Precisamos falar sobre Biohacking


01 out 2016

Será que você já viu um cyborg?

Pode ser que sim… e nem sequer percebeu.

Os cyborgs não se parecem em nada com aqueles personagens que a gente vê nos filmes de Hollywood…

São pessoas comuns que apenas integraram a tecnologia em seus corpos no intuito de melhorar ou controlar algum aspecto de sua saúde ou de seu desempenho.

Quando falamos em biohacking entendemos como sendo a aplicação da ética hacker aos sistemas biológicos, com o objetivo de superar a experiência do corpo humano além do que a natureza projetou.

No momento, há pessoas espalhadas no mundo todo com foco em hackear organismos vivos.

Essa tecnologia tem despertado um interesse cada vez maior, ao mesmo tempo que algumas pessoas acreditam que pode representar uma ameaça à humanidade.

Particularmente O Futuro das Coisas acredita que o biohacking pode melhorar a qualidade de vida de várias maneiras…

Por isso hoje, vamos falar de como o biohacking pode ser útil para as pessoas.

Recentemente, o britânico Neil Harbisson esteve no Brasil. Ele nasceu com uma condição visual rara chamada acromatopsia, que consiste em não ver cores e enxergar apenas em tons de cinza.

biohackingCom a antena implantada, Neil Harbisson criou um novo sentido: a percepção das cores através de sons. (Cortesia da imagem: BirdInFight)

 

Em 2003, a vontade de compreender as cores foi tamanha que Neil pediu a ajuda do cientista da computação Adam Montandon para criar uma nova tecnologia.

O resultado foi um olho eletrônico, parecido com uma antena, e que foi implantada atrás de sua cabeça.

O dispositivo funciona como um sensor de cores, que detecta a frequência da cor e manda para um chip instalado na cabeça que, por sua vez, conduz essa frequência através do crânio e a transforma em sons.

Com o aparelho ele passou a ouvir as cores, apesar de continuar a não vê-las.

Neil Harbisson no filme “Ouvindo as Cores” (Hearing Colors) de Greg Brunkalla (Vimeo).

 

Se você seguir o mesmo raciocínio do caso de Neil, podemos imaginar, por exemplo, um chip que traduz palavras em som, ou distâncias em som…

Um implante de olho eletrônico poderia ser usado para ler ou para detectar obstáculos, o que poderia significar o fim do Braille.

Hannes Sjoblad, na apresentação “Biohacking e o Corpo Conectado, que fez no Singularity University Global Summit, falou sobre essa integração da tecnologia com o corpo humano.

hannes-sjoblad

Hannes Sjoblad e o chip NFC implantado em sua mão (Crédito: 8till5)

 

Sjoblad é co-fundador da rede biohacker Bionyfiken, uma organização sem fins lucrativos, com sede na Suécia, que reúne biólogos-DIY (Do It Yourself), hackers, makers, artistas, pessoas que modificaram o corpo e aficionados por saúde e desempenho…

Juntos eles explorarem a integração homem-máquina.

Nós vivemos em uma época em que, graças à tecnologia, podemos fazer os deficientes auditivos ouvirem, os deficientes visuais verem, e os deficientes físicos andarem.” Hannes Sjoblad

cyborg

O Ser Humano Cibernético (crédito: Sumbola)

O ser humano cibernético:

1- Implantes cerebrais aumentariam a memória e forneceriam acesso à internet
2- Exoesqueletos vestíveis podem aumentar a força e a resistência
3- O implante espinhal conectado à Internet estimularia os órgãos para o sexo à distância
4- Membros intercambiáveis aumentam a capacidade para certas tarefas
5- Chips de controle e acesso substituem chaves e senhas

A área onde o biohacking pode fazer um impacto mais positivo é a saúde.

Além de marca-passos, sistemas inteligentes de monitoramento de insulina, olhos biônicos e implantes cocleares, várias novas tecnologias estão sendo desenvolvidas com o objetivo de melhorar a nossa saúde e simplificar o acesso à informação sobre o que está acontecendo com os nossos corpos.

Um exemplo seriam as pílulas inteligentes que usam tecnologia wireless para monitorar internamente as reações aos medicamentos, ajudando os médicos a determinar os níveis ideais de dosagem e definir tratamentos sob medida para os pacientes…

Afinal, cada organismo absorve ou processa a medicação de forma diferente.

Implante de retina desenvolvido pela empresa alemã, Retina Implant AG. O chip foi implantado na parte de trás do olho direito da paciente em procedimento no Hospital John Radcliffe de Oxford. (Fonte: SingularityHub)

 

Colonoscopias e endoscopias poderiam um dia ser substituídas por câmeras de vídeo em forma de comprimido em miniatura que iria recolher e transmitir imagens à medida que atravessam o trato digestivo.

A segurança é outra área onde o biohacking pode ser muito útil.

Um exemplo que Sjoblad deu foi o da personalização de armas…

Um ladrão que invadisse sua casa não poderia disparar a sua arma, simplesmente porque ela só reconhece a sua impressão digital ou está sincronizada com o seu corpo para só ser acionada por você.

O biohacking também pode simplificar as tarefas diárias. Um exemplo que Sjoblad deu na sua palestra foi o chip NFC implantado em sua mão.

O chip contém dados de tudo que ele costuma carregar nos bolsos: cartão de crédito, chave do escritório, cartões de visita, etc…

Caso Sjoblad esteja ocupado ou apressado, ele não tem que meter a mão no bolso ou na mochila para encontrar o cartão ou a chave certa; ele apenas acena com a mão na frente de um sensor e já está autorizado.

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Os chips NFC já estão sendo implantados em estúdios de tatuagem. Na Suécia, já estão fazendo até a “festa do implante”, onde vários entusiastas se reúnem para colocar a tecnologia no corpo.

 

Desenvolvido a partir da identificação por radiofrequência (RFID) – uma tecnologia antiga e amplamente distribuída – os chips NFC são ativados por outro chip, e pequenas quantidades de dados podem ser transferidas. Nenhuma conexão wireless é necessária.

Sjoblad vê seu implante NFC como uma chave pessoal para a Internet das Coisas, uma maneira simples para conversar com dispositivos inteligentes conectados ao seu redor.

A prática da implantação de transmissores de radiofrequência no corpo não é tão nova…

Em 1998, o famoso biohacker Kevin Warwick lançou a primeira fase do Projeto Cyborg. Testando em si próprio, ele projetou um implante RF que foi instalado sob sua pele.

O chip foi usado para realizar testes básicos, como abrir portas com comando, controlar luzes, e enviar comandos simples para computadores.

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Kevin Warwick e seu chip telepático (Crédito: kevinwarwick.com)

 

Em 2002, Warwick começou a segunda fase do seu projeto, implantando uma série de eletrodos diretamente no seu sistema nervoso para monitorar a atividade no nervo mediano.

O experimento foi bem sucedido, e ele conseguiu controlar um braço robótico apenas com a ação mental.

Desde esse trabalho pioneiro de Warwick, outros avançaram com a tecnologia da telepatia e telecinese.

Mais recentemente, cientistas da Universidade de Brown desenvolveram uma nova geração de transmissores neurais recarregáveis que podem se comunicar com dispositivos externos.

A medida que esses implantes se tornam menores e mais eficientes, nós humanos, poderemos em breve ter a capacidade telepática.

Em vez de uma “Internet das Coisas”, esta tecnologia é o primeiro passo para uma “Internet de Seres.”, com o potencial aumento da empatia e da eficiência da comunicação.

Sjoblad não é a única pessoa que sente necessidade de conexão.

Quando o escritor científico inglês Frank Swain percebeu que estava ficando surdo, decidiu anular a sua audição para conseguir ouvir em Wi-Fi.

Frank pensou sobre o conceito dos aparelhos auditivos e sobre como eles intensificam os sons mais fortes e abafam certas frequências, e imaginou como poderia fazer a mesma coisa no caso do Wi-Fi.

O projeto, chamado Phantom Terrains, é uma colaboração entre ele e o artista sonoro Daniel Jones

Funciona por meio de um receptor de sinais sem-fio em um iPhone hackeado, que envia o som para o aparelho auditivo de Frank, conectado via Bluetooth.

Frank Swain WI-FI

 

Frank Swain teve o diagnóstico de perda auditiva na casa dos 20 anos. Agora ele consegue captar sinais convertendo em um tom sonoro (Imagem: Frank Swain)

 

Phantom Terrains, usado por Swain, permite captar sinais de Wi-Fi. Você pode ouvir abaixo… parece um techno minimalista.

Os fluxos de dados globais também podem tornar-se experiências sensoriais.

A artista espanhola Moon Ribas desenvolveu e implantou um chip em seu cotovelo que fica conectado ao sistema de monitoramento global de sensores sismográficos; cada vez que há um terremoto, ela sente por meio de vibrações em seu braço.

Entrevista (espanhol) com a artista espanhola cibernética Moon Ribas. Ela fala sobre seu “braço sísmico” (Cyborg Foundation) do CCCB (Vimeo).

 

Você também pode se sentir conectado ao planeta…

A North Sense criou um “órgão sensorial artificial independente” que se conecta ao seu corpo e vibra sempre que você estiver voltado para o norte. É uma bússola embutida, para você não se perder!

O vídeo abaixo da Cyborg Foundation procura mostrar que podemos usar tecnologias para transformar nossos corpos e mentes e criar novos sentidos e habilidades…

A habilidade da visão noturna é só um exemplo de como podemos projetar a forma como percebemos a nossa realidade:

Mais e mais aplicações Biohacking tendem a proliferar nos próximos anos. Mas há sérias questões éticas que não podem ser ignoradas durante o desenvolvimento e uso desta tecnologia…

Até que ponto devemos mudar a natureza? Quem decide isso?

É assustador pensar que um assaltante pode levar a nossa carteira ou bolsa…

Imagine ele cortando a nossa pele para ter acesso e controle instantâneo a todos os nossos dados pessoais.

Essa potencial invasão física pode amedrontar.

Mas, é importante entender que a miniaturização dessa tecnologia continua num ritmo muito rápido, e quanto mais essas coisas ficam menores, menos invasivas elas serão.

Em um breve futuro, quando você sair de casa, verá pelo menos meia dúzia de cyborgs por aí.

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Redação O Futuro das Coisas
Redação O Futuro das Coisas

O Futuro das Coisas é dedicado a trazer conteúdo exclusivo em inovação, tecnologia, educação e medicina numa linguagem divertida e acessível.

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