Entrevista: Eles estão barrando fraudes no e-commerce com a Inteligência Artificial


03 fev 2016

Poucas empresas e startups no Brasil estão oferecendo soluções que usam a Inteligência Artificial.

A Konduto é uma delas.

Utilizando a Inteligência artificial e aprendizado de máquina (machine learning),  a Konduto está ajudando lojas virtuais e sites de e-commerce a descobrirem fraudes analisando o comportamento de compra dos internautas.

Criada por dois amigos que se conheceram na adolescência – Milton Tavares Neto, 27 anos, e Tom Canabarro, 29 anos – o sistema que desenvolveram analisa mais de 1 milhão de transações todos os meses.

O sistema detecta automaticamente o padrão de vendas que cada loja possui e observa a forma como cada potencial comprador navega no site no intuito de reconhecer padrões fraudulentos. Antes mesmo do pedido ser feito é gerado um score em tempo real. Tudo isso em menos de 1 segundo.

Nessa entrevista, Milton (lado direito da foto, ao lado do Tom) nos conta sua visão sobre a Inteligência Artificial, fala das tecnologias que acredita que mais irão impactar nosso futuro, quais são as oportunidades para empreender na área de segurança cibernética, dentre outras coisas.

Milton nasceu em Salvador, mudou-se para São Paulo em 2007 e cursou engenharia da computação na Escola Politécnica da USP. Entre 2010 e 2012, morou em Paris. Lá obteve duplo diploma, pela Télécom Paristech e pela École Polytechnique. Antes de fundar a Konduto, trabalhou no setor de business intelligence da Criteo, empresa francesa especializada em publicidade digital e que utilizava machine learning para detectar o comportamento de navegação do internauta e selecionar os banners mais adequados para serem exibidos àquele usuário.

Tom, seu sócio, nasceu em São Paulo e formou-se em Relações Internacionais pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Apaixonado por TI e DevOps, trabalhou nos gateways de pagamento Braspag e, depois, na maxiPago!.

 

Milton, como a ideia da Konduto nasceu?

O Tom havia participado em 2013 de um projeto de implantação no mercado brasileiro de um sistema americano de antifraude para e-commerce e não estava contente com os resultados.

Foi após uma conversa que tive com ele que surgiu a ideia de criar um antifraude que monitorasse o comportamento de navegação de um cliente e utilizasse machine learning para detectar atividades suspeitas e incomuns e fosse capaz de barrar fraudes, em vez de mostrar banners de publicidade.

A Konduto utiliza a tecnologia da Inteligência Artificial no seu produto. Essa tecnologia ainda é bem incipiente no Brasil. Que conselho você daria aos empreendedores brasileiros que querem criar soluções inovadoras com essa tecnologia?

Em primeiro lugar, que estudem bastante o tema academicamente, ou então, a partir de conteúdos disponíveis na Internet, pois há muita coisa interessante a respeito, para os mais diversos níveis de conhecimento.

Em segundo lugar, que os empreendedores montem um time com pessoas que não só “conheçam” ou “entendam” a Inteligência Artificial, mas que principalmente sejam apaixonadas e defensoras do tema.

Mas tão importante quanto isso é que tanto o empreendedor como o time nunca, jamais, em hipótese alguma, deixem de se atualizar sobre as novidades relacionadas à tecnologia, especialmente de Inteligência Artificial. Estamos em uma época em que descobertas acontecem todos os dias. Se as pessoas não estiverem antenadas e não se desenvolverem, correm o risco de terem em mãos a “mais nova tecnologia” já obsoleta no mercado.

De todas as formas, aconselho os empreendedores brasileiros a olharem com bastante atenção para o mercado brasileiro de tecnologia. Há pessoas muito boas no nosso País que trabalham com isso hoje em dia, e cada vez mais pessoas estão se interessando pelo tema e estudado sobre inteligência artificial. Não é raro vermos profissionais se qualificando em IA, inclusive com mestrados e doutorados.

Você vê outras oportunidades para empreender na área de segurança cibernética?

Sim, há muitas outras possibilidades. A atividade humana estará cada vez mais ligada à Internet nos próximos anos, e grande parte dos nossos objetos e eletrodomésticos também estarão conectados.

Acredito que a segurança cibernética voltada para a Internet das Coisas pode evoluir muito, pois hoje em dia já vemos alguns casos de hackers que fazem ataques a babás eletrônicas, que não contam com uma proteção muito sofisticada. Imagine no caso de geladeiras, ar-condicionado e até marcapassos conectados à Internet. Será preciso que todos esses devices também estejam devidamente protegidos de ataques.

Na sua visão, a Inteligência Artificial pode melhorar o mundo ou ela representa uma ameaça para a humanidade? Como você vê o futuro da I.A. em 10 anos?

Já vimos vários exemplos ao longo da história de inovações disruptivas que representaram tanto um avanço tecnológico importantíssimo para a evolução da humanidade, mas, que também, foram utilizados para fins negativos. A Inteligência Artificial também faz parte disso: muitas pessoas já desenvolveram sistemas que prometem ter muito benéficos para a humanidade, como a utilização de machine learning para auxiliar médicos no tratamento de pacientes com câncer.

Acreditamos que nos próximos anos haverá muitas outras inovações que utilizem Inteligência Artificial para o bem da humanidade, muito mais do que hoje em dia. Mas é claro que é preciso muita atenção em relação ao “mau uso” da tecnologia.

Sobre como vejo o futuro da Inteligência Artificial nos próximos dez anos, acredito muito na junção da neurociência com a IA. Hoje em dia, todos os algoritmos de machine learning necessitam de muitos pontos de contato para chegar a alguma conclusão. Ao mesmo tempo, quando comparamos este comportamento ao de um ser humano, vemos que uma criança consegue aprender palavras ou toma algumas decisões tendo apenas um, ou alguns poucos pontos de contato.

Acho que o futuro da IA é fazer essa ligação com a inteligência do aprendizado humano e descobrir como levar isso para a máquina, para que os sistemas aprendam estruturas mais rapidamente e com menos dados.

Quais tecnologias você acredita que mais irão impactar o nosso futuro?

Acredito muito no potencial do machine learning. Hoje em dia é muito difundido que 90% da informação produzida pelo ser humano foi gerada nos últimos dez anos, mas muitas vezes não sabemos o que fazer com tantos dados. Temos uma infinidade de dados disponíveis por aí, mas poucas pessoas que sabem interpretá-los, ou desenvolver sistemas capazes de fazê-lo.

Os dados dizem muita, muita coisa. Tudo é questão de escutá-los e, a partir daí, tirar os insights necessários. E a máquina tem uma capacidade infinitamente maior que do ser humano em armazenar, processar e interpretar esse volume infinito de informações. Por isso acredito que o machine learning vai ter um papel fundamental no futuro da humanidade, ao menos nas próximas décadas.

Algo deu errado na trajetória da Konduto e que precisou ser corrigido?

A Konduto é a minha primeira investida como empreendedor, então é difícil precisar algo que tenha “dado errado”. Tivemos percalços e algumas desventuras ao longo dos últimos dois anos de existência da empresa, mas acho que soubemos tirar sempre o melhor deles e corrigido tudo em tempo real antes que se tornassem grandes problemas. No final, creio que soubemos aproveitar os erros para aprendermos o que precisávamos.

Quais foram as estratégias que deram melhor resultado nessa trajetória?

Desde o início contamos com as pessoas certas em nossa equipe. Formamos um time engajado, que em todo momento comprou a ideia do nosso projeto, acreditou no sucesso do produto que queríamos desenvolver, que se dedicou em todos os instantes para o desenvolvimento da nossa plataforma e que até hoje crê que estamos no caminho certo. A equipe da Konduto fez toda a diferença para que nós tivéssemos o crescimento que tivemos em pouco menos de dois anos de existência.

O que você imagina para a Konduto daqui a 5 anos?

Cinco anos é muita coisa, especialmente no que diz respeito à tecnologia, à computação e à Internet. Mas, espero que a Konduto seja uma empresa bastante conhecida não só no mercado brasileiro, como em vários outros países. E imagino que teremos muito mais desafios para o combate à fraude no e-commerce, já que esta é uma “guerra” que não tem previsão para acabar. Os fraudadores sempre buscarão uma maneira de contornar antifraudes, e cabe a nós ficarmos sempre atentos para estarmos um passo à frente deles.

Um sonho que você gostaria de ver realizado.

Falando a respeito da Konduto, temos o sonho de atingirmos, até o final do ano, a média de 10 milhões de transações analisadas mensalmente. E, no médio prazo, estar em operação em ao menos 50 países.

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Redação O Futuro das Coisas
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