Tecnologia: nós (ainda) não estamos preparados


28 jan 2017

Imagine ser desprezado pela sociedade por não estar de acordo com os padrões tidos como exemplo de comportamento e de sucesso…

Parece coisa do passado, mas essa é só uma das questões sociais que a série Black Mirror, uma das mais famosas da Netflix, traz à tona. Só que neste caso, a tecnologia digital é a ferramenta principal entre as relações humanas, aflorando sentimentos de rejeição, baixa auto-estima ou prepotência.

Neste meu primeiro artigo para O Futuro das Coisas, convido você a refletir sobre como a tecnologia está se infiltrando em nosso cotidiano e moldando nosso relacionamento com as pessoas sem que a gente perceba ou se importe tanto e a possibilidade dela vir a ser uma ferramenta de avaliação e pontuação global das suas qualificações e da sua reputação.

Afinal, se a tecnologia é uma de nossas ferramentas de expressão e de relacionamento social a pergunta que me faço é: será que a gente está preparado para conviver com tanta tecnologia?

Não é que a tecnologia seja “a vilã”. Talvez o maior problema seja a humanidade mesmo.

A série foi o estopim para eu olhar para essa questão com mais urgência. Acredite, não é mais ficção. O jogo virou. Black Mirror não é sobre o futuro. É sobre como iremos lidar com nossas questões individuais – que sempre existiram e sempre vão existir – utilizando as tecnologias do momento.

E por que isso te interessa?

Porque ou a gente aprende a lidar melhor com a tecnologia no dia a dia ou corremos o risco de nos tornarmos como muitos dos personagens da série: alienados e dependentes de uma vida em que a tecnologia é a ferramenta principal para se alcançar o sucesso e se relacionar com os amigos, familiares, companheiros ou trabalho. Opa! Algo lhe soou…real?

Isso é um sinal.

Segundo William Power, autor do livro “O Blackberry de Hamlet” (Ed. Alaúde) já não dá mais para ignorar a importância de tomar consciência do nosso envolvimento com a tecnologia. Não apenas para usufruir e perceber aquilo que está a sua disposição, mas quais têm sido as consequências do seu uso. Basta percorrer o Instagram de muitos especialistas e ver dicas de ouro do século XXI: “Quanto mais conectado melhor”.

Independente do que seja excesso em uma era onde tudo é digital, a grande questão é sobre como lidar com as novidades tecnológicas que chegam diariamente e procurar entender a sua real utilidade.

Não dizem que a Internet é um mundo sem limites? Pois bem, nesse universo é bem capaz de você não saber o porquê de você estar fazendo o que está fazendo.

No artigo Por que a série Black Mirror é pertubadora, há uma relação entre a série com o momento atual mostrando o quanto a tecnologia pode potencializar nossas neuroses humanas. Para equilibrar essa fusão, a melhor forma é experimentar sem medo e, indo mais além, observar como reagiremos a ela.

Sem essa análise, autoconhecimento e consciência de que quem manda é você, qualquer nova tecnologia poderá ser perturbadora.

Um dos episódios em Black Mirror mais polêmicos e que gerou muitas discussões é o Queda Livre (Nosedive, em inglês). Nele, sua vida é avaliada de acordo com o que você publica na rede. A sociedade é quem dá a nota…

Quanto maior sua nota, mais socialmente você é aceito, melhor o carro que você pode alugar, maior o acesso aos condomínios de luxo e, quem diria, participar (ou não) do casamento de uma amiga de infância. Essa pontuação se dá via redes sociais e sua exposição nelas. Coisas que fazemos muito bem, obrigada.

A deterioração da reputação de uma pessoa é retratada no episódio Nosevide (Queda Livre) da série Black Mirror (Crédito: Netflix)

 

A grande questão é quando você passa a viver simplesmente para isso – seja na sua vida pessoal ou de trabalho. Afinal, você está sendo avaliado.

Se hoje o fato de estar conectado, expor o seu melhor, significa ter uma vida bem sucedida, então o episódio Queda Livre já não é mais sobre o futuro, é sobre o presente.

Não Estamos Prontos

Muito provavelmente você já usou Uber ou outros serviços de transporte privado como 99Taxis ou Blá Blá Car e, se não usa, provavelmente já ouviu falar. A rotina é a seguinte:

Você solicita um carro, o motorista chega. Simpático e agradável (na maioria das vezes) ele ou ela devem agir assim, pois além de estarem em busca de prestar um bom serviço, é preciso uma boa avaliação pública. Sentimo-nos mais seguros, com um melhor atendimento. Ah, só não esqueça de você ser gente boa também, até porque, ao final da corrida, ele também vai te avaliar. Um sistema justo, eu diria. Agradecemos a tecnologia. Mas, o que está além disso? Consegue enxergar?

Outro dia, conversando com um motorista do Uber, comentei que iria escrever um artigo sobre o episódio citado nesse texto (ele não conhecia a série) até que cogitei a possibilidade de um dia sermos avaliados para tudo. Veio a resposta:

“Ah, mas isso já está acontecendo! Fui me cadastrar no 99Taxis, e na hora de me candidatar, se eu tivesse avaliação abaixo de 4.5 pontos no UBER, eu não poderia trabalhar”.

Black Mirror é vida real.

Se os futuristas me permitirem palpitar, acredito que em um futuro muito breve, mais e mais empresas passarão a adotar os sistemas globais de pontuação como critério de seleção de candidatos – em qualquer emprego.

Isso é muito positivo no âmbito de serviços ao público, afinal quem usa avalia, certo? Agora, imagine no seu próximo emprego, a empresa checar a avaliação do seu trabalho baseado no que seus colegas de trabalho acham de você, ao invés de pedir a recomendação apenas para seu ex-chefe? Aí te pergunto:

Você está preparado para ser avaliado de forma tão ampla?

Será que estamos prontos para entender como tudo isso funcionará?

Nem todos estão. E digo o porquê. Uma vez que utilizei o Uber Pool – onde você compartilha a sua rota com outros passageiros – ao chegar no local para pegar a segunda passageira, a mesma estava parada em um via expressa exclusiva para ônibus. Consciente das regras de trânsito, o motorista parou há uns 200 metros à frente da moça.

Foi aí que começou a confusão.

A reação da passageira mostrava que ela achou um A-B-S-U-R-D-O ele não parar onde ela estava. Após xingamentos, bate-e-boca a mesma cancelou a viagem. Fomos embora. O que pensei? Ainda não estamos prontos, ou melhor, ela não está. O fato de usar um aplicativo que te dá o poder de avaliar o próximo, não significa que o outro deve fazer o que o seu umbigo mandar. Me senti na obrigação de avaliar o motorista com 5 estrelas (até porque ele me atendeu muito bem) e ainda fazer um ótimo comentário – com receio de ‘a louca’ o prejudicar de alguma forma.

(Crédito: GIPHY)

 

Agora se choque com esse segundo exemplo. Um rapaz, dessa vez no BLÁ BLÁ CAR me contou que utilizou o app para uma viagem entre a capital paulista e o interior. Sua avaliação da viagem tinha sido ÓTIMA. Até aí tudo perfeito. Mas, nas não para o caronista.

Como assim?

Quando o rapaz foi solicitar uma nova carona para este mesmo motorista a solicitação foi recusada. Sem entender, o passageiro entrou em contato perguntando o porquê da recusa. A resposta: “Porque você marcou a última viagem como ÓTIMA… você não gostou foi? Eu sempre recebo EXCELENTE… agora você me fez cair de avaliação”.

Oi?

Não, não é trecho de filme que exagera na dose, é realidade.

No serviço 99Taxis se o motorista tem avaliação abaixo de 4.0 aparece uma mensagem pedindo para você relatar se algo ocorreu. Por um lado, existe uma preocupação das empresas em assegurar um ótimo serviço para seus clientes, por outro, há a pressão de uma avaliação cada vez melhor – e aí voltamos à discussão do episódio Queda Livre, em busca do comportamento social perfeito.

Logo, temos mais duas questões a refletir.

Se a tecnologia já permite aos governos e empresas controlar tudo o que fazemos, agora a sociedade irá nos avaliar se somos bons naquilo que fazemos. Por isso, precisamos repensar e começar a reaprender e usá-la urgente. Veja o caso desse experimento que mostra que o Facebook já sabe tudo sobre você ou mesmo o filme NERVE, de 2016. Sucesso entre os jovens, o filme mostra como o público e a tecnologia podem assumir o controle de sua vida, se você permitir.

Como disse o jovem visionário Aaron Swartz, em 2012, em uma de suas últimas entrevistas. “A Internet criou toda essa liberdade e tudo vai ser maravilhoso. Ou tudo está horrível. A Internet criou ferramentas para regular, espiar e controlar o que dizemos. E as duas perspectivas são verdadeiras, cabe a nós decidir qual delas prevalecerá porque as duas estão disponíveis e sempre estarão”. Para quem quiser ver o documentário sobre a história dele, clique aqui para assistir no Netflix.

Os filmes e séries estão aí para vermos como tudo pode acontecer. Mais que entretenimento, alguns abordam o futuro de forma real e nos dão a oportunidade de visualizar COMO iremos querer usar a próxima novidade, porque amanhã ela estará aí, fazendo parte da nossa vida.

Portanto, lembre-se: não é para fugir, ignorar ou consumir as novas tecnologias sem pensar. É aprender a usar. É saber que você (ainda) não está pronto, mas pode estar, se quiser.

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Patricia Bernal
Patricia Bernal

Patricia é filmmaker criativa, fotógrafa, jornalista e visual storyteller. Graduada em Jornalismo e Comunicação Social, fez um curso intensivo de cinema na Academia Internacional de Cinema (AIC) e Técnica em Audiovisual pela DRC Trainning. Sócia-proprietária da produtora WoW Films Media, especializada em projetos digitais, startups, YouTube, redes sociais e consultoria audiovisual. Criadora do canal Câmera na Mão, do grupo Mulheres Filmmakers, e do blog IH!Criei. Atualmente está também envolvida na produção do seu documentário Cadê a Criatividade.

Comments

  1. Carlos Alberto Orvate : janeiro 28, 2017 at 2:21 pm

    O Futuro das Cousas tem interesse em artigos para análise e publicação? Como faço para colaborar?

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