De que lugar estamos criando?

Definitivamente, essa não é uma pergunta trivial.

E certamente, possui muitas camadas.

Um processo de criação pode fluir a partir de vários lugares possíveis: da ambição, da urgência, do medo, da necessidade de controle. Podemos criar a partir da segurança. 

E, também, podemos criar a partir de um lugar de confiança.

Vamos pontuar, desde já, que segurança e confiança não são a mesma coisa. Existem sutilezas entre elas. É exatamente nas fendas encontradas nas sutilezas, o lugar de onde elaboramos as melhores perguntas.

Um lugar de segurança pode ser construído a partir de recursos como dinheiro e poder. É um lugar legítimo. Criações importantes acontecem a partir deste lugar. 

Dinheiro, poder, conhecimento, relações e recursos podem, de fato, criar condições para que a vida aconteça com maior “estabilidade”.

A questão adentra em uma nova camada, exatamente, ao confundirmos recursos com confiança. Penso que segurança é muito mais sobre recursos e muito menos sobre confiança.

Quando a criação se dá a partir de um lugar de segurança, e este lugar sofre algum tipo de oscilação ou ataque, a desestabilização está posta. A segurança é o hardware e a confiança é o software. Quando o hardware dá problema, percebemos o quão frágil pode ser um componente ao qual atribuímos características de total segurança, mas que, ao final, demonstra fragilidade. 

Criar a partir de uma base ancorada na confiança, nos dá maior estabilidade. É como se estivéssemos baixando a mais recente atualização de um sistema operacional. Toda a estrutura que dá sustentabilidade e permite o funcionamento do sistema continua lá, mas está atuando em um estágio de hibernação, enquanto as camadas mais superficiais sofrem as devidas atualizações.

Confiança, conhecimento e descoberta

A segurança me parece volátil. Aliás, ela é volátil.

Carrega fragmentos que estão intrinsecamente ligados e dependentes daquilo que temos, controlamos ou conseguimos preservar. E, por isso, pode também carregar consigo o medo de perder.

Já a confiança opera em uma outra camada, uma camada muito mais sútil.

Ela é fina, refinada, delicada, sem ser frágil.

Sua operação se dá através de processos de ancoragem. E essa ancoragem produz o lugar da confiança, da confiança genuína. Que traz em sua composição poucos e raros elementos. Um, dois ou três, talvez.

Certamente um deles é o conhecimento.

Não o conhecimento ruidoso e entendido como acúmulo ou empilhamento de informações, títulos ou competências. Mas o conhecimento ancestral, aquele que atravessou gerações e deixou marcas na nossa maneira de perceber, fazer e estar no mundo. O conhecimento é a chave que destrava a porta que dá acesso ao compartimento onde está guardado um grande tesouro chamado confiança.

Aliás, será que a confiança é feminina ou masculina?

Existe um outro aspecto que também desperta minha atenção: Há uma diferença importante entre saber para controlar e conhecer para confiar.

O conhecer para confiar nos leva a este lugar de confiança genuína. Um lugar que, curiosamente, não pede o desenvolvimento de nenhuma nova habilidade para que possa ser acessado.

Ele percorre um outro caminho, é uma outra estrada. 

A estrada da descoberta.

E aqui, abrimos uma nova pergunta: E se algumas transformações acontecerem, justamente, quando deixamos de fazer uploads e atualizações constantes, em um sistema ao qual nem sabemos ao certo sua origem? 

Não sabemos de onde e a partir de onde ele está operando. É sobre aprofundarmos em nossa própria natureza, entendermos, exatamente, quais são nossos pontos de ancoragem, aquilo que temos de mais poderoso e que nos torna únicos. Aquilo que nos traz confiança. Em vez de simplesmente sair correndo atrás da próxima “nova habilidade” a ser aprendida ou da nova ferramenta a ser dominada. 

A impressão que tenho é a de que quanto mais atualizações fazemos, mais as camadas se sobrepõem e mais longe do núcleo, ficamos. Ficamos cada vez mais longe de nossa essência.

Talvez a questão não seja mais aquilo que ainda precisamos aprender para nos tornarmos algo ou alguém. E sim sobre aquilo que precisamos reconhecer em nós mesmos para que possamos nos encontrar.

Um lugar onde você se encontra, não me parece ser um lugar de acúmulos. Também não me parece vir acompanhado de ruídos e de aceleração.

É um lugar de energia estabilizada e estabilizadora, ao mesmo tempo.

A confiança como lugar de sustentação

Ao desenvolver este texto, fiz algumas pesquisas e me deparei com uma imagem da cosmopercepção Shuar que me ajudou a aprofundar um pouco mais sobre isso. Nunkui Nua é descrita como um espírito feminino da Terra, relacionado à fertilidade, à agricultura e à abundância. Sua presença está ligada à capacidade de sustentar a vida: cuidar da terra para que ela possa produzir, alimentar e continuar produzindo. Leia o artigo sobre Nunkui Nua e a cosmopercepção Shuar

Não é uma imagem de imobilidade, mas de sustentação.

A terra sustenta a vida, mas não determina cada movimento daquilo que cresce. Ela oferece as condições para que a vida se desenvolva.

Talvez confiança seja algo parecido.

Não digo a ausência de movimento, mas a existência de um lugar suficientemente estável para que o movimento não se transforme em perda de direção.

É a possibilidade de deixar o barco balançar confiando que ele não irá afundar.

Criar a partir de um lugar de confiança

Neste ponto podemos mudar, novamente, a pergunta de direção: O que de fato você procura: por confiança ou por segurança?

A segurança pode oferecer recursos para que possamos chegar ao lugar de confiança.

Por outro lado, a confiança também consegue fazer com que alcancemos um lugar de segurança.

A diferença é que a confiança não estabelece uma relação de dependência com a segurança.

Já a segurança, quando sozinha, opera em um lugar de incerteza e fragilidade. Ela contém em si a volatilidade. Uma ambiguidade, é claro. Uma ambiguidade importante de ser reconhecida, até porque pode também conter o medo. O medo de perder.

Confiança e medo não me parecem melhores amigas. Não me lembro de já tê-las visto andando juntas por aí.

Confiar não é acreditar que nada irá mudar, é  saber que, mesmo quando tudo muda, existe algo em nós que continua sendo capaz de sustentar o movimento.

Talvez seja desse lugar que as coisas mais importantes precisam começar a ser criadas a partir de agora.

De um lugar de confiança, de confiança genuína.

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Ilustração da capa: Brian Rea

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Wellington Porto

Fundador e Diretor Executivo do Brasil Futures Fórum. Estrategista de Inovação e Inteligência Antecipatória. Membro da ALAF - Associação Latina de Futuros. Colunista d´O Futuro das Coisas.

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