Em maio de 2026, o presidente da Câmara Municipal de Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, telefonou para a prefeitura para perguntar se alguém ali sabia alguma coisa sobre um data center, ainda em estudos preliminares, que poderia ser construído na cidade. Descobriu que ninguém sabia. Os repórteres que o haviam informado ouviriam em seguida a mesma resposta de autoridades, empresários, agricultores e moradores. Uma dona de restaurante quis saber se aquilo era algum novo conceito de hotel, e o guardião de uma igreja erguida no século XVIII perguntou, com a honestidade de quem cuida de algo que perdura, o que exatamente era um data center. Perguntas em que não havia ignorância alguma, mas uma espécie de lucidez involuntária: ninguém em Paracatu tinha obrigação de saber o que era aquilo, porque ninguém em Paracatu tinha sido consultado sobre o que aquilo faria da cidade.
Os data centers vêm aparecendo no discurso político como uma espécie de salvação da lavoura, muitas vezes atrelados a termos como soberania nacional, e claro, geração de empregos para justificar sua importância.
Palavra equivocada
Segundo um assessor do Ministério da Fazenda, 60% da carga digital brasileira roda em data centers fora do país. Daí a ideia de o país ser digitalmente dependente e, essa dependência representar um risco estratégico. A solução seria atrair data centers com incentivos fiscais generosos. Foi essa lógica que sustentou a Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026, que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, apresentado pelo governo como instrumento de soberania digital.
O debate público e a formulação oficial não delimitam com clareza o que essa soberania significa. A palavra passou a cobrir coisas muito distintas – do dado pessoal guardado num servidor ao treinamento de um modelo de linguagem –, como se todas se resolvessem do mesmo modo, pela simples presença de máquinas em solo nacional.
Soberania de dados diz respeito a quem controla a informação, sob qual jurisdição e com que poder de decisão. Um data center de empresa americana instalado em São Paulo pode tornar alguns serviços mais rápidos e reduzir certas dependências operacionais, mas não resolve por si só essas questões: não transfere controle societário, domínio tecnológico ou governança do serviço, nem elimina a incidência de jurisdições estrangeiras. O Cloud Act, por exemplo, permite que autoridades dos Estados Unidos requeiram, a partir de provedores sujeitos à sua jurisdição, dados sob seu controle, mesmo quando armazenados fora do país. O endereço do servidor, portanto, não é sinônimo de soberania.
Chamar isso de soberania equivale a chamar de independência o fato de o engenho estar em Pernambuco e não em Lisboa, com a moenda girando aqui e a cana plantada em chão daqui, sem que ninguém, em sã consciência, dissesse que o Brasil colonial era soberano sobre o próprio açúcar.
Do dado ao chão
A palavra que proponho no lugar de soberania é colonização, e sei o peso que ela tem, de modo que preciso explicar logo o que penso: não se trata de ataques ou escravização como nos séculos passados, mas o que se repete é o arranjo em que um lugar entra com terra, água e energia, outro fica com a decisão e com o resultado, e os custos permanecem com quem cedeu o chão.
Um data center que atende clientes brasileiros numa região onde há abundância de água e energia pode ser um negócio como qualquer outro, mas quando a capacidade é voltada para fora, o recurso local escasso e a decisão tomada sem que o lugar tenha sido chamado a participar dela, não estaríamos presenciando uma nova fórmula de colonização?
Nick Couldry e Ulises A. Mejias chamaram de colonialismo de dados a reorganização da vida social para que o comportamento, atenção, relações e os gestos mais banais do cotidiano se convertam em matéria capturável, processável e vendável. A economia vendida como imaterial passa a ter corpo e endereço.
Resta uma pergunta: por que um negócio que parece imaterial precisa de tanta terra? Na formulação de Cédric Durand e, em versão mais popular, de Yanis Varoufakis, o tecnofeudalismo descreve a concentração do poder das grandes plataformas sobre mercados, fluxos de informação e condições de acesso, onde esse controle amplia formas de renda e dependência que já não cabem confortavelmente no modelo competitivo clássico.
O paradoxo é material, fala-se de um senhorio sobre algo que parece etéreo, a nuvem, mas, nas formas históricas de feudalismo, terra e domínio senhorial foram centrais. O data center é o ponto em que o capital de nuvem, para usar o termo de Varoufakis, revela sua base física: precisa de solo, energia, equipamentos, sistemas de resfriamento e, em muitos casos, água; produz também ruído, calor residual e pressão sobre a infraestrutura do entorno.
A ordem que parecia ter se libertado da geografia volta, assim, a depender dela, pela apropriação intensiva de território, recursos e capacidade pública de decidir o que cabe, ou não, em determinado lugar.
Observados com meus olhos de urbanista, não seriam os campi de hiperescala a arquitetura característica dessa ordem: o castelo do tecnofeudalismo? São edifícios sem janelas, fortificados, murados e vigiados, ocupados por poucas pessoas, mas capazes de reorganizar o entorno pela demanda de energia, água, rede e solo e sua integração desigual ao território, o poder de um senhorio sem aldeia própria.
Vassalos voluntários
Há, no caso brasileiro contemporâneo, uma inversão particularmente reveladora: não é preciso conquistar a colônia; governos locais competem para oferecer território, infraestrutura e incentivos a quem promete desenvolvimento. A imagem do vassalo ajuda a descrever a cena: em busca de proteção, prestígio ou prosperidade, o súdito se vincula ao senhor e aceita suas condições.
No Rio Grande do Norte, por exemplo, uma minuta de política estadual previa descontos de até 95% no ICMS para data centers, em troca da promessa de 10 e 50 empregos, conforme o porte do empreendimento.
Aqui, a história brasileira oferece uma analogia própria. Instituídas a partir de 1534, as capitanias hereditárias eram delegações da Coroa a donatários, formalizadas por cartas de doação e forais, que lhes atribuíam prerrogativas administrativas, judiciais, militares e fiscais. Não eram feudos em sentido estrito, e seus donatários não eram soberanos, mas exerciam poderes delegados e subordinados à Coroa, e ajudaram a organizar uma colonização orientada para a exploração mercantil e para circuitos externos.
Alguns dos projetos que se desenham agora obedecem a um desenho similar: incentivos fiscais excepcionais a empresas e fundos com centros decisórios externos; instalação em territórios já pressionados; e uma infraestrutura cuja integração efetiva à economia local permanece incerta.
Cartas ao Rei
As colonizações historicamente se apoiaram em narrativas que transformavam ocupação em benefício. Civilizar, catequizar, modernizar, desenvolver – os verbos mudaram a cada ciclo, mas a operação de legitimação permaneceu. Uma de suas versões atuais se chama soberania digital e transição energética, e opera reescrevendo a identidade dos lugares para torná-los disponíveis ao empreendimento que se quer instalar.
E é preciso dizer algo desconfortável sobre o meu próprio campo. O place branding de fachada, aquele que confunde identidade com slogan e lugar com produto, faz hoje um trabalho parecido com o dos cronistas nas cartas ao rei: descreve a terra de modo que ela pareça feita para servir. Toda capitania precisou de sua carta de louvor. Quando a identidade é mobilizada para revestir uma planta industrial com os signos da cultura local, ela deixa de ser instrumento de autoconhecimento e passa a ser instrumento de captura.
Nada disso significa que data centers sejam inevitavelmente coloniais, há quem tenha imposto termos muito diferentes. A Irlanda, onde os data centers responderam em 2025 por 23% do consumo de eletricidade medido no país, segundo o instituto oficial de estatística, passou a exigir de novas conexões geração ou armazenamento no local ou perto dele e energia renovável nova para a maior parte da demanda.
Isso pode ser entendido como soberania de lugar: a capacidade de um lugar decidir o que aceita hospedar, em que condições e a serviço de qual futuro. É a única soberania que de fato está em jogo nessa história. A pergunta que importa deixa de lado o veredito sobre se um data center é bom ou ruim e passa a ser em qual futuro da cidade ele cabe, e quem decidiu esse futuro.
Ruínas do futuro
Há uma dimensão pouco debatida e que deveria importar quem pensa cidades: a do tempo. Futuro não é previsão; é exploração, prospecção, antecipação, imaginação. Imaginar o futuro desses castelos exige lembrar que eles respondem a um ciclo específico, o da corrida contemporânea pela inteligência artificial. Os equipamentos de computação são renovados em ciclos de poucos anos, muitas vezes mais curtos nos segmentos acelerados pela IA, mas o edifício, a subestação, as linhas de transmissão e a pressão sobre a água permanecem.
Quem fica com a diferença entre a promessa e a operação é o lugar. Fica com a infraestrutura para uma função que talvez não dure em relação ao prazo do financiamento, patrimônio que pode encalhar antes de ter tempo de tornar-se legado e que o vocabulário dos futuros chama de fossilização.
Mas, talvez, o mais complicado seja a troca de vocação a cada nova promessa que aparece. Será que ser uma cidade de Data Centers é uma vocação? Alguns diriam que não é essa a proposta, que a instalação da tecnologia não impacta a vocação do lugar ou a sua identidade, mas será que não impacta? Qual lugar, de vocação e identidades definidas, concordaria com a implantação desse tipo de equipamento? Por outro lado, essa instalação dará espaço ou condições para essa discussão, de identidade e vocação, servindo como um financiador ou facilitador? Aparentemente não.
Um país cuja colonização foi organizada por capitanias deveria saber o que significa delegar território e futuro a um donatário em troca da promessa de pertencer a um mundo que não é exatamente o seu.
Um lugar que não sabe quem é não sabe para onde vai; por isso aceita ir para onde lhe pagam para ir, aceita ser qualquer coisa que lhe paguem para ser, inclusive chão para os castelos dos outros, desde que alguém tenha o cuidado de chamar isso de soberania.
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Ilustração da capa: Edel Rodriguez


