Recentemente, assisti a um vídeo de 2009 que apresentava um show da Ivete Sangalo. Na época, quase ninguém ficava gravando. O público estava lá, assistindo e vivendo o momento, de corpo inteiro, com total presença. Uns dias atrás, caí num clipe de 2025, mesmo tipo de evento, mesma energia na música. Mas do palco, o que se via era um mar de telas – a maioria das pessoas gravava de seus celulares. 

Esse contraste é um sinal. Algo mudou e segue em mudança. Sinais assim costumam indicar muito mais do que parecem à primeira vista.

Não estar disponível: um novo marcador social de luxo. 

Ter a possibilidade, mesmo que eventualmente, de estar em modo avião poderá se tornar um dos maiores privilégios nos próximos anos. A possibilidade de simplesmente não estar disponível já começa a configurar algo que nem todo mundo tem, como presença, disciplina e, em muitos casos, dinheiro. A indústria do descanso já percebeu o mercado, e já promete e vende essa possibilidade para quem não está conseguindo mais descansar por conta própria.

Mas enquanto o descanso torna-se um grande mercado, a maioria permanece hiperconectada. Segundo pesquisa realizada pela Opinion Box, em 2025, 97% dos brasileiros acessaram o WhatsApp diariamente, e 61% entraram no aplicativo várias vezes ao dia. O trabalho entra no dormitório, o celular entra nas pausas, e o hábito de checar as notificações toma conta dos momentos em que o silêncio seria bem-vindo.

Lembra a última vez em que você ouviu uma mensagem no 1x?

Essa pergunta é uma observação sobre o que acontece quando o tempo de fala do outro começa a pesar como lentidão. A aceleração deixou de ser uma escolha e tornou-se padrão. Quem fala devagar parece estar desrespeitando o tempo do outro. Quem demora para responder desaparece do feed e do mapa social. O perfil imediatista deixa de ser uma característica individual e torna-se uma peculiaridade coletiva, quase uma exigência estrutural de como nos relacionamos, em múltiplas bolhas e contextos.

Uma nova fadiga, um sinal ainda fraco

Nos anos 1990, o burnout era um sinal fraco. Aparecia nas bordas, em conversas de corredor, em alguns afastamentos que ninguém compreendia direito ou se interessava o suficiente para explicar. Na virada para os anos 2000, com a chegada da tecnologia nas empresas e a cultura do ‘sempre ligado’ ao trabalho, o sinal foi ficando mais forte. Hoje, o burnout é reconhecido pela OMS como fenômeno ocupacional, pauta legislativa, e parte do vocabulário marcante do século XXI.

Há mais de 20 anos reconhecida como um fenômeno, a fadiga digital continua crescendo em ondas. A pandemia da Covid 19 foi um forte acelerador, Foram meses confinados e hiperconectados, expostos a um fluxo sem pausa de informações sobre morte, política, incerteza e entretenimento fragmentado. O algoritmo nos mostrou um mundo amplo e diverso, mas filtrado por critérios que pouco conhecemos, e que não escolhemos conscientemente. E fomos nos acostumando, sem perceber que essa adaptação já era parte do problema.

Esgotados

A fadiga digital atua em pelo menos três camadas, e confundi-las entre si pode ser um dos motivos pelos quais ela continua sendo subestimada.

A primeira camada tem a ver com o funcionamento do próprio algoritmo. O médico e escritor Drauzio Varella tem alertado que as plataformas são projetadas estrategicamente para que o usuário não saia delas. Na interface do usuário, o mecanismo embora simples, é sofisticado na execução e na lógica: quanto mais tempo na plataforma, mais dados são gerados, mais precisa é a entrega de conteúdo e mais investimento em anúncios são direcionados especificamente para você. O Instagram, só nos Estados Unidos, faturou entre 32 e 37 bilhões de dólares no ano de 2025, somente com anúncios pagos e personalizados.

O resultado mais visível desse processo é a dificuldade crescente de sustentar atenção em qualquer coisa que a espera seja necessária. Assistir a um filme sem interrompê-lo, ler sem checar notificações, abrir apenas uma aba ou projeto na tela.

A segunda camada opera de maneira diferente em cada pessoa. Quando o referencial do que é real começa a ficar turvo, a vida normal, com seus ritmos irregulares e seus resultados mais lentos, passa a competir com versões editadas e aceleradas de realidades paralelas, das quais nos sentimos próximos como em uma relação quase-íntima. 

Daí nasce uma sensação de insuficiência: você foi produtivo, mas ficou devendo a leitura; saiu com amigos, mas está atrasado no projeto; dedicou o fim de semana à família, mas negligenciou o desenvolvimento pessoal. A conta nunca fecha, porque o mercado digital precisa que ela nunca feche: “Aprenda a usar o Notion e se organize de uma vez por todas”; “Mude seu corpo em 90 dias”; “Faça cinco mil reais por mês no digital sem aparecer”. A mensagem subjacente é que nossa vida sempre estará insuficiente ou com alguma lacuna, porque a insuficiência ou a lacuna a ser preenchida é o modelo de negócios.

A terceira camada é a que aparece mais tardiamente e é a mais preocupante: o impacto nas nossas relações interpessoais. A paciência com a complexidade do outro vai sendo reduzida. Relações reais são lentas, ambíguas, cheias de ruído, e é justamente essa imperfeição que permite a conexão genuína. Quando o padrão de estímulo vem de plataformas, o padrão do real começa a parecer insuficiente também. E aí o problema deixa de ser individual e torna-se coletivo. A paciência com a complexidade do outro diminui.

O que é comum em todas as comunidades que gestiono

Uma parte significativa do que me levou a escrever esse artigo veio das comunidades que cocrio, gestiono e traço estratégias vivas de conexão.

O vínculo construído ao longo do tempo como gestor cria uma abertura entre as pessoas que vai além do engajamento. Elas chegam com relatos: “Não consigo entrar no encontro hoje, estou muito cansado”; “Estou com dificuldade de focar”; “Não estou conseguindo acompanhar”; “Me sinto atrasado e culpado por não conseguir dar conta”. Estas são falas que, isoladas, parecem um desabafo individual. Mas quando começam a se repetir em perfis diferentes, em comunidades diferentes, em contextos diferentes, deixam de ser exceção e foi isso que me saltou aos olhos. 

Em diversas comunidades que gestiono, seja aqui na área educacional, na psicologia social, em aceleração de startups, com adultos ou jovens, não há nenhum contexto em que a fadiga digital já não apresente seus sinais. 

Junto a esses relatos, emerge algo corrosivo – a sensação de que todo mundo está conseguindo, menos eu. Pessoas dentro de comunidades pensadas para aprendizagem e trocas chegam com a percepção de que estão ficando para trás, não em relação à comunidade em si, mas em relação a uma versão acelerada e editada do que os outros parecem estar vivendo fora do online. A realidade percebida e filtrada não fica do lado de fora da comunidade. Ela entra junto com o membro.

Observo também quedas de engajamento que não ocorrem por falta de interesse no conteúdo ou na comunidade, mas por fatores advindos da fadiga. As pessoas estão presentes, mas com menos capacidade de se relacionar de verdade dentro desses espaços. Chegam esgotadas de tudo que consumiram antes de abrir aquela janela específica. 

Aqui, reside um desafio e uma potência para quem trabalha com comunidades, lidera times, ou se preocupa com esse fenômeno e futuro: operar dentro da mesma lógica das plataformas digitais que esgotam os membros, priorizando velocidade, volume e engajamento como métrica principal, muitas vezes é aprofundar o problema que deveríamos, como profissionais mais conscientes, ser agentes da solução.

Uma reengenharia

Seria fácil encerrar esse artigo propondo comunidade como solução. Mas seria mais um produto a ser vendido para quem já está esgotado de produtos. O que podemos construir com times, grupos e comunidades deve ser algo mais habilidoso: uma reengenharia das condições em que o humano se reconecta com outro humano. E parte dessa reengenharia passa por algo que parece simples mas que está ficando raro – apontar para fora de si.

Uma comunidade digital que ajuda seus membros a encontrar ou criar comunidades presenciais próximas. Devolver o membro para o mundo relacional real, construindo pontes. O tempo offline não precisa ser ‘coisa de retiro espiritualizado’, muito menos elitizado. Pode ser a horta comunitária ou o grupo que se encontra toda quinta.

Mineiro do interior, sei que jogar bingo atrás da igreja é um ritual de saúde social da cidade. Há uma razão para as pessoas aparecerem, um ritmo compartilhado, ruídos comunicacionais e autenticidade nas relações. Esses elementos, aparentemente simples, estão ficando raros e, por isso mesmo, mais preciosos. 

Um dos papéis das comunidades digitais do futuro também será incentivar que seus membros criem comunidades, especialmente onde ainda não existem. Talvez, quem esteja em um lugar sem esse tecido social possa ser exatamente quem começa um.

Profissionais de comunidade, lideranças, psicólogos, comunicadores, têm um papel aqui que vai além. O contexto que nossos membros precisam não é mais um lugar para consumir conteúdo, mas um lugar onde possam, lentamente, reaprender a confiar na complexidade do outro. A higiene digital, entendida como cuidado intencional com a qualidade da presença, passa a ser uma dimensão do próprio valor que uma comunidade, grupo ou time entrega.

O que ainda não sei é se vamos perceber e implementar essa prática antes ou depois do colapso da fadiga. 

Ilustração da capa: Brian Rea

Gustavo Faria

Gustavo Faria é gestor e articulador de comunidades, head de relacionamento no 'O Futuro das Coisas' e na 'PAAPs, e Community Manager da Somos Commu.

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