Meu convite é pra você se imaginar fora do mundo. Como um alienígena curioso que observa nosso planeta azul.

O que você vê? O que está acontecendo?

Há diversas miradas possíveis nessa observação. Diversos ângulos a partir dos quais se pode enxergar, ou melhor: buracos de fechadura.

A realidade total é trancada a sete chaves – só se pode ver o mundo a partir do ato de bisbilhotar.

Vamos bisbilhotar, então, o universo do aprendizado.

Como um extraterrestre observando o campo da aprendizagem humana, eu vejo um fuzuê danado.

Vejo pessoas falando sobre aprendizagem ao longo da vida (lifelong learning). Sobre aprendizado contínuo. Como é importante aprender. E blá blá blá.

Só que esse discurso não penetra nas atitudes dos terráqueos, que estão soterrados por muitas camadas de escolarização forçada e adoecedora.

Muitas camadas de sequestro atencional.

Colonialidade algorítmica.

Exploração disfarçada de progresso.

A crise na aprendizagem é real e estrutural. E, com Inteligências Artificiais cada vez mais sofisticadas, a velocidade de acesso a informações e conteúdos digitais dá um salto na mesma proporção que o aprendizado vivencial e comunitário toma uma rasteira.

Mas vamos bisbilhotar mais no detalhe. Dar um zoom nessa figura.

Nesse universo gravitam organizações: empresas, universidades, escolas e qualquer espaço onde pessoas atuam para que outras pessoas aprendam.

(Às vezes, as primeiras se esquecem de que a aprendizagem humana é tão natural quanto respirar, e por conta desse esquecimento acabam asfixiando os processos de descoberta das últimas – mas isso já é outra história)

Essas organizações estão perdidinhas. A instituição moderna que lhes serviu de molde – a escola – já dava sinais de colapso há mais de um século.

Mas agora a casa caiu.

Informação virou commodity.
Conteúdo virou erva daninha.
Especialistas competem com IA.
Aulas competem com celulares.
Não há mais tempo para aprender.
É tudo pra ontem.
As pessoas estão exaustas.
(E um corpo exausto não aprende)
novidade é a única constante.
E enquanto isso nosso planeta azul
esquenta, explode
perde a cor.

A própria aprendizagem também vai perdendo a cor: nas empresas, a troca e o aprendizado mútuo dão lugar a treinamentos virtuais com taxas de conclusão pífias. Nas escolas, a paixão dos professores esmorece perante sistemas apostilados. Nas universidades, o tesão de propor e debater ideias é aprisionado pelo produtivismo acadêmico.

Não se engane: quanto mais a IA avançar, mais ela tende a fortalecer esses movimentos que, no fundo, espelham a mesma imagem: a instrumentalização do desenvolvimento humano a favor de uma lógica social que de humana não tem nada.

Dando mais um zoom nas organizações que lidam com educação, a gente encontra aqueles e aquelas que tentam navegar nesse mar revolto: os profissionais da aprendizagem.

A vida dessa galera não está fácil. De um lado, não veem outra opção a não ser tolerar salas de aula onde ninguém está realmente ali. Os aprendizes para os quais esses profissionais devotam toda sua dedicação parecem tão mudos quanto seus microfones no Zoom.

O aprendizado – da maneira com que o internalizamos desde cedo a partir do “currículo oculto” da escola – é uma coisa chata, um dever e não um querer, um “mal necessário”. Estabelecida a relação de obrigatoriedade, o encantamento desaparece. É com essas pessoas cuja paixão pelo mundo foi anestesiada que os educadores precisam trabalhar.

É claro que não é culpa delas. Do outro lado dessa equação temos sistemas que cobram dos profissionais toda uma parafernália de dados e relatórios – um esforço de quantificação ad nauseum que termina de apagar o brilho de seus olhos, tornando-os tão opacos quanto os dos aprendizes.

A situação é dramática. Porém, se dermos mais um zoom, veremos algo que nem era para estar ali: um coração que ainda pulsa.

A mente já pode ter ligado o modo cínico, o corpo já quase entregou os pontos, mas lá dentro dos sujeitos que insistem na possibilidade de educar… tem um coração.

E dentro desse coração habita o desejo que fez essas pessoas se conectarem com algo tão abstrato quanto o aprendizado – contribuir para transformar vidas por meio de seus talentos únicos. Essa intenção não foi embora: só ficou esperando.

O problema é que mais do mesmo não resolve. O universo da aprendizagem, como vimos com o auxílio desta luneta textual, está passando um perrengue dos grandes.

Vários movimentos – quase invisíveis a olho nu, mas que nesse gesto de bisbilhotar também aparecem – estão buscando reimaginar as bases dos processos educativos.

Por algum milagre ainda existem pessoas que usam seus corações para contagiar outros corações.

Depois de muitos anos pisando na fronteira entre o novo e o velho na educação, estou propondo um modelo capaz de resgatar o brilho das pessoas ao aprender.

Quando falo desse brilho, estou me referindo ao que desconfio ser o estado natural de todo ser humano ao investigar sua realidade.

A gente nasce com essa curiosidade inata pela vida e vai se acostumando em perdê-la. O mundo torna-se desencantado, estéril, mudo.

Qualquer pessoa pode aprender a aplicar essa abordagem. Profissionais e organizações que lidam com aprendizagem podem utilizá-la para reanimar os corações dos aprendizes e injetar vida em suas ofertas educacionais.

De 15 a 22 de abril nós vamos viver esse novo modelo em uma ação gratuita e online chamada Nibs 0→1. Eu acredito nesse caminho como uma forma de transformar salas de aula em salas de alma.

Sei que esse convite pode parecer presunçoso, mas ele não passa de uma tentativa. E nós precisamos tentar.

Inscreva-se aqui.

E, na dúvida, continue bisbilhotando.

* * *

Artigo de opinião do autor.

Imagem da capa: Audrey Malo

Alex Bretas

Alex Bretas é escritor, pesquisador e palestrante especialista em aprendizagem autodirigida e lifelong learning. Fez um doutorado informal sobre novas formas de aprendizado através de um crowdfunding e é autor de mais de 10 livros. Saiba mais em www.alexbretas.com

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