Durante anos, repeti palavras que não me pertenciam: place branding, placemaking, strategic foresight. Elas soavam precisas, técnicas, globalmente corretas, mas carregavam um sotaque que não era o meu. Até o dia em que li, em um slide de minha própria autoria, um título todo rebuscado, em inglês, claro, e percebi os rostos irônicos à minha volta. Foi um instante quase epifânico: eu falava uma língua que não dizia nada a ninguém.

Esse incômodo cresceu e comecei a notar o quanto nossa atuação, e nossa imaginação, estavam colonizadas. Somos treinados para admirar filósofos franceses, urbanistas dinamarqueses, futuristas norte-americanos, como se o pensamento legítimo viesse sempre de um norte geográfico e epistêmico. O “importado” costuma ser tratado como verdade; o “local”, como improviso. E o Brasil segue adestrado para acreditar que o que vem de fora é melhor, e o mais perverso é que o Hemisfério Norte acredita nisso também, por motivos mais do que óbvios.

Foi nesse mal-estar que encontrei Nêgo Bispo. “É preciso adestrar a língua do colonizador”, escreve ele em “A Terra Dá, A Terra Quer”. Adestrar, não rejeitar; aprender a falar de volta; criar fissuras no verbo; reprogramar a gramática que nos formata. Quando percebi o peso dessa frase, entendi que não era apenas sobre linguagem, era sobre o modo como pensamos os lugares, os tempos e os futuros.

Passei a desconfiar de todo o léxico herdado. Place branding transforma o lugar em produto. Placemaking parte do fazer de quem pode fazer. Foresight trata o futuro como linha de chegada. Sempre acreditei que os lugares não eram feitos, mas revelados, que o futuro é tanto projeto quanto disputa. Que verbos usaríamos, se falássemos com a nossa própria língua?

Enquanto continuarmos nomeando o mundo com as palavras dos outros, seguimos pensando com epistemologias que não nos explicam, apenas nos reproduzem. A língua coloniza tanto quanto o poderio militar, e a decolonização começa pelo verbo para influenciar a atitude.

Essa virada, simbólica e prática, me levou à Cidade do Cabo, em outubro de 2025, para a conferência da World Futures Studies Federation. Confesso: conferências acadêmicas nunca foram o meu habitat. Mas aquele encontro prometia algo diferente. Em um fórum de futuristas no Hemisfério Sul, o assunto decolonização seria inevitável. Parecia o lugar certo para testar se o incômodo que me movia era apenas pessoal ou parte de uma virada maior.

Ali, ouvi que “o foresight tradicional é dominante e colonizador” e que “é preciso decolonizar o futuro”. Percebi que a mesma inquietação que me fez abandonar o inglês corporativo para buscar uma língua e uma abordagem nossa, também atravessava outras margens do mundo.

Cidade do Cabo, 2025 (foto: Caio Esteves)

Sul Global, termo que já foi sinônimo de atraso, começa a se reconhecer como bússola: na Cidade do Cabo, ouvimos palavras que não têm tradução literal no Norte, como Ubuntu (“eu sou porque nós somos”, na filosofia Nguni/Zulu); Ukama (“a interdependência de tudo que existe”, entre os Shona do Zimbábue); Hlakanipha (“sabedoria contextual socialmente responsável”, entre os Zulu). São conceitos que deslocam o foco do indivíduo para a relação, do dado para o vínculo, da eficiência para o cuidado.

Futuros sociais e relacionais

Cosmovisões não são curiosidades culturais, mas tecnologias sociais. No Brasil, quando uma feira em Belém, um terreiro em Salvador ou um mutirão em Paraisópolis criam redes de solidariedade, isso é Ukama em ação; quando uma comunidade compartilha sombra, vento e água, isso é Ubuntu; e quando decide com prudência e ética coletiva, isso é Hlakanipha. Os futuros não serão tecnocráticos, mas relacionais. O antropólogo John Mbiti resumiu: “I am because we are” (Eu sou porque nós somos). Isso me parece muito mais próximo do que quase tudo que ouvi e li nesse meu mais de meio século de vida. Ainda não é nosso, claro, mas é próximo, e uma fagulha de inspiração que nos deve impulsionar na busca pelo nosso próprio léxico e abordagem.

Ali, também ouvi falar do Witiko, criatura das cosmologias algonquianas como metáfora da “doença espiritual do colonialismo”, a fome infinita de quem devora o outro e a si mesmo. O Norte, obcecado por progresso e extração, padece dessa síndrome e exorcizá-la é o gesto contracolonial que precisamos aprender.

O Sul, ao contrário, sobreviveu à escassez transformando compartilhamento em inteligência. Nossos quilombos, quebradas e sertões são verdadeiros laboratórios de antifragilidade, por pura necessidade, necessidade essa que nos formou enquanto nação, inclusive. O dia a dia das periferias globais sempre soube o que a teoria acadêmica parece só agora descobrir: o futuro não é só invenção, é também continuidade.

A circularidade do tempo, passado, presente e futuro coexistindo, ecoa o símbolo Akan do Sankofa, o pássaro que caminha para frente olhando para trás e carregando o ovo do que virá. No continente africano, o futuro é ancestral.

Cidade do Cabo, 2025 (foto: Caio Esteves)

Cidades à prova de futuro não são as que automatizam tudo, mas as que respiram com o planeta, que entendem seu protagonismo. Que reconhecem sombra, vento, água e permeabilidade como infraestrutura vital. Que planejam com empatia. Que entendem os passados como parte do movimento.

Voltei da África do Sul com a sensação de que o Sul não é coordenada, mas cosmovisão; modo de imaginar e de sentir. É olhar o mundo de baixo para cima e descobrir que dali a vista é mais ampla. Ser do Sul é recusar o modelo único de cidade ideal e entender que as cidades do futuro não serão uma, serão muitas. E que essas muitas, precisam compreender seus passados, seus modos e tempos. O desafio passa por aprender a nomeá-las com as palavras certas. A decolonização não será completa enquanto chamarmos nossos lugares com o vocabulário dos outros. Precisamos de uma língua própria, híbrida, macunaímica, generosa, que saiba dizer o que sentimos e que crie palavras como quem cria mundos.

Cidade do Cabo, 2025 (foto: Caio Esteves)

Decolonizar futuros é isso: não aceitar a neutralidade do verbo; é falar com o nosso sotaque, desde os nossos lugares, com a nossa gramática de afetos; é construir um futurismo tropical, múltiplo, mestiço, que não tema a poesia. Dá um trabalho danado e é incrivelmente, vejam só, contraintuitivo, embora nunca tenha sido tão necessário.

Assim como ser à prova de futuros não é blindar-se à eles, evitando a todo custo que a transformação nos alcance, decolonizar também não significa extirpar o outro da convivência, não se trata de um movimento nacionalista extremista maluco. Trata-se, isso sim, de um exercício contínuo de questionamento, de aceitação, de fortalecimento.

O futuro que interessa é aquele que permite que outros futuros floresçam. E talvez o próximo passo da inteligência urbana seja o de reaprender a caminhar com humildade, com cuidado e com a leveza de quem sabe que o futuro, no fundo, nunca foi um horizonte distante, mas está aqui, no jeito como o Sul decide imaginar o amanhã.

Foto da capa: Caio Esteves

Caio Esteves

Caio Esteves é sócio diretor na N/Lugares Futuros. Autor de "Cidade Antifrágil", "Place Branding" e "Lugares Futuros". Expert em place branding, placemaking e futuro das cidades.

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