Muito comum em nossa sociedade hoje, comemorar o nascimento de um novo ano, por conta dos votos de renovação, de renascimento, de um reinício. É um rito de passagem onde novas portas mostram novos caminhos e uma chance de se ter os desejos renovados.

Janus, uma importante divindade da mitologia romana, é tipicamente retratado com duas faces, cada uma olhando em direções opostas e com feições velha e jovem.

Esse ser mítico bifronte olha tanto para o futuro, quanto para o passado, simbolizando seu domínio sobre todos os começos e todos os finais, estabelecendo o ciclo de duração dos ciclos. Por este motivo, em sua representação, é comum vê-lo com uma chave nas mãos.

Janeiro deriva de Jano, deus romano dos começos e transições, com duas faces: uma para o passado e outra para o futuro. (Gravura de 1698, no Museu Britânico)

Usando esta chave, Janus alterna os ciclos pertencentes aos conflitos e os estados opostos dos tempos de guerra e de paz. Tudo nele representa a dualidade, tão bem concretizada em uma porta dupla localizada no Fórum Romano em Roma que conectava o leste com o oeste. Aliás, ele foi por anos e anos considerado o primeiro rei da Itália.

Ao abrir uma porta, esse deus dá início ao novo ciclo, podendo ser o novo ciclo de colheitas ou da passagem da infância para a vida adulta, por exemplo. Aliás, todo o universo das dualidades, inclusive os tempos futuros e passados.

A possibilidade de se ter um novo ano com promessas de vida mais abundante, de um reinício e de um renascimento nos renovam as esperanças em um futuro promissor e fértil comparado a um passado vivido com coisas boas e ruins. É uma chave de reinício dos tempos futuros.

O ano de 2026 já começou com chaves viradas mais pronunciadamente para o caos e para a complexidade. Isso pode significar novos caminhos, mas também muitos novos rumos. Novos rumos significam novos riscos e sabemos todos que os humanos detestam riscos embora sejam experts em cria-los à exaustão.

Se perguntarmos às pessoas quais são os novos rumos que povoam suas cabeças, todas vão dizer que estão esgotadas, sem uma visão clara do futuro. Muitos acham, inclusive, que o futuro é fonte de ansiedade, um apagão de criatividade possível para fazer girar a chave de Janus. E com esse giro, criar uma possibilidade de um novo caminho, que obviamente tem base na grande premissa de que tudo que nasce, morre.

Estamos preparados para fazer morrer o que não tem mais sentido? Ou, em muitos casos, nos voltamos ao passado vivido como uma fonte de saudade dos tempos que sabemos como se pronunciaram, mas cujas premissas não estão mais no comando… uma ilusão no fim.

Vivemos ilusões do passado retrotópico? Temos apagão das utopias para criação de novos futuros possíveis? O conflito está em um desmonte violento de uma depuração geracional daquilo que faz sentido e que não mais faz sentido. O trabalho tomou parte essencial da vida, em detrimento do aprender e do próprio viver. O neoliberalismo como uma necropolítica nos absorve todos a ponto de nos prometer somente o cansaço de um mundo massivo, ultrarrápido e cruel.

Se o próprio conceito de regeneração é a essência do domínio de Janus, por qual motivo nos falta a atitude de usar a chave e dar uma volta plena para uma nova possibilidade que possa antepor o conservadorismo nefasto que a retrotopia promete?

Janus é antes de qualquer coisa o guardião das portas, dos inícios e dos finais. Claro que a chave também é usada para destravamento de portas muitas vezes fascistas, destrutivas, de uma tentativa de fazer do mundo um território dos populistas que amam o passado cruel.

Toda porta que se abre um dia se fecha, pode demorar algum tempo, mas todas as que foram abertas um dia se fecham. Isto é um ato completamente automático? Não, podemos fazer girar a chave de Janus no sentido de acelerar o fechamento das portas que não privilegiam o bem-estar, o bem viver, a convivência e a grande colaboração.

Utopias? Possivelmente sim, mas se não conseguirmos girar a chave, alguém o fará por nós. Isso então requer protagonismo, visão de futuro, busca de novos caminhos e de novos riscos… é um bom exercício correr estes riscos.

Janeiro está no fim já, mas ainda o temos no nosso domínio. Ainda temos as possibilidades de uma comemoração e outra. Os fogos ainda anunciam essa girada de chave e ainda temos os champanhes comemorando Janus, só falta girar a chave e promover um novo portal. Estaria você disposta e disposto a um novo caminho?

Ilustração da capa: Arnaerr

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Carlos Piazza

Futurista Estratégico Regenerativo Certificado pelo Millenium Project. Darwinista Digital, Professor, Palestrante nacional e internacional, autor, conteudista e articulista. TEDx Talker.

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