Qual o futuro da felicidade?


26 fev 2019

Falamos muito sobre o futuro do trabalho, saúde e educação. O Homo Sapiens está em plena transformação, seguindo para o novo status de HOMO DEUS, onde busca a juventude eterna, como o autor Yuval Noah Harari descreve muito bem. Mas nossas expectativas vão além dos itens da primeira sentença do texto; queremos muito mais. E por querer muito, consumimos muito – de bens de consumo imediato à informação.

“Querer muito” nos dá uma dica sobre o sentimento que cresce vigorosamente entre a humanidade: a insatisfação. Com o excesso de ofertas, tudo o que desejamos nos é apresentado com muita facilidade e rapidez, fazendo com que o processo do “querer” tenha novo início rapidamente; é um looping sem fim.

O HOMO DEUS, que persegue a vida eterna, repleta de saúde e vigor, tem um grande problema nas mãos. Epicuro, na Grécia antiga, já dizia: “o culto aos deuses é um desperdício de tempo”; “não há existência após a morte”; e “a felicidade é o único propósito da vida.” Já naquela época Epicuro recomendava que a felicidade exige trabalho duro.

Em tempos modernos, temos Nietzsche, que anuncia a “morte de Deus”, nos presenteando com a liberdade. Com ela vem o abismo que a falta de valores superiores nos apresenta, afinal, de uma hora para a outra, Deus desaparece e estamos por conta própria. Sem bênçãos, castigos divinos e sem regras, o que faremos com a nova organização do mundo? Como formaremos espíritos livres em um universo de informações em excesso?

Economistas e pensadores contemporâneos propõem substituir o PIB (Produto Interno Bruto) pelo FIB (Felicidade Interna Bruta). Afinal vivemos em um mundo mais generoso, sem guerras, pestes e grandes dizimações de pessoas, não é mesmo? Será? No Peru, Gana, Haiti e Filipinas a taxa de suicídio é de menos de 5 pessoas a cada 100 mil por ano; estes são países com alta taxa de pobreza e incertezas políticas. Na contramão da pobreza, temos países ricos e politizados, como a França, Japão e Suíça – que tem taxa de suicídio de mais de 10 entre 100 mil pessoas por ano. O que está acontecendo?

Com o passar dos anos a qualidade de vida e as condições em que vivemos melhoraram muito. E nossa felicidade se dá de acordo com a realização de nossas expectativas. O problema é que quanto mais nossas condições melhoram, maiores elas se tornam! E esse problemão tende a piorar, visto que vivemos em uma sociedade de HIPER CONSUMO, ou seja, que o que manda no mundo é o comprar, o TER. E quanto maior o nosso stress e o medo do futuro, mais buscamos a segurança, uma base para nos apoiarmos, e essa busca gera dopamina. Quanto mais dopamina temos mais queremos. “Para ter a dopamina é necessário consumir, comprar as coisas que queremos, cada vez mais e mais rápido, como em uma escada rolante rápida e que não conseguimos descer”, como alerta o mago da lógica de consumo, Martin Lindstrom.

Avaliar nossa vida e chegar à conclusão de que somos ou não felizes, é baseada em quais fatores? Existe um aplicativo ou inteligência artificial que possa determinar se somos felizes? Afinal, tenho uma vida feliz?

Muitas perguntas, e respostas que somente a pausa, a reflexão e o olhar para si podem responder. O dilema entre a velocidade da vida moderna e o silenciar, que Buda nos lembra como sendo necessário para encontrar o sentido da vida, a reflexão mais radical que nos ensina a frear nossos impulsos em busca de sensações prazerosas, que na verdade são a raiz de todos os problemas. Quanto mais tenho prazer, mais desejo o prazer. Isso leva novamente ao excesso e ao stress pois, quanto mais quero, mais movo energias para tal; sendo um gerador quântico de stress.

Isso tudo me lembra uma história infantil, chamada NADISTAS E TUDISTAS, onde dois povos completamente diferentes devem aprender a coexistir, tal como o encontro de eras que vivemos. Como encontrar o equilíbrio, para uma vida feliz?

Ir de encontro à felicidade PURA é utópico e frustrante. Primeiramente devemos descobrir qual o sentido de nossas vidas, ou seja, o motivo pelo qual você acorda todos os dias. Para muitos, a religião deixou de ser um pilar na estrutura da sociedade. Já não temos uma cartilha divina de como proceder para encontrar o reino dos céus. Agora estamos por conta própria e a busca por um sentido se faz necessária.

Muitos buscam o sentido nas drogas, outros no sexo. Um grupo cada vez maior no vício por viagens, que já se tornou uma cultura de hiper consumo. Buscamos desesperadamente o sentido. Queremos cada vez mais e nos cansamos com facilidade daquilo de conquistamos; até astronautas alcançam um nível de estabilidade de empolgação quando estão no espaço, o que para nós é um feito e tanto. Essa corrida sem fim com chegada frustrante é a famosa esteira ergométrica hedônica de Sonja Lybomirsky, professora da Universidade da Califórnia.

Constantemente estamos na esteira do hedonismo, da procura pelo que nos faz sentir felizes, pela realização. Qual o motivo de não descermos dela? Por que focamos na felicidade futura e esquecemos de aproveitar o presente. É como assistir um filme sobre o dia seguinte e esquecer de viver o dia de hoje.

Às vezes, precisamos parar, silenciar e observar. Estamos vivendo o dia a dia ou apenas sobrevivendo? Fazendo uma tarefa atrás da outra, sem ao menos refletir ou ouvir-se? É essencial, de vez em quando, pausar e olhar para si, para o outro e para o entorno, e entender do que, de fato, é feita a vida. É isso que nos ajuda a encontrar um significado para nossa existência.” __ Stephen Little (físico e budista – especializado em Atenção Plena)

Existem teorias futuristas que envolvem a reengenharia do Homo Sapiens para que possa usufruir de um prazer perpétuo. Soluções bioquímicas que prometem tratamentos e produtos que oferecerão aos humanos um fluxo de sensações prazerosas, ininterruptas. A felicidade plena e eterna.

Funcionários mais felizes e eficazes, soldados indestrutíveis, alunos mais dedicados, o fim da Ritalina em crianças agitadas. Tudo isso com a dosagem correta de moléculas, uma solução que provêm da ciência, fácil como uma aspirina.

Mas o fato de sermos controlados quimicamente não nos toma o livre arbítrio?

Desfrutaremos dessa felicidade em cápsulas?

O futuro é um mundo controlado pela bioquímica da felicidade?

Deixaremos de ser humanos?

Enquanto esse futuro não chega, nos resta trabalhar nossos excessos. Controlando nossa ansiedade e consecutivamente os níveis de stress. Encontrar o meio termo de acesso a redes sociais, de acesso a filmes e seriados. Controle do volume de notícias e novidades que fornecemos ao nosso inconsciente todos os dias. Aprender a dizer não para algumas furadas, disfarçadas de oportunidades. Construir mais relacionamentos analógicos, do que digitais. Pararmos de desperdiçar energia na construção de avatares digitais. Retomar o controle da nossa vida, e não sermos escravos de smartphones. Tomar cuidado com o uso indiscriminado de antidepressivos.

Essas medidas provavelmente evitarão que você envelheça sozinho e precise de profissionais digitais para lhe fazer companhia. O Homo Sapiens muito provavelmente irá evoluir para algo que ainda não conhecemos. O ideal seria chegar lá consciente do presente e aproveitar o momento, não acha?

Crédito da imagem da capa: GettyImages

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Ana Penso
Ana Penso

Ana Penso é designer de produtos, moda e tecnóloga em empreendedorismo. Professora de design, idealizadora do projeto Laboratório de Criadores e Desperta, ambos focados em empreendedorismo criativo e habilidades do futuro.

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