Como a Internet das Coisas pode conectar empaticamente as pessoas


04 nov 2015

Estamos caminhando para dar um salto qualitativo nas nossas relações sociais, sejam elas virtuais ou físicas.

Nos artigos anteriores da série sobre Empatia & Tecnologia, abordamos como tecnologias emergentes podem contribuir para criar uma sociedade mais compreensiva, mais generosa, menos egóica e mais sensível ao outro. Também fizemos várias reflexões.

No primeiro artigo, vimos que a Realidade Virtual pode ampliar a nossa zona empática nos levando a vivenciar e sentir a perspectiva do outro, podendo até no futuro conseguirmos experienciar diferentes consciências.

No segundo artigo, sugeri que a evolução da Inteligência Artificial precisa ser cuidadosamente orientada por pessoas que agreguem valores humanos nestas novas formas de vida. Esta nova tecnologia está alcançando um outro patamar de discussão filosófica, psicológica e sociológica.   

Neste terceiro artigo, espero que você, leitor, possa entender mais sobre a conexão com objetos até então inanimados e apenas úteis para o nosso dia-a-dia como uma máquina de café, um carro, e também coisas de uso pessoal (como vamos ver ao decorrer do texto).

A Internet das Coisas

A Internet está se integrando com nossas roupas, acessórios, utensílios domésticos, etc, por meio de sensores inteligentes. 

Chamamos essa revolução tecnológica de a Internet das Coisas (IoT). Ela tem como objetivo fundir o mundo físico com o digital, conectando itens e objetos usados no nosso cotidiano à rede mundial de computadores.

David Rose, pesquisador e cientista no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets) considera essa revolução algo próximo aos objetos “encantados” que criam uma interação com as pessoas:

“Estamos entrando em um mundo do animismo, onde objetos tem real autonomia, tem uma forma de consciência e que as coisas estão quase encantadas, quase vivas.”

A nossa relação com as coisas a nossa volta torna-se ressignificada.

Cápsulas que lembram quando tomar o remédio, latas de lixo inteligentes nas ruas da cidade que avisam quando precisa esvazeá-las, ou um colar que identifica possíveis alterações nos batimentos cardíacos da pessoa.

 

Essas novas interfaces interativas e empáticas com as “coisas” conectadas podem também tornar as nossas interações com as outras pessoas mais significativas.

Com a abundância de dados compartilhados a cada segundo, entre diversas pessoas ao redor do mundo, a IoT pode elevar a nossa capacidade cognitiva e emocional dentro das relações interpessoais e pessoais.

A Internet das Coisas pode ser mais sensitiva ao ser humano?

Com a evolução da tecnologia objetos como um colar, uma pulseira, uma roupa, etc, que até então não tinham “vida”, também passam a sentir e a transmitir.

Os sensores através da captura de dados comportamentais dos seres humanos podem  gerar informações sobre o estado emocional deles, ainda que estes sensores precisem melhorar a sua exatidão.

A evolução dessa tecnologia pode levar a uma espécie de plataforma computadorizada afetiva, que pode ser útil, por exemplo, em aplicações na área da saúde, para uma maior personalização e humanização de campanhas publicitárias, na melhoria das interações humanas, etc.

Nos próximos anos com a convergência da Internet em todas as coisas, uma proliferação de dados instantâneos poderia afetar o seu cotidiano, a relação com amigos e familiares, etc.

 

A Internet integrada aos sensores está atuando como transmissora das nossas emoções como veremos a seguir.

IoT e Wearables: Leitor de Emoções

Vamos agora conhecer startups que já estão conectando objetos com sensores online a fim de aprimorar o nosso dia-a-dia e a comunicação entre as pessoas.

Neomitra Affectiva

Sabe aqueles sinais transmitidos por detectores de terremoto? Agora imagine isso aplicado ao fluxo de estresse e de doenças relacionadas à ansiedade. O propósito da Neomitra da Affectiva é transmitir em tempo real, por meio da mensuração da temperatura do corpo, da transpiração e da locomoção de uma pessoa, os níveis de estresse com sugestões do que se deve fazer para diminuir e evitar um colapso emocional.

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Neumitra: Sensor detecta a transpiração e a temperatura elevada associada ao estresse ou excitação.

 

Há um grande otimismo sobre o potencial desta solução para o tratamento de diversas doenças mentais, como a epilepsia. O grande desafio desta proposta é encontrar um algoritmo que possa compreender quais mudanças fisiológicas significam um real aumento do estresse nas pessoas. Pois, a excitação e a transpiração por exemplo, podem ser resultados comuns de um exercício corporal.

A depressão e a ansiedade são sentimentos que podem afetar as pessoas levando-as muitas vezes ao suicídio. Será que um aparelho sensorial a emoções com um algoritmo inteligente conectado à Internet poderá salvar vidas?  

Beyond Verbal

Esta startup está se destacando no mercado da computação afetiva com um software de reconhecimento de voz que identifica como a pessoa está se sentindo através da sua voz. Sua recente criação, o app Moodies, avalia em tempo real, apenas pela voz, o estado de humor e demonstra uma possível trajetória emocional no longo-prazo.

O potencial desta tecnologia transcende a linguagem ao passo que as pessoas, assim como as coisas, poderão interpretar e tomar atitudes em relação às emoções.

Para ilustrar como será isso, imagine o seu carro avaliando o seu coeficiente emocional para decidir se deve ou não ligar; ou imagine que um anúncio ou uma publicidade só será direcionado para você, com base na relação de interesse que você têm sobre o produto; e ainda, imagine o auxílio de aparelhos “vestíveis” dos call-centers identificando a intensidade emocional do cliente e respondendo de forma empática.

Wearables na Saúde

A seguir, vamos ver algumas aplicações de wearables, ou seja, aparelhos “vestíveis”, na prevenção e no tratamento de algumas doenças e como isso pode aumentar o nível de empatia entre as pessoas.

Doenças Cardiovasculares

No Brasil, a cada 2 minutos, morre uma pessoa em decorrência de uma doença cardiovascular, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). A tendência é que esse quadro fique pior até 2050: a cada minuto, o coração de uma pessoa irá parar de bater no mundo.

A nossa vida agitada, muitas vezes sem nos preocuparmos com os cuidados com o corpo pode resultar na obesidade, em alto nível de colesterol, em pressão alta, resultando em doenças cardíacas.

Sensores inteligentes que captam os nossos batimentos cardíacos, regulam o colesterol e oferecem dados sobre a nossa saúde, podem contribuir para uma condição mais saudável e prevenir estas doenças.

Algumas soluções visam combater estes problemas como por exemplo:

O MocaCare é um aparelhinho que mensura e relata a curva de mudanças da sua taxa de batimento cardíaco e o nível de sangue no corpo,  sendo todas essas informações transmitidas para seu smartphone e ainda existe a possibilidade de você compartilhar essas informações com pessoas próximas. Você ainda pode acompanhar como anda a saúde destas pessoas.

MocaCare

 

Visando especificamente a identificação do AVC (acidente vascular cerebral), a área de pesquisas da Samsung está desenvolvendo  uma espécie de “capacete” com sensores que captam dados, permitindo que você observe suas ondas cerebrais no seu celular e possa identificar mais rápido um possível sinal de AVC, este procedimento de analisar as ondas cerebrais do paciente demora em torno 15 minutos em um hospital.

Graças à tecnologia, a doença que mais mata no mundo pode finalmente ter uma solução acessível e eficiente e, além disso, com o compartilhamento dos dados captados pelos sensores, as pessoas podem compreender melhor o que outro está sentindo, tornando as relações mais empáticas.

Sutiã Hi-Tech: Sensor de Câncer de Mama

O câncer de mama é o câncer que mais afeta as mulheres no mundo. Hoje, exames como a mamografia e a ultrassonografia mamária ajudam na prevenção da doença.

Os wearables ou aparelhos “vestíveis” surgem como uma possível solução para a comodidade e a conscientização da prevenção da doença. O Sutiã Hi-Tech coleta dados da pessoa que está usando e antecipa as informações de um possível tumor nas mamas.

A tecnologia vai substituir os métodos preventivos tradicionais contra o câncer de mama?

Na verdade, não vejo a tecnologia como completa substituta dos métodos tradicionais, pelo menos por enquanto. No entanto, como a curva tecnológica se altera exponencialmente, podemos ter em um futuro próximo, aparelhos acessíveis (mais baratos e mais fáceis de usar) e não-invasivos para a prevenção e tratamento do câncer de mama no conforto de casa.

Os wearables em conjunto com outras tecnologias como Inteligência Artificial e o sequenciamento do genoma humano podem ser bastante úteis para auxiliar as mulheres sobre os cuidados que devem ter para prevenir este câncer, principalmente aquelas que não possuem acesso a exames clínicos, como em locais de baixo IDH.

O tumor na mama pode afetar a mulher tanto fisiologicamente quanto psicologicamente. Tecnologias sensoriais inteligentes podem capturar sinais de humor que possam alterar o comportamento das mulheres na prevenção e durante o tratamento do câncer.

Wearables conectados com o cérebro

A aplicação de sensores integrados com a Inteligência Artificial e com mecanismos de neurociência alcança um outro estágio de transmissão sensorial através das informações neurais do cérebro.

Essa evolução se dá com a BCI (Interface Cérebro-Computador), que é  a capacidade do computador ler, interpretar e agir com relação aos nossos pensamentos usando o EEG (electroencefalografia) que é um exame que analisa a atividade elétrica cerebral espontânea, captada através da utilização de eletrodos colocados sobre o couro cabeludo.

Na Universidade de Princeton, cientistas realizaram um experimento usando o EEG em que demonstraram que quando alguém compreende o que você está dizendo, há uma sincronização entre a ondas cerebrais dessa pessoa com as suas, isto é, a conversa se torna empática.

Corinna Lathan, Presidente da Agenda do Conselho de IA e Robótica, faz uma alusão à ficção científica, em que os sinais neurais seriam armazenados em uma “nuvem” de dados coletiva em que teríamos uma espécie de super zona de consciência coletiva empática.

Ao capturar a cognição humana, as habilidades e as ações, e ao colocá-las em um ambiente conectado, poderíamos nos tornar uma Comunidade Borg (termo usado em StarTrek para uma comunidade empática).”

Corina

Corinna Lathan em sua palestra no TED: Inovação, Empatia e o Futuro da Interação Homem-Máquina (clique aqui para assistir)

 

Como seria uma comunidade que compartilha uma consciência coletiva e que possui uma empatia comum?

Futuro da IoE: Super Conexão Empática

Hoje vivemos vidas duplas em dimensões diferentes: a real e a virtual. Algumas pessoas inclusive, já estão tão habituadas à comunicação digital que praticamente abdica dos relacionamentos reais. Isto vai contra a um dos propósitos das redes sociais que seria aproximar as pessoas de forma afetiva para construir relações genuínas. Este “tiro saindo pela culatra”, é abordado pelo sociólogo, Roman Krznaric no seu livro O Poder da Empatia:

“Ocorre que as plataformas on-line existentes oferecem um campo limitado para a criação de uma revolução da empatia. Em vez disso, talvez as tecnologias digitais possam estar nos levando de volta para uma Idade das Trevas da empatia através de seus efeitos corrosivos sobre a personalidade humana”

Traduzindo o que Krznaric disse, o aparente anonimato que oferece o mundo virtual libera um lado obscuro e egoísta forte que existe dentro das pessoas e isto pode ser perigoso para a difusão da empatia no mundo.

Como falamos ao decorrer do texto, o compartilhamento instantâneo de informações sobre como uma pessoa está se sentindo, pode facilitar a aproximação e criar conexões significativas com outras pessoas.  

A Internet das Coisas, com o suporte de uma infinidade de sensores integrados em uma variedade de objetos, poderá detectar o comportamento e o humor de uma pessoa naquele instante.

A IoT pode também despontar como uma facilitadora das relações entre empresas e consumidores. A transmissão de dados dos sensores conectados às pessoas e aos seus utensílios e objetos, possibilitará que as empresas antecipem e compreendam o comportamento do seu consumidor, suprindo sua necessidade em tempo real. Isso tornaria as relações melhores, mais eficientes e mais humanas.

Uma comunicação mais empática entre os médicos e pacientes, pode ser outra grande possibilidade oferecida pelos sensores de bem-estar, estado emocional, fisiológico, etc.

Sabemos que a fase de recuperação de uma doença é uma das fases mais delicadas e com maior probabilidade de alterações no comportamento do paciente. Porém, com os dados coletados pelos médicos e familiares, em tempo real, eles irão saber o que a pessoa doente realmente está sentindo, e assim, terem condições de oferecer o apoio necessário.

Close up Two hand holding smartphone with Internet of things word and icons, Connectivity concept.

Vamos refletir

1- Sensores emocionais podem capturar e fornecer dados sobre o estado psicológico e fisiológico da pessoa. Será que a curva de aprendizado das suas emoções pode gerar uma mudança de comportamento e atitude de outras pessoas?

2- Os avanços tecnológicos na IoT, Inteligência Artificial, entre outros, promete uma disseminação de dados das pessoas na nuvem. Na sua opinião, isto pode ser considerado invasivo? Se isto contribuísse para uma sociedade mais compreensiva você autorizaria?

3- Será que uma sociedade hiper-conectada onde há poucas falhas de comunicação, pode tornar nossos relacionamentos “artificiais”?

 

 

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Bruno Macedo
Bruno Macedo

Bruno é arquiteto de experiências de futuro na F.E.X, empreendedor da DogFactor, pesquisador, game-designer e principalmente um curioso nato que estuda desde neurociência à gamificação. Tudo o que faz procura alinhar 3 coisas: Empatia, Subversão e Diversão.

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