Estamos vivenciando uma era volátil e incerta, na qual o verbo inovar passou a ser condição básica e essencial para continuidade dos negócios.

Contudo, é importante perceber que toda essa realidade merece um olhar com bastante cuidado, pois, basicamente, temos tido dois caminhos para a inovação: a) inovação a partir da internet, via unicamente pelos smartphones que se transformou na ferramenta ideal de criação de soluções; e b) inovação com controle e influência de gigantes: Google, Amazon, Microsoft, Facebook e Apple, as chamadas Big Techs.

Esses dois caminhos impedem, de certa forma, de pensar em soluções, talvez mais simples, mas muito capazes de criar novos negócios, ou melhorar as empresas nas quais trabalhamos, principalmente fora do âmbito digital.

O processo de inovação não deve ficar restrito apenas à criação de negócios baseados nos parâmetros das Big Techs, mas deve ser aplicado como sistema que induza melhorias em processos, na gestão, no desenvolvimento de pessoas e na produção de conhecimento que impactem empresas e a sociedade de um modo geral.

E isso vai além da simples criação de um aplicativo. Temos que entender e praticar a inovação sendo um elo na resolução de problemas que não faltam aqui no nosso país e no mundo! Portanto, oportunidades não faltarão para quem acreditar nisso e tiver vontade para criar soluções inovadoras.

Empreendedorismo Interno

Nesse contexto, para que tudo isso funcione, um agente de transformação importante é o chamado intraempreendedorismo.

O termo é uma versão em português da expressão intrapreneur, que significa empreendedor interno, ou seja, empreendedorismo dentro dos limites de uma organização já estabelecida.

É certo que o tema empreendedorismo nunca esteve tão em alta como nos últimos anos, da mesma forma que a inovação. O sonho de comandar o próprio negócio e de trabalhar em algo que realmente se acredita, aliada a situação econômica delicada que o Brasil enfrenta, são os principais fatores que têm motivado as pessoas a empreender. O problema é que, na maioria das vezes, essa vontade fica apenas no campo dos sonhos e nunca é colocada em prática.

E por que não empreender dentro da organização em que se trabalha?

Esta prática tem se tornado cada vez mais comum dentro das empresas e instituições, pois permite que os profissionais possam analisar cenários, criar ideias, inovar e buscar novas oportunidades e alternativas para que a organização tenha sempre um melhor funcionamento.

A prática do intraempreendedorismo também é muito positiva para os colaboradores. Profissionais que exercem este papel são sempre mais valorizados pelas organizações, justamente por agregarem valor ao trabalho executado.

Isso porque ao alcançar determinado nível de estabilidade, uma organização pode perder ou ver reduzido o seu potencial empreendedor, entendido como a capacidade de inovar através da recriação e reinvenção dos processos e técnicas que a permitem encontrar novos mercados e novos produtos. Assim, o intraempreendedorismo é indispensável para as empresas já estabelecidas, pois recria a cultura empreendedora interna.

A motivação dos colaboradores para incentivar o intraempreendedorismo está intimamente relacionada à cultura organizacional da empresa, ou seja, é preciso investir na criação de um ambiente favorável. É importante considerar que, em uma empresa de cultura fechada, burocrática, em que as pessoas são “executoras de processos”, as conquistas pessoais estarão sempre distantes, por mais inovador e criativo que um profissional seja.

Na construção da cultura organizacional favorável ao intraempreendedorismo, os líderes também têm papel chave. Eles representam e servem à equipe, direcionando os objetivos individuais para que sejam comuns ao time todo.

Thiago Oliveira, autor do livro “Pense Dentro da Caixa”, que trata sobre esta temática, destaca que um estudo de Marcos Hashimoto, professor da Insper, constatou que apenas 15% dos colaboradores de uma empresa são naturalmente empreendedores. No entanto, segundo Hashimoto, os outros 85% podem ser perfeitamente treinados para tal.

É claro que, como dito anteriormente, existe um papel fundamental na questão cultural e das lideranças. De qualquer forma, mesmo quando não há muito espaço para isso, os intraempreendedores se destacam da multidão.

Veja abaixo as 5 características que Thiago Oliveira menciona para ver se você se enquadra:

1)  Ter o olhar do dono

Ter essa visão significa que o colaborador encara a empresa como se ele mesmo fosse o fundador ou o presidente. Com essa postura, a pessoa se preocupa em olhar a empresa com um todo e não só fazer as atividades básicas da sua atribuição. Quem tem esse olhar se sente tentado a entrar de vez nos processos da empresa para encontrar as falhas, as melhorias e as oportunidades. Essa mentalidade ajuda, é claro, no crescimento profissional. Se você começar a encontrar soluções para os problemas, vai contribuir com duas coisas: resultados da empresa e com a própria empregabilidade. Afinal de contas, todos irão enxergar que você é uma pessoa que coloca a mão na massa e é capaz de propor ideias interessantes e inovadoras.

2)  Ser persistente, mas não teimoso

Esta é uma característica muito importante! Mas, muita atenção na diferença entre perseverança e teimosia. O perseverante tem um norte para seus objetivos, acompanha os resultados da ação e consegue definir até onde pode ir sem se prejudicar. Já o teimoso, mesmo quando não encontra saídas para os problemas que surgem no caminho e o projeto não dá sinais de progressão, continua tentando porque se apegou demais ao empreendimento.

3)  Fazer mais do que esperam de você

Em outras palavras, ser proativo. Um bom primeiro passo para ser proativo é saber ouvir mais. Às vezes, temos tantas tarefas, tantas obrigações, que entramos em uma bolha e só conseguimos pensar sobre os próprios problemas. A escuta ativa amplia nossos horizontes, e consequentemente, nos dá insights para mais ideias.

4)  Compartilhar suas experiências com os outros

Não há inovação sem colaboração. Colaborar significa se conectar com as outras pessoas, ouvir o que elas têm a dizer e compartilhar suas experiências. Muitas pessoas têm medo de contar seus insihgts, pois podem ser roubados. Trocar informações e percepções aumenta a capacidade criativa. Cada um tem um olhar diferente e a troca pode ajudar qualquer pessoa a complementar uma ideia ou a superar um obstáculo. Numa empresa isso é muito mais importante, pois ninguém faz nada sozinho.

5)  Tirar as ideias do papel

É preciso ter vontade de fazer e realizar. Apenas pensar no que pode ser feito ou transformado não faz ninguém sair do lugar. Portanto, além de um bom teórico você precisa ser um bom executor. Quem tira as ideias do papel é quem faz toda a diferença.

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Seguindo essas dicas, será muito mais fácil ajudar a sua empresa a desenvolver melhor o negócio, reinventar-se e, também, aproveitar oportunidades que possam estar escondidas.

Crowdsourcing

 Outro agente de transformação aliado à inovação que está disponível para as empresas, além do empreendedorismo interno, é o Crowndsourcing.

O Crowdsourcing é um processo que tem o objetivo de encontrar pessoas talentosas para solucionar um determinado problema ou desafio.

Um fato interessante é que essas pessoas talentosas podem ser outros profissionais, fornecedores, freelancers ou até mesmo os próprios consumidores do produto ou serviço, gerando uma cadeia essencialmente colaborativa.

Netflix, Unilever, Wikipedia, Coca-cola, Waze, Nasa, Azul e Google são exemplos de empresas que utilizam o crowdsourcing em seu ambiente corporativo onde todas acabam tendo uma grande vantagem competitiva por agregar uma rede de colaboradores e o consequente aumento do engajamento e também da fidelização.

Veja abaixo três passos para implantar a cultura do crowdsourcing no ambiente corporativo:

– Primeiro, compreender o verdadeiro significado do papel da empresa na sociedade, formando uma consciência de cultura favorável à colaboração.

– Segundo, fazer um diagnóstico das áreas internas da empresa que mais necessitam de uma construção mais coletiva.

– Terceiro,hora de partir para a busca de colaboradores que ajudem a solucionar os problemas e desafios, através das plataformas de crowdsourcing

Alguns exemplos de plataformas de crowdsourcing:

No Brasil: wedologos; kaxola; kickante

No exterior: openideo; utest; corporate360

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Cada vez mais, a inovação vai acontecer dentro e fora dos muros da empresa; dentro, por meio do empreendedorismo interno, que tem uma relação muito direta com o desenvolvimento e, fora, com o crowdsourcing, que faz parte de uma nova economia, com a terceirização de serviços. Ambos poderão determinar a sobrevivência de alguns setores em momentos de crise e convergem para a sustentabilidade de qualquer organização, principalmente nos dias de hoje e para o futuro.

Crédito da imagem da capa: Luca Bravo

Nazareno Maciel Junior

Nazareno é atuário, perito, palestrante, escritor e mestre em Economia. Atua no segmento de Saúde Suplementar. É membro do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), do Comitê Nacional dos Atuários do Sistema Unimed e do Comitê Permanente de Solvência da ANS.

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