Carlo Ratti: ‘cidades sensíveis’ versus ‘cidades inteligentes’


03 dez 2017

Para ser franco, não me sinto à vontade com o termo ‘cidades inteligentes’. Assim começa a entrevista do arquiteto italiano Carlo Ratti à Architect’s Newspaper (AN).

Segundo Carlo, que é diretor do Senseable City Lab do MIT, o termo ‘cidade inteligente’ muitas vezes aplica abordagens de cima para baixo na implementação de tecnologias para soluções urbanas.

Em vez de usar o termo ‘Cidade Inteligente’, ele prefere usar ‘Senseable City’, que tanto significa “capaz de sentir” como “sensível”. Para ele, a palavra ‘Senseable’ coloca mais ênfase ao lado humano das coisas – ao contrário do tecnológico. E é esse lado humano o denominador comum da maioria dos seus projetos: “estamos interessados ​​em como as cidades poderiam se tornar mais sensíveis: capazes de entender as pessoas e suas demandas.”

Carlo Ratti é diretor Senseable City Lab do MIT e fundador da Carlo Ratti Associati. Ele é co-autor de mais de 250 publicações e possui várias patentes. Dois de seus projetos – o Digital Water Pavilion e a Roda de Copenhague – foram aclamados pela Time Magazine como “Melhores Invenções do Ano”. Ratti faz parte das “25 pessoas da revista Blueprint que mudarão o mundo do design” e na “Smart List” da revista Wired como uma das “50 pessoas que vão mudar o mundo”. Atualmente atua como Presidente do Conselho de Agenda Global do Fórum Econômico Mundial sobre Cidades Futuras. (Cortesia da imagem: Smart City Brand)

 

Em outra entrevista à Smart City Brand, Carlo diz que se um prefeito afirmasse que sua cidade é sensível, ele lhe faria uma única pergunta:

“Como o senhor envolveu os cidadãos no processo de design e de desenvolvimento urbano?”

Diferente do que muita gente pensa – que cabe aos governos municipais e estaduais criarem “cidades inteligentes” – Carlo acredita que esse processo deva acontecer “de baixo para cima”. Portanto, ao invés de se concentrar demais em hardware, é importante que as pessoas se entusiasmem com a criação de aplicativos e o uso de dados urbanos.

Já a questão do design, ele compara: “Para Herbert Simon, as ciências naturais estão preocupadas com a forma como as coisas são… o design, por outro lado, está preocupado com a forma como as coisas deveriam ser.” Carlo acredita que os designers deveriam desafiar o que existe, introduzir novas possibilidades e alternativas e, em última instância, abrir caminhos para um futuro desejável. Neste processo, ele considera vital angariar a contribuição das pessoas, que pode até ocorrer de forma online, método que ele chama de futurecraft descrito em seu último livro (The City of Tomorrow, Yale University Press, 2016).

Voltando ao conceito de “inteligente” ou “sensível”, Carlo diz ser apenas a manifestação de uma tendência tecnológica maior: “a internet está entrando nos espaços em que vivemos, e está se tornando a “internet das coisas”, nos permitindo sentir e atuar numa miríade de espaços que antes eram impossíveis. As aplicações podem ser múltiplas, desde o gerenciamento de resíduos até saúde pública, desde mobilidade até a distribuição de água, desde planejamento urbano até o envolvimento dos cidadãos.”

Para Carlo as palavras ‘Inteligente’ e ‘Sensível’ são intercambiáveis. Por exemplo, Cingapura está fazendo experiências incríveis em mobilidade, Copenhague em sustentabilidade, Boston na participação cidadã. Todas essas experiências combinam de alguma forma com o conceito ‘Senseable’.

A tecnologia para o bem público

Carlo considera que as cidades européias estão à frente das cidades americanas quando se trata de usar a tecnologia para o bem público: “O que eu costumo notar nos EUA é um preconceito contra o gasto público em infra-estrutura pública – talvez uma versão mais leve de “The Plot Against Trains“, descrita por Adam Gopnik.

Para ele é possível extrair inteligência de nossa ‘pegada digital’ diária e essa inteligência pode, de fato, beneficiar uma sociedade. Por exemplo, seus projetos Underworlds e Urban Exposures exploram os benefícios da tecnologia para a saúde pública. Os dois projetos se concentram em dados para proporcionar uma melhor compreensão da saúde humana na cidade – o que, por sua vez, pode inspirar ações políticas. O Urban Exposures, por exemplo, combina dados de medição da qualidade do ar e da mobilidade humana para estimar, de forma mais precisa, a exposição humana a poluentes.

A mobilidade no futuro

Da mesma maneira em que o carro moldou a cidade do século 20, as novas tecnologias de informação e telecomunicações devem transformar as cidades do século XXI, prevê Carlo. “Os veículos autônomos, por exemplo, prometem ter um impacto dramático na vida urbana, porque acabam com a distinção entre transporte público e privado. “Seu” carro poderia lhe levar para o trabalho de manhã e, em vez de ficar parado em um estacionamento, servir a outra pessoa em sua família – ou a qualquer outra pessoa em seu bairro ou cidade. Isso é particularmente importante, já que os carros estão ociosos 95% do tempo.”

Como resultado, um único carro passaria a ser usado 24 horas por dia e a demanda de mobilidade de uma cidade poderia ser suprida com apenas uma fração dos veículos de hoje.

Mas Carlo, alerta que os carros podem se tornar tão baratos que diminuiria a quantidade de pessoas em metrôs e ônibus, congestionando ainda mais as ruas. “O impacto dos veículos autônomos dependerá das decisões políticas que tomarmos. Eu concordo com minha amiga Robin Chase, fundadora da Zipcar, quando ela diz que simplesmente eliminar os motoristas dos carros e não mudar o resto do nosso sistema será um desastre”.

O vídeo acima mostra a solução desenvolvida por pesquisadores do MIT, do Instituto Suiço de Tecnologia (ETHZ) e do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália (CNR), que substitui os tradicionais semáforos tradicionais, reduzindo significativamente as filas de congestionamento.

Por que o interesse em temperatura, ocupação e consumo de energia?

Desde que Carlo publicou um paper em 2011 mostrando que uma quantidade surpreendente de energia é desperdiçada no aquecimento de escritórios, casas e prédios parcialmente ocupados, uma série de projetos surgiram para sincronizar melhor a presença humana com o controle climático. A Fundação Agnelli, inaugurada recentemente, é a primeira aplicação dessa ideia em escala arquitetônica: “Nós equipamos o prédio de escritórios com sensores digitais que monitoram variáveis ​​como temperatura, níveis de iluminação e correspondem esses dados com informações de ocupação.

Um aplicativo permite que as pessoas estabeleçam preferências pessoais de temperatura, como “bolhas térmicas” individualizadas. (Crédito: Carlo Ratti Associati)

 

Quando uma pessoa entra em um prédio e define suas preferências em termos de temperatura ou iluminação, o sistema de gerenciamento a reconhece e responde automaticamente, gerando algo como uma “bolha térmica” a qual irá acompanhá-la dentro do prédio enquanto ela se move entre os cômodos e corredores. O resultado, além do maior conforto, é uma redução substancial no consumo de energia – estimado em até 40%. Quando todos os ocupantes saem, o cômodo retorna naturalmente ao “modo de espera” e economiza energia, da mesma forma que faz um computador.

“Imaginamos que cada vez mais edifícios estarão equipados com redes de sensores, tornando a arquitetura cada vez mais apta a ‘sentir e responder’. Ao projetar a temperatura, podemos aproximar-nos da visão da arquitetura como uma terceira pele, um espaço infinitamente reconfigurável capaz de se adaptar às necessidades humanas.”

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Redação O Futuro das Coisas
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