Humanos são seres ficcionais, desde sempre. Vivemos de narrativas que estruturam nossa identidade. Adoramos uma ficção. Somos mestres nisto. Nacionalidades, lembranças organizadas, crenças, tradições culturais, tudo funciona como gatilhos de desejos de histórias coerentes. Papéis sociais e um ideal de sucesso também são considerados assim.
Do ponto de vista filosófico, o conceito de identidade funciona como uma ficção útil, um subterfúgio para se lidar com o mundo. Há uma relação íntima entre o que é real e o que é inventado pela nossa psique.
Por este motivo, e em visão expandida, conforme pontua Lucia Santaella (Santaella, 2022), a teoria dos neo-humanos baseia-se na ideia de que, a cada nova revolução tecnológica, há colada nela uma nova revolução cognitiva.
Conforme nos ensina Charles Pierce, o mundo é compreendido através de representações, pautadas pela teoria geral dos signos (Pierce, 2020). Tudo que nos rodeia e tudo que percebemos ou pensamos é um signo, Pierce defendeu a ideia de que a ciência evolui através de três fontes de raciocínio – abdução, dedução e indução.
Ondas, rádio e seu dial
Nikola Tesla, conhecidíssimo pelas suas invenções, mas muito pouco sobre suas ideias, formulou uma que, a meu ver, impressiona devido ao grau de abstração. Dizia ele que, o cérebro humano não é fonte de nada, é tão somente um receptor.Nós humanos é que adoramos a ideia de achar que somos criadores de tudo que pensamos.
Aprendemos desde cedo que, se pensarmos em algo triste, é porque somos tristes, se pensarmos em escassez, acreditamos que somos pobres. Pensamentos diários são repetições automáticas, mas também são ondas que captam o ambiente em que vivemos, ampliado pelos medos herdados, inconsciente coletivo, sociedade e a cultura desta.
O erro recorrente é acreditar que somos o emissor, quando na realidade somos apenas um rádio. A mente humana não cria nada do zero, apenas recebe sinais e os amplificam. Tudo depende de onde está se sintonizando o sinal, ou seja, se seu dial interno estiver sintonizando medo, será impossível sintonizar a abundância.
O truque: Tesla sempre disse que no universo existe um núcleo do qual obtemos conhecimento, força e inspiração e que quando se tem uma grande ideia ou uma intuição repentina, não necessariamente as criamos. Dizia ele que apenas “baixamos” ideias em virtude da vibração está tão elevada, que nossa antena é capaz de captar essa informação do núcleo.
Sintonia e frequência
Nisso tudo há uma ideia de sintonia, claro, usando a metáfora de Tesla. Se você é o rádio, o problema não é a música que está tocando, mas sim, no que sintonizou. Seu dial pode estar enferrujado. Enquanto consumir notícias tristes, convive com o arquétipo do Hardy, a famosa hiena niilista de Hanna-Barbera, conhecida pelo seu pessimismo crônico a todas as ideias mirabolantes que seu parceiro Lippy criava. Não é azar, é sintonia ruim.
Não se deve brigar com o rádio quando um pensamento negativo surgir, afinal, pensamentos são nuvens passageiras. Nem tudo que adentra sua mente merece a sua energia. O ruído do mundo ainda estará no mesmo lugar, as crises, os medos, todas as dúvidas ainda continuarão a transmitir sinais permanentemente. O que Tesla queria dizer? Que você torne-se o arquiteto da sua frequência!
O que tudo isso tem a ver com tecnologia? Tudo! Como nos inspira Leonardo Boff, cada um lê o mundo com os olhos que tem e interpreta tudo a partir de onde seus pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Uma questão de sintonia.
Sinais captados e lidos
Há cerca de 6 a 7 milhões de anos, a primeira mudança relevante que distanciou linhagens humanas dos demais primatas foi a capacidade de caminhar sobre duas pernas, O bipedismo foi uma evolução biológica sem precedentes. Andar, correr, se defender e atacar, foram capacidades novas adquiridas que promoveu uma série de inovações.
Na evolução, 1,2 milhão de anos depois, nossos ancestrais descobriram formas criativas de utilização dos recursos naturais, domando o fogo e ampliando o dia pela sua utilização, construindo abrigos, cidades, vestimentas. Os sinais lidos se transformaram em tecnologia.
Incorporando sofisticação e ganhando impulso, ideias foram surgindo de forma acelerada, levando ao florescimento das civilizações. Porém, nós futuristas sempre alertamos que, ao mesmo tempo que tecnologias recriam a humanidade, podem colapsar civilizações inteiras, tudo uma questão dos sinais captados.
Em eras de futurofobia e de ausência de futurotopia, os sinais são fortes, mas nosso dial foi sequestrado por algoritmos. A sufocação da criatividade, tomada pela AI pode ser um péssimo sinal se não corrigimos nosso próprio dial. Se não houver criatividade, não haverá futuro.
Não se trata de ser contra a tecnologia, criada e alavancada por sinais de big techs, mas de uma necessidade de vida e de evolução humana. Não é o rádio, mas a música que escolhemos tocar.
Falar de tecnologias regenerativas é falar dos sinais a que Tesla tanto se referia. É falar de um ajuste fino no nosso dial, e de entender o papel da convergência homem/máquina, compreendendo que a vertente humana é preponderante.
Talvez devêssemos ser estimulados ao desafio de Tesla: suma por 45 dias, se reconecte ao universo, reprograme sua mente, mude hábitos comuns repetidos dia-a-dia, retome seu equilíbrio. Suma por 45 dias e volte 1 ano à frente. O mundo e a história humana dependem do ajuste do seu dial.
Ilustração da capa: Lorena Spurio


