Peter Diamandis: Por que o custo de vida irá cair nos próximos anos


25 jul 2016

Ontem, na nossa página no Facebook, publicamos uma frase do Kevin Kelly:

“No futuro você não será dono de nada e terá acesso a tudo.” 

Kelly, co-fundador da revista Wired, escreveu isso no seu último livro, lançado mês passado, o “The Inevitable: Understantind the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future” (O Inevitável: compreendendo as 12 forças tecnológicas que irão moldar o nosso futuro)

Neste livro, ele aborda a revolução das comunicações e de como ela contribuirá para a desmaterialização e descentralização das coisas.

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Kevin Kelly acredita em um futuro em que não haverá posses e sim, acessos. (Crédito: BoingBoing)

 

Kelly, no livro, explica como doze tendências tecnológicas, incluindo robótica, inteligência artificial (AI), e realidade virtual já estão afetando toda a atividade humana, desde a nossa forma de trabalhar, de aprender e de se divertir.

Em função disso, parece que as pessoas estão mais preocupadas se a AI irá tomar o emprego delas ou irá reduzir sua capacidade de ganho.

Com essa preocupação em mente, países como o Canadá, Índia e Finlândia estão realizando experimentos no sentido de criar uma “renda básica” dada pelo governo para ajudar os cidadãos, independente de eles terem um emprego ou não.

Mas, o que poucas pessoas falam é da rápida desmonetização do custo de vida com o avanço dessas tecnologias. Ou seja, está ficando cada vez mais barato atender às nossas necessidades básicas.

Essa desmonetização tem chamado a atenção de Peter Diamandis, fundador do XPrize e autor de Bold e de Abundance.

Mesmo que no Brasil, o custo de vida seja alto (custo que superou o dos Estados Unidos em 2011), a tendência é que com o desenvolvimento de tecnologias exponenciais, o custo da habitação, do transporte, da alimentação, dos cuidados com a saúde, do entretenimento, do vestuário, da educação e assim por diante caiam, se aproximando, acredite ou não, de zero nos próximos 20 anos (prevê Diamandis).

No seu artigo de publicado na SingularityHub, ele explora como as pessoas atualmente estão gastando seu dinheiro e de como o “socialismo tecnológico” (isto é, ter nossas vidas cuidadas pela tecnologia) pode desmonetizar nosso custo de vida.

Essa tendência e suas implicações irão mudar a nossa forma de viver, de trabalhar e de se divertir nos próximos anos.

Como gastamos o nosso dinheiro hoje

No mundo todo, as pessoas têm hábitos de consumo semelhante, ou seja, tendem a gastar muito dinheiro em produtos e serviços básicos.

Em 2011, nos EUA, 33% da renda do americano médio foi gasto em moradia, 16% em transportes, 12% em alimentos, 6% em cuidados com a saúde, e 5% em entretenimento.

Em outras palavras, mais de 75% dos gastos dos americanos vão para moradia, transporte, alimentação, seguro pessoal e saúde.

Na China, um recente relatório da Goldman Sachs mostra que comida, casa, mobilidade e bem-estar constituem a maioria dos gastos da população.

Curiosamente, na China, os consumidores preocupam-se muito mais em ter uma boa aparência e comer melhor. Por isso, quase metade da renda do consumidor vai para roupas e alimentos.

Na Índia, com uma população de 1,2 bilhão de pessoas, as despesas com alimentação e transporte são as mais proeminentes. Habitação e saúde representam uma parcela menor dos gastos.

Estas diferenças provavelmente são reflexos das diferenças culturais existentes em cada um destes três países – mas no geral, você vê que a maioria das despesas são nessas 7 categorias:

1- Transporte

2- Alimentação

3- Cuidados com a saúde

4- Moradia

5- Energia

6-Educação

7- Entretenimento

Agora, imagine o que aconteceria se os custos desses itens despencassem.

Diamandis explica como…

Rápida desmonetização – O que isso significa

Para Diamandis, “desmonetizar” significa a capacidade da tecnologia pegar um produto ou serviço que antes era caro e torná-lo substancialmente mais barato ou até mesmo grátis. Isso significa retirar o dinheiro da jogada.

Ele cita o exemplo da fotografia: Na era Kodak, a fotografia era cara. A pessoa tinha que comprar a câmera, comprar o filme, e revelar. Hoje, na era megapixels, o seu celular já tem uma câmera, não precisa de filme, nem de revelação. Processo completamente desmonetizado!

Vamos pegar agora a Informação / Pesquisa: Até pouco tempo atrás, coletar dados era algo difícil e demorado (se você fizesse isso sozinho), e caro se você contratava pesquisadores. Hoje, na era Google, isso pode ser gratuito e a qualidade pode ser superior. O acesso às informações, dados e pesquisas agora é totalmente desmonetizado.

Outro exemplo, seriam as chamadas online de vídeo ou telefone que foram desmonetizadas pelo Skype, Google Hangouts.

Abaixo, uma pequena lista de coisas que estão sendo desmonetizadas:

– A Craigslist desmonetizou os classificados

– O iTunes demonetizou a indústria da música

– A Uber está demonetizando o transporte

– A Airbnb está demonetizando os hotéis

– A Amazon está desmonetizando as livrarias

US$ 1 milhão em Desmonetização

No seu livro Abundance, na parte de trás ou na página 289 da última edição, Diamandis mostra um gráfico de como o valor de produtos e serviços que eram comprados pelas pessoas entre 1969 e 1989 foi desmonetizado em US$ 900.000.

Desmonetização

Com apenas um smartphone você pode acessar ferramentas que custavam milhares de reais algumas décadas atrás.

Vinte anos atrás, as pessoas tinham que comprar uma câmera fotográfica, uma câmera de vídeo, um leitor de CD, um aparelho de som, um console de games, um telefone celular, um relógio, um despertador, enciclopédias, um atlas, e um monte de outras coisas que facilmente podiam ultrapassar esses US$ 900.000.

Hoje, todas essas coisas estão grátis em seu smartphone.

Ironicamente, para Diamandis, é estranho que não valorizamos essas coisas quando elas se tornam grátis. Passamos apenas a esperar por elas.

Então agora, ele nos convida a checar as sete principais áreas mencionadas acima em que as pessoas continuam a ter que pagar para usufruir e de como estas coisas poderão ser desmonetizadas ao longo da próxima década.

1- Transporte

O mercado automotivo (de um trilhão de dólares) está sendo desmonetizado por startups como a Uber.

Mas, isso é apenas o começo.

Quando a Uber lança serviços totalmente autônomos, o custo do transporte inevitavelmente despenca.

Considere que todos os custos relacionados irão desaparecer com isso: seguros, manutenção, estacionamento e combustível. O custo total será de 5 a 10 vezes mais barato quando comparado a você possuir um carro.

Este é o futuro do “carro como um serviço.”

2- Alimentação

Como Diamandis observou em Abundance, o custo dos alimentos caiu 13 vezes ao longo do século passado. E essa queda vai continuar.

Porém, ganhos adicionais serão obtidos à medida que aprendermos a produzir alimentos localmente através da agricultura vertical (70% do preço de venda final do alimento vem do transporte, do armazenamento e do manuseio).

E tem mais: com os avanços genéticos e biológicos, vamos aprender como aumentar a produtividade por metro quadrado.

3- Cuidados com a Saúde

A saúde pode ser dividida em quatro principais categorias: (i) diagnóstico, (ii) intervenção / cirurgia, (iii) cuidados intensivos, e (iv) medicamentos.

(i) Diagnóstico: a inteligência artificial já demonstrou ter uma capacidade mais aguçada para diagnosticar pacientes com câncer. A AI analisa os dados genômicos, tira suas conclusões, e / ou classifica através de gigabytes de dados fenotípicos. Tudo isso apenas pelo custo da eletricidade.

(ii) Intervenção / Cirurgia: Em um futuro próximo, os melhores cirurgiões do mundo serão robôs, e eles serão capazes de operar com absoluta precisão. Cada cirurgião robótico poderá acessar os dados de milhões de outras cirurgias robóticas que foram realizadas anteriormente, para nortear o seu trabalho.

(iii) Cuidados intensivos: Cuidar de idosos e pacientes crônicos será feito de forma eficiente através de robôs.

(iv) Medicamentos: Novos medicamentos serão desenvolvidos e fabricados de forma mais eficiente pela AI. No futuro próximo, um medicamento poderá ser impresso em 3D, através de máquinas que customizam perfeitamente a medicação com base nas necessidades e na bioquímica de cada paciente.

É importante também notar que o preço do sequenciamento genômico está em queda livre (como você pode ver abaixo, em cinco vezes a taxa da Lei de Moore).

Custo por genoma

O custo para sequenciar o genoma humano está despencando. (Fonte: NHGRI)

 

Esse sequenciamento preciso irá permitir prever quais doenças é provável que você desenvolva e quais seriam os melhores medicamentos para tratá-las.

4- Moradia

O que impulsiona os altos custos com moradia? Por que um apartamento com a mesma metragem pode custar R$ 10 milhões num lugar e R$ 200 mil noutro?

Claro, que é a localização!

As pessoas desejam morar em áreas de alta densidade, perto do trabalho e do entretenimento. Esta demanda do mercado eleva o preço.

Mas, a habitação vai desmonetizar por duas razões:

A primeira razão será em função de duas tecnologias-chave que tornam irrelevante a questão da proximidade de sua casa e do seu trabalho, o que significa que você pode viver em qualquer lugar (especificamente, onde os imóveis sejam mais baratos):

(1) Carros autônomos: Se você transforma o seu tempo de deslocamento, num momento para ler, relaxar, dormir, assistir a um filme ou ter uma reunião – importaria se o tempo de deslocamento fosse 90 minutos?

(2) Realidade Virtual: O que acontece quando o seu local de trabalho é na verdade um escritório virtual (você não precisa se deslocar) onde seus colegas de trabalho são avatares? Você acorda, liga o seu espaço de trabalho virtual, e começa a comunica-se com eles.

A segunda razão são as tecnologias de robótica e de impressão em 3D, que irá desmonetizar o custo das estruturas de construção.

Uma série de startups está explorando como estruturas impressas em 3D podem reduzir drasticamente o custo da construção e da quantidade de tempo que se leva para construir um edifício.

Por exemplo, a empresa chinesa WinSun, imprime em 3D prédios inteiros (ver imagem abaixo):

winsun

Edifício impresso em 3D pela WinSun (Crédito: Design Boom)

5- Energia

A energia solar que atinge a superfície da terra em apenas 1 hora é cinco mil vezes maior do que a energia que a humanidade usa durante 1 ano. Essa energia é abundante no mundo todo. Melhor ainda, os países mais pobres são os mais ensolarados.

energia solar

A BELA MATEMÁTICA DA ENERGIA SOLAR: Cada vez que a quantidade de painéis solares no mundo duplica, o custo destes painéis cai em 26%. Este custo é conhecido como “taxa de aprendizagem” (learning rate) da energia solar. (Crédito: The World Economic Forum)

 

Hoje, o custo da energia solar caiu para ~ $ 0,03 kWh. Esse custo vai continuar a desmonetizar-se com os novos avanços de materiais (por exemplo, a perovskita) que aumentam a eficiência.

6- Educação

A educação já foi desmonetizada em muitos aspectos. A maioria das informações que você aprende na escola está disponível online e gratuitamente.

Coursera, Khan Academy, Harvard, MIT e Stanford têm milhares de horas de aulas de alta qualidade on-line, disponíveis para qualquer pessoa no planeta que tenha uma conexão com a Internet.

Mas, isso é apenas o começo. Diamandis chama a atenção para o fato de que em breve os melhores professores do mundo serão AIs. Essas inteligências artificiais serão capazes de reconhecerem com exatidão as habilidades, as capacidades, as necessidades e os desejos de aluno e ensinar-lhe exatamente o que precisa da forma mais eficiente possível.

Assim, tanto o filho de um bilionário quanto o filho de uma pessoa pobre terão acesso à mesma (e melhor) educação entregue por uma AI, de forma gratuita.

7- Entretenimento

O entretenimento (vídeo e games) historicamente necessita de um investimento significativo em equipamentos e serviços.

Hoje, com o advento de serviços de streaming de música, YouTube, Netflix e o iPhone App Store, passamos a receber uma explosão de opções disponíveis, ao mesmo tempo que esse universo de opções desmonetiza-se rapidamente.

Só o YouTube tem mais de um bilhão de usuários – quase um terço de todas as pessoas na Internet. Diariamente, essas pessoas assistem centenas de milhões de horas no YouTube, gerando bilhões de visualizações.

A realidade virtual e a realidade aumentada também contribuirão para desmonetizar o entretenimento.

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Redação O Futuro das Coisas
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