16 países. Essa pesquisa revelou que 16% deles planejavam implementar soluções baseadas em Blockchain durante o ano de 2017 e 56% até meados de 2018.

O setor da saúde está adotando mais rapidamente a Blockchain do que o setor financeiro. Para surpresa da IBM, 16% das organizações de saúde são Trailblazers (pioneiras): estavam prontas para comercializar blockchains em escala em 2017. Na pesquisa que a IBM fez com bancos e empresas do mercado financeiro, apenas 15% e 14%, respectivamente, planejavam estar em escala comercial em 2017. (Crédito: IBM, Healthcare rallies for blockchains)

 

No Brasil, estamos em 2019 e ainda estamos discutindo tecnologias básicas e a regulamentação que visa aprovar a telemedicina. As bases que fundamentam a lei da telemedicina estão relacionadas com as leis de proteção de dados da comunidade européia a GDPR  e também com a sua versão brasileira a LGPD. Ambas as leis se baseiam nos 7 princípios de Caldicott, no anexo D.

1. Justificar o propósito.

2. Não usar dados pessoais e confidenciais a não ser que seja absolutamente necessário.

3. Usar o mínimo necessário de dados pessoais e confidenciais.

4. O acesso aos dados pessoais deve se restringir ao propósito reconhecido.

5. Todos que tiverem acesso aos dados pessoais e confidenciais devem ser informados sobre suas responsabilidades.

6. Cumprir com as leis vigentes.

7. A tarefa de compartilhar a informação deve ser vista como tão importante quanto a tarefa de proteger a confidencialidade do paciente.

Porém, acreditamos que a discussão sobre a regulamentação da telemedicina é só a ponta do iceberg. (Como podemos visualizar no relatório do Dr Eric Topol na #topolreview)

Figura extraída do The Topol Review: Preparing the healthcare workforce to deliver the digital future.

 

Devemos ainda focar nossas discussões nos conceitos fundamentais de proteção e compartilhamento dos dados que permeiam todas as tecnologias.

Segundo o relatório Medical Devices 2030 da KPMG, as potencialidades da tecnologia Blockchain para dispositivos médicos podem ser tão ou até maiores do que o seu impacto no setor de finanças. Segundo esse relatório, a “COOPETICÃO” (aliança com concorrentes) poderá ser o modelo de negócios escolhido por muitas empresas de dispositivos médicos em 2030; muitas delas irão se associar a empresas que utilizam a Blockchain.

Blockchain é uma tecnologia tão fascinante que resolveria uma série de problemas técnicos, numa só tacada, respeitando os princípios de Caldicott e em conformidade com as leis de proteção de dados, a GDPR na Europa e a LGPD no Brasil.

Benefícios da Blockchain para os pacientes

Existem algumas tendências de aplicações da Blockchain na Saúde que podem ser uma excelente oportunidade de negócio com grandes benefícios para os pacientes e os sistemas de saúde.

1. Armazenamento de registros médicos: será a primeira área com grande e imediato impacto.

2. Financiamento para Pesquisa e Desenvolvimento de novos tratamentos especialmente em biotecnologia.

O Deutsche Bank acredita que 10% PIB mundial terá suas transações gravadas em Blockchain nos próximos anos. A Delloitte e uma série de outras instituições financeiras estão analisando investir seriamente no uso dessa tecnologia na saúde nos próximos anos.

3. Financiamento de novos hospitais e ambientes de tratamento médico.

4. Rastreamento dos medicamentos.

5. Melhora da saúde financeira de todo o ecossistema de saúde.

Em novembro de 2018, Myongji Hospital South Korea tornou-se uma das instituições globais que adotou a blockchain como um sistema de compartilhamento de dados.

Na Áustria, o governo anunciou investimentos para a Lancor Scientific que está utilizando Inteligência Artificial e Blockchain para detecção de câncer e armazenamento desses dados.

No Brasil, o MyHealthData é uma DAO (Decentralized and Autonomous Organization sobre Smart Contracts (Contratos inteligentes) em que pacientes de qualquer lugar do mundo podem registrar seus dados médicos na rede Blockchain do Ethereum. Criado por uma equipe descentralizada de 23 pessoas, entre médicos, advogados, administradores, profissionais de enfermagem e até economistas, o MHD é uma plataforma aberta e disponível para que desenvolvedores de qualquer lugar do planeta criem aplicações destinadas a melhoria da saúde pública.

E, no dia 20 de Janeiro de 2019, foi realizado o primeiro registro, uma imunização, um momento histórico para a Saúde Brasileira. E no seu White Paper você consegue entender claramente os conceitos que nortearam o desenvolvimento do projeto por um grupo descentralizado formado por 23 pessoas.

Nebula Genomics, possibilita você vender o seu DNA.

Doc.ai, dos criadores do Scanadu, possibilita você receber um pagamento por aceitar participar de pesquisas científicas.

Iryo, é um prontuário gratuito e aberto.

O novo modelo do Galaxy S10 da Samsung vai ter uma carteira para criptomoedas sendo que uma delas é o Ethereum. Esse simples fato vai democratizar o acesso à Blockchain e todos os benefícios associados.

Empresas do mundo inteiro estão arquitetando e utilizando os dados para sua inteligência de negócio, transformando essas informações em resultados e performance. É a força do Big Data se unindo à eficiência da Blockchain. E, na saúde, isso não é somente a realidade; é uma exigência mercadológica.

O Pedro nasceu num belo dia de verão, às 7:50 do dia 1 de Fevereiro de 2018, com 49,5 cm e 3.390 g. Fez alguns procedimentos no hospital, como o teste do pezinho e o teste auditivo e, antes mesmo de sair do hospital, recebeu duas vacinas e um documento de nascido vivo que entre outras coisas dizia que ele havia nascido naquele hospital, e esse documento deveria ser utilizado para fazer a certidão de nascimento. Antes de completar sua primeira semana de vida, já possuía uma enorme quantidade de dados a respeito de sua saúde (carteira de pré-natal, carteira de vacinação, o laudo do teste auditivo, o resultado do teste do pezinho, imagens do ultra-som feitas durante a gestação entre outras que informações importantes). Porém, todas essas informações estão descentralizadas, cada uma armazenada de uma forma e num local diferente. Essa descentralização se repete em todo o sistema de saúde, em que as informações ficam retidas em silos informacionais e não se comunicam.

Um fato que me surpreendeu foi a agilidade que foi produzida a certidão de nascimento. Depois de chegarmos ao cartório, em menos 45 minutos, já estávamos com a certidão de nascimento pronta e para minha surpresa nela já constava o CPF do Pedro.

Porém, em menos de 5 minutos conseguimos criar um registro (hash)  internacional em Blockchain que possibilita termos o controle e o armazenamento de todas as nossas informações de saúde registradas de forma segura.

Apesar de termos evoluído muito no compartilhamento de todo o tipo de  informações,

Começando com o primeiro HTML, ainda temos muito que evoluir. Mas, projetos de compartilhamentos de dados de saúde como o Spark nos enchem de esperança.

Tecnologias como Blockchain permitirão que o Pedro possa ter todas suas informações seguras e centralizadas num só lugar, ajudando-o a ter um melhor acesso às suas informações de saúde para que tome as melhores decisões durante toda a sua vida. O compartilhamento dessas informações, respeitando os princípios de Caldicott será muito importante para a construção de pesquisas sérias que poderão ajudar a humanidade a viver mais tempo e com mais qualidade de vida.

Blockchain é a tecnologia que vai nos ajudar a tomar as melhores decisões para que não façamos parte do grupo de pessoas que possuem multimorbidades, levando uma vida de sofrimento e morrendo mais cedo, mas nos ajude a entrar no grupo dos super longevos que viverão no mínimo 120 anos com muita qualidade de vida e sabedoria.

Cortesia da imagem da capa: Blockchain WTF

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Dr. Leo Aguiar
Dr. Leo Aguiar

Médico e cirurgião plástico, Dr. Léo Aguiar é fundador da Laduo, sendo um defensor da união entre a saúde integrativa e seu uso potencializado pelas tecnologias exponenciais. Adora pesquisar como a tecnologia pode ser uma excelente aliada da saúde, capaz de transformar enredos e mudar destinos.

Comments

  1. E por conta do volume e da velocidade de processamento dos dados, o bacana na minha opinião é que isso isso aí vai ajudar mais na integração de diferentes sistemas complexos. o médico, saude publica, com social, ecológico e etc. acho que o novo horizonte aqui, o próximo, é poder mapear com mais precisão como esses sistemas interagem. e daí esboçar modelos pra simulação. ( esse comentário foi gentilmente cedido pelo Raphael Aguiar especialista em saúde planetária da York University.)

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