Remonta o amor Remonta, remonta Ai, ai, ai, ai, ai […] Que eu não quero mais saber de desamor (“Remonta” — Liniker e os Caramelows)

Eu adoro a Liniker. Não “só” pela sua música, que é grande e potente demais dentro dessa nova musicalidade brasileira, mas também pela quebra de paradigmas que ela representa como artista negra e LGBTQIA+ no Brasil reacionário de hoje.

É uma alegria que não cabe no peito ver as pessoas gays, trans, não binárias podendo acessar seus direitos. Podendo ser quem elas realmente são, amando quem lhes interessa amar, expressando sua sexualidade das formas que amam.

Não é porque eu sou um homem cis que não posso ajudar a encorpar essa luta. Até porque essa luta está só no começo e precisa de todos nós. Há muito a ser feito.

Existe, porém, um outro eixo que precisa ser atravessado por quem deseja remontar o amor. Uma luta em um estágio embrionário, mas que afeta todos e todas dentro da narrativa conservadora, patriarcal e romântica das relações.

Se a luta dos movimentos LGBTQIA+ pode ser vista como horizontal — no sentido de assegurar a toda e qualquer pessoa os seus direitos identitários e sexuais — , há ainda uma outra luta que é vertical — e o objeto que essa segunda luta busca desconstruir e problematizar atende pelo nome de “escada rolante dos relacionamentos”.

Não é o meu intuito aqui comparar a magnitude ou a importância dessas lutas, que inclusive muitas vezes se entremeiam. Meu desejo é ajudar a perspectivar esse eixo vertical, por vezes esquecido ou ainda considerado tabu, que diz respeito à dificuldade ou à impossibilidade de se estruturar relações de outras formas para além do que é convencionado ou esperado pela sociedade.

“A vida deles parece muito mais divertida do que a nossa.” (Cartoon: Mick Stevens)

Essa narrativa convencional, rígida e altamente verticalizada que informa como as relações amorosas devem ser configuradas pode ser definida da seguinte forma:

Escada rolante dos relacionamentos. O pacote padrão de expectativas sociais para relacionamentos íntimos. Os parceiros seguem um conjunto progressivo de etapas, cada uma com marcos e indicadores visíveis, em direção a um único objetivo.

A escada rolante é o parâmetro pelo qual a maioria das pessoas avalia se um relacionamento íntimo é significativo, sério, bom, saudável ou digno de compromisso ou esforço.

O objetivo no topo da escada rolante é firmar uma relação monogâmica permanente, isto é, sexual e romanticamente exclusiva entre apenas duas pessoas. Além disso, espera-se que os parceiros na escada rolante vivam juntos de maneira ininterrupta e tenham seu relacionamento legalmente sancionado e publicamente reconhecido — normalmente por meio de um casamento.

Espera-se que os parceiros permaneçam juntos no topo da escada rolante até que a morte os separe. Outros marcos comuns esperados (mas não tão mais pesadamente requeridos) incluem a posse de uma casa juntos, mesclar as finanças e ter filhos.

A definição acima é da Amy Gahran, autora do livro Stepping Off The Relationship Escalator: uncommon love and life (Saindo da Escada Rolante do Relacionamento: amor e vida incomuns, em tradução livre), infelizmente ainda sem tradução para o português. Ao longo dos anos, ela colheu mais de 1.500 respostas em uma pesquisa sobre relacionamentos.

Ainda segundo Gahran, existem cinco elementos básicos que caracterizam as relações que sobem a escada rolante:

1- Monogamia. A impossibilidade de buscar romance, afeto profundo e sexo fora da relação de casal, mesmo que dentro dessa mesma relação o romance, o afeto e o sexo tenham deixado de existir. O ciúme moderado, no contexto da escada rolante, é muitas vezes considerado uma expressão de amor.

2- Fusão de vidas. Os parceiros passam a organizar suas vidas em torno da unidade “casal”, mesclando suas casas, finanças, famílias, preferências e outros aspectos com uma intensidade cada vez maior. Tão cedo quanto possível, começam a se apresentar socialmente como um “nós” em vez de “eu”, mesmo quando o parceiro não está presente. Com frequência, a fusão progressiva começa a gerar nas pessoas um quadro de codependência emocional.

3Hierarquia. O relacionamento da escada rolante supera em importância e prioridade quase todos os outros, exceto as relações familiares mais próximas e o cuidado com os filhos. As amizades, em especial, são os relacionamentos que mais sofrem com essa hierarquização, sendo relegadas a um segundo plano ou, em certos casos, totalmente esquecidas.

4- Conexão romântica e sexual. Se os parceiros não se sentirem apaixonados um pelo outro e não seguirem tendo relações sexuais, então existe algo que precisa ser “consertado” no relacionamento. Pessoas assexuais são alvo de preconceito dentro da escada rolante por não buscarem sexo em suas relações amorosas.

5- Continuidade e consistência, pelo menos como objetivo. Relacionamentos na escada rolante não devem regredir para estágios “de menor comprometimento” — isto é, com vidas menos emaranhadas — nem ficarem pausados por muito tempo (afinal, é uma escada rolante). Os papéis de cada um também são fixos, de modo que é inaceitável que os parceiros vivam um período como amigos em vez de amantes, por exemplo. Além disso, a escada rolante segue “até que a morte os separe”: relacionamentos que terminam antes disso, embora cada vez mais comuns, são percebidos como fracassos.

Não é que seja impossível ter relacionamentos amorosos fora desses padrões. Muitos já faziam isso before it was cool. A questão é que, quanto mais as pessoas fogem dessas regras implícitas, mais suas relações tendem a ser criticadas, julgadas, condenadas, ignoradas, silenciadas e até mesmo destruídas. Não raro, o alto nível de autojulgamento e autocobrança das pessoas quando estão se relacionando dentro da escada rolante também causa estragos.

“Eu já deveria estar casada a esta altura da vida!”

“Não posso ficar sem apresentar minha namorada para a minha família, senão o que meus pais vão achar do nosso relacionamento?”

“Como assim, ele não vai na festa me acompanhando? O que as pessoas vão pensar?”

“Meu relacionamento é à distância, e nem eu nem ele queremos mudar isso. Mas, quando as pessoas perguntam, eu digo que é a pior coisa do mundo.”

“Já que eu não tenho desejo de fazer sexo, então eu nunca vou conseguir ter um relacionamento amoroso na vida.”

É como se quase toda a tribo planetária concordasse em se espremer em um beco estreito, e se você resolver contorná-lo ou buscar outros caminhos, você não apenas terá de ir sozinho, como também deixará de pertencer à tribo.

Não estar em um relacionamento “sério” com alguém — preferencialmente casado e morando junto — na idade adulta pode fazer com que você nunca seja considerado um adulto “pleno”. Alguma coisa fica faltando. Todas as suas outras relações (de amizade, familiares, amorosas e sexuais), por mais significativas e profundas que sejam, intrinsecamente valem menos. É o que, dentro de comunidades que questionam a escada rolante, é chamado de “privilégio de casal”.

Privilégio de casal. A presunção de que relacionamentos socialmente sancionados envolvendo apenas duas pessoas (como casamento, namoros de longa data ou outras formas de parcerias íntimas convencionais) são inerentemente mais importantes, “reais” e válidos do que outros tipos de relações íntimas, românticas ou sexuais. (Amy Gahran)

Ao mesmo tempo, a imagem arquetípica de confiabilidade e normalidade da sociedade patriarcal é a família composta pelo casal (cis hétero) e seus filhos. É por isso que políticos ainda correm o risco de perderem votos se forem solteiros ou, pior ainda, não monogâmicos ou poliamoristas.

As recusas a subir na escada rolante são escolhas sociais com consequências potencialmente trágicas caso sejam publicizadas, o que faz com que muita gente prefira permanecer “dentro do armário” no que diz respeito a essas decisões.

Até mesmo pessoas abertamente LGBTQIA+, ou seja, que já enfrentaram e enfrentam a luta horizontal pela afirmação de suas identidades de gênero e sexual, podem sofrer com isso.

A imagem arquetípica da família composta pelo casal (cis hétero) e seus filhos. (Ilustração: Adrian Tomine para The New Yorker)

A luta vertical pela diversificação das formas de se construir relações não é uma luta que visa a abolição da possibilidade de se subir a escada rolante, assim como o movimento LGBTQIA+ não deseja eliminar a possibilidade de ser heterossexual.

O caminho é incluir, e não excluir.

O ponto é que muitas pessoas sobem na escada rolante não porque é o seu desejo genuíno, e sim porque esse é o único caminho conhecido para alcançar relacionamentos que realmente “valem a pena”. Ou pior: por medo de serem atacadas, diminuídas e de não pertencerem caso não façam a escolha “correta” na construção de suas relações.

Para escolher bem, é necessário conhecer. Ninguém pode escolher aquilo que sequer sabe que existe. Por isso, para remontar o amor é necessário remontar o imaginário a respeito do que é possível nas relações, reconhecendo, honrando e aprendendo sobre novas formas de se relacionar que podem ser muito sérias, profundas e significativas.

Não monogamia consensual, poliamor, relações abertas, livres ou fluidas, amizades coloridas ou não, anarquia relacional, coparentalidade, relacionamentos equalitários, assexualidade, solo poliamoristas: esses são apenas alguns dos termos que podemos usar para repaginar o imaginário das relações.

A questão vai muito além de optar pela monogamia ou não, como fica evidente ao ponderar os outros quatro elementos essenciais que constituem a escada rolante — fusão de vidas, hierarquia, conexão romântica e sexual e continuidade/consistência.

Somente com um repertório capaz de ir além desses padrões é que conseguiremos tecer relações artesanais em vez de industriais.

Obs. 1: talvez você me conheça dos textos e reflexões sobre aprendizagem. Formas não convencionais de viver os relacionamentos fazem parte de uma nova jornada de aprendizado que estou trilhando.

Obs. 2: algumas fontes que eu recomendo fortemente para quem quer remontar verticalmente o amor são:

Cartoon (capa) por Mick Stevens.

Alex Bretas

Alex Bretas é escritor, palestrante e especialista em aprendizado autodirigido e lifelong learning. É o idealizador do MoL, uma comunidade de aprendizagem autodirigida, e coautor do livro Core Skills: 10 habilidades essenciais para um mundo em transformação. Colabora com as empresas na redefinição da sua cultura de aprendizagem e com os indivíduos na sua capacidade de aprender a aprender. Saiba mais em www.alexbretas.com

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