Realidade Virtual: a Super Máquina de Gerar Empatia

Realidade Virtual: a Super Máquina de Gerar Empatia
29 set 2015

A evolução acelerada de algumas tecnologias emergentes, como a Realidade Virtual, a Inteligência Artificial, os sensores e a Internet das Coisas prometem transformar diversas indústrias, e têm grande potencial para ressignificar o alcance da empatia nos seres humanos.

Hoje, as tecnologias contemporâneas de interação e comunicação são literalmente “facas de dois gumes”, isolando e aproximando simultaneamente as pessoas. Como explica Roman Kznaric:

“A maioria das plataformas de redes sociais foram desenhadas para a troca eficiente de informações e não para a troca de intimidades que suscitem a empatia. Elas promovem relacionamentos superficiais focados em quantas conexões nós temos ao invés de, quem são as nossas conexões”.

Porém, os avanços tecnológicos e o consequente aumento da capacidade cognitiva e emocional das máquinas podem influenciar o grau de empatia dos seres humanos. A Realidade Virtual (RV) tem características de imersão e conexão com ambientes real-virtual que pode ser o coeficiente revolucionário de ampliação e disseminação de mais empatia entre as pessoas.

Aumentando os ciclos de reflexões e permitindo enxergar diferentes perspectivas de mundos opostos, a RV pode potencialmente gerar estados de consciência mais empáticos e interconectados entre diferentes subjetividades.

Realidade Virtual, a Super Máquina Empática. “Eu sou você”

A possibilidade de congregar dois mundos diferentes – o virtual e o real – dá à Realidade Virtual um potencial inédito de conexão entre pessoas e pode gerar mudanças concretas no comportamentos humano, pois a nossa cognição não consegue distinguir bem entre experiências reais e virtuais.

Imagine uma situação: Uma pessoa que foi agredida e a outra pessoa com perfil agressor. O que aconteceria se elas, por um momento, pudessem trocar de papel e cada uma viver a vida da outra, experimentar suas sensações, suas experiências? Haveria uma mudança de comportamento?

Esta possibilidade de vivenciar experiencialmente novas consciências podem transformar grandes indústrias como o jornalismo, o entretenimento, a saúde e a educação. Trazendo uma perspectiva alternativa das pessoas em relação a importância dos conteúdos e conectá-las com o seu propósito comum.

Abaixo, cito alguns exemplos de como a RV vem sendo utilizada hoje para gerar “choques empáticos“:

THE PARTY – Realidade Virtual contra a Violência Sexual

Neste simulador, o jogador entra na pele do Brian, um jovem que vai à uma festa de uma fraternidade universitária. Brian é incentivado pelos amigos a abusar sexualmente de uma garota bêbada, chamada Gina.

Relatos de pessoas que vivenciaram esta dinâmica de RV tiveram uma conscientização brusca sobre a violência dessa situação. Isso mobilizou uma campanha nacional contra o abuso sexual nos campos universitários.

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Uma cena do “The Party”

 

Jornalismo Imersivo – Aproximando Realidades Opostas

O cineasta Chris Milk produziu um documentário, o “Clouds Over Sidra”, que comoveu os participantes do Fórum Econômico e  Mundial de Davos. Ele fez os participantes do evento (grandes empresários e estadistas mundiais) sentirem na pele a história real de Sidra, uma criança libanesa refugiada, através de uma imersão feita com o Oculus Rift nesse documentário. Segundo Milk:

“A realidade na Líbia estava longe da realidade das pessoas que tomam as decisões aqui na Suíça, então trouxemos esta realidade até eles.”

Concepções de gênero podem ser repensadas após uma experiência como essa. A Realidade Virtual pode conectar e despertar a coletividade para a realidade de minorias e grupos culturais e étnicos explorados e manipulados.

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Clouds Over Sidra (2015) de Chris Milk e Gabo Arora, acompanha uma menina de doze anos de idade chamada Sidra no campo Za’atari na Jordânia.

 

Be Another Lab – Vivendo em outro Corpo

Be Another Lab é um coletivo interdisciplinar dedicado a investigar experimentos de personificação e telepresença. O sistema combina elementos de performance e telepresença para gerar experiências psicofísicas de estar presente no corpo de outra pessoa.

Machine to be Another e Gender Swap são alguns dos experimentos criados dentro deste laboratório. O objetivo é através da “troca de corpos” gerar perspectivas relacionadas entre o Eu e o Outro, gerando mais empatia.

Gender Swap – The Machine to Be Another / BeAnotherLab – Vimeo.

 

O futuro da empatia é a sua expansão através de Realidade Virtual

Após todo o “hype” criado sobre a Realidade Virtual como uma coisa “cool” que pode revolucionar, sobretudo, a indústria bilionária de games, veio à tona uma questão mais séria: a possibilidade do uso da RV como fator de contribuição para a redução de desigualdades e preconceitos, que são, afinal, softwares cognitivos reforçados por experiências concretas.

A Realidade Virtual permite que você sinta e vivencie qualquer situação cognitivamente, com riscos mínimos dos pontos de vista puramente físico. Não está aí um convite apelativo a expansão dos limites e barreiras de nossa consciência tão elevada de preconceitos e pré-julgamentos?

Pensemos:

Como a realidade virtual pode revolucionar o nosso trabalho aumentando a conexão afetiva entre os colaboradores e stakeholders?

Poderíamos aumentar a conexão emocional entre os jovens e professores dentro das escolas através de uma educação imersiva? Como isso afetaria o aprendizado e o desempenho escolar?

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Uma perspectiva otimista para  futuro da humanidade

Para os principais problemas de cunho éticos serem percebidos e resolvidos, é necessário se colocar no lugar do outro e compreender as nuances da sua natureza. A Realidade Virtual pode vir a ser um facilitador para a criação de pessoas conscientemente empáticas e consequentemente traz uma perspectiva otimista para o futuro da humanidade.

Grandes dilemas éticos e morais também são dilemas de percepção. Cognitivamente, o ser humano, apesar de toda sua pujança cultural, ainda é presa de suas pré-concepções egóicas e sente dificuldade em colocar-se no lugar do outro e compreender as nuances da sua natureza.

A Realidade Virtual pode se tornar facilitadora na ampliação da zona de empatia de culturas e povos inteiros, fazendo com que eles no conforto de lares e comunidades, sintam, vibrem, tenham medo, emocionem-se na tônica de outros seres humanos, com outros referenciais e outros contextos.

Agora imagine uma pessoa que você convive e reflita: como seria viver dentro do mundo desta pessoa, por um breve momento que seja?

Que impacto isto teria na sua percepções sobre esta pessoa?

Faça isso hoje com a sua mente. Em breve, isto será potencializado por equipamentos de RV tão baratos quanto um par de sapatos. E com este equipamento, você poderá “andar nos sapatos” de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo…

 

Esse é o primeiro artigo de uma série que tem como finalidade trazer situações reais em que a tecnologia está sensibilizando e construindo conexões afetivas entre pessoas, e também proporcionar momentos de reflexão para praticar o pensamento empático dentro do contexto abordado.

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Bruno Macedo
Bruno Macedo

Bruno é arquiteto de experiências de futuro na F.E.X, empreendedor da DogFactor, pesquisador, game-designer e principalmente um curioso nato que estuda desde neurociência à gamificação. Tudo o que faz procura alinhar 3 coisas: Empatia, Subversão e Diversão.

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