Décadas atrás, o termo revitalização era o mantra do planejamento urbano. Ainda estudante, no século passado, não se falava de outra coisa, principalmente quando nos referíamos aos centros urbanos. Na América do Sul, estes centros “envelheceram” de uma forma bem diferente do que aconteceu com seus pares europeus, por exemplo. Remover pichações, cuidar das ruas e calçadas, criar um centro cultural aqui e um café acolá, na esperança de “trazer a vida de volta” ao lugar. O verbo parte de uma imagem equivocada — a cidade como paciente sem vida.

Mas lugares não morrem (ok, uma UTI até pode rolar); eles mudam de status. O que antes era aristocrático hoje, pode ser ocupado por pessoas sem teto. Esse, inclusive, foi o tema de uma discussão recente com as amigas curitibanas Rafa e Vanessa, do Mãos Invisíveis, projeto sensacional de apoio a pessoas em situação de rua. Elas lembravam a todo instante que o centro (de Curitiba no caso) não está morto, só está povoado por uma comunidade que, a cidade como um todo, talvez não enxergue ou não queira enxergar. Uma ideia que, como um orgulhoso morador do Centro de São Paulo, nos uniu instantaneamente em meio a discussão sobre cidades inteligentes.

Ao tratar as cidades como cadáveres, naturalizamos intervenções circunscritas que empurram conflitos para o quarteirão seguinte. Talvez, na esperança, higienista, de limpeza estética, com (algumas vezes) fachadas impecáveis, aluguéis inflacionados, e nenhum ganho social.

Requalificação: consertar o hardware

Se a revitalização foi superada conceitualmente, requalificação ainda cumpre um papel claro — o de recalibrar o hardware urbano. Isso significa melhorar calçadas, jardins e praças, mobiliário eficiente, acessibilidade universal. É uma espécie de modo “ganho rápido” do Placemaking Estratégico: intervenções relativamente rápidas que atuam tanto sobre as dimensões físicas, quanto perceptivas, gerando evidências materiais de que algo está mudando.

Não entendo a requalificação como a solução, mas a forma pela qual o lugar abrirá espaço para que a vida, que já existe, se organize naquele lugar. Se lembrarmos que esse processo deve ser feito de forma cocriativa com a comunidade e stakeholders locais, é fácil concluirmos que, essa requalificação não deixa de ser uma resposta aos anseios e desejos dos usuários. Anseios e desejos ora esquecidos pelos planejadores e gestores, ora modificados pelo contexto ou pela adoção de novos comportamentos. Nesse sentido, Requalificar = Retomar.

Regeneração: hardware + software + futuros

O paradigma atual (e também a palavra usada para embalar quase tudo) é a regeneração. Fiz um exercício para lembrar quando ouvi pela primeira vez o termo. Ouvi muito antes da minha incursão pelo futurismo estratégico aplicado aos lugares, e acho que foi da minha amiga Giovana Ulian, anos atrás. Num primeiro momento, por desconhecimento meu, o termo relacionava estritamente à questão ambiental, como se isso, por si só, não fosse suficientemente relevante.

Regenerar não é só consertar, mas retroalimentar um ecossistema em que infraestrutura (hardware) e cultura-economia-natureza (software) criam, juntas, ciclos positivos. Uma cidade regenerativa melhora depois de cada estresse, uma ideia-chave que ecoa diretamente com a minha Cidade Antifrágil: choques climáticos, demográficos ou tecnológicos viram matéria-prima de inovação e evolução.

No framework que uso: Regenerar = Hardware + Software × Futuros

A multiplicação é literal: se o componente dos futuros vale zero, isto é, se não há cenários, indicadores e loops de aprendizado, o produto retorna à zero, e o lugar volta à estaca da obsolescência, ou, na melhor hipótese, à estagnação.

A São Paulo “oca” como alerta

O artigo da Folha de S.Paulo sobre o perigo de a capital virar uma cidade oca ilustra o que pode acontecer quando se confunde regeneração com mero requalificar orientado pelo mercado. Há anos critico a quantidade irreal de novos lançamentos imobiliários, especialmente no centro de São Paulo. Eu, por exemplo, os acompanho de perto pelo simples fato de estar “ensanduichado” por dois desses empreendimentos. Provavelmente, o centro paulista tem mais obras do que Dubai, ou pelo menos é essa a impressão.

Sempre me perguntei onde está a horda de pessoas que sonha em se mudar para o “centrão” comprando apartamentos de mais de R$10.000,00 o metro quadrado. Talvez a lógica seja exclusivamente voltada para investimentos, imaginando que exista demanda suficiente para locação de curta permanência, o que, convenhamos, é um cenário um tanto frágil. Isso se lembrarmos que grandes cidades ao redor do mundo vêm adotando enquanto política: a proibição ou regulamentação mais dura sobre esse tipo de uso temporário. Dá para imaginar um cenário pior que o atual, mas com um hardware reluzente e limpinho (a princípio).

Explorar em vez de projetar

Regenerar é pensar de forma complexa/ rizomática (para variar), sobrepondo diversas camadas e abordando diferentes frentes e desdobramentos. É requalificar o hardware (quando preciso) sem esquecer o mais importante, o software. E, claro, a vocação dos lugares, que passa necessariamente pelo peopleware, ou seja, as pessoas, grupos, comunidades que dão significado ao lugar através de suas culturas e identidades.

Se só isso não fosse solenemente ignorado, na enorme maioria das vezes, é preciso ir além, muito além, e explorar potenciais futuros. Prefiro explorar, uma vez que “projetar” sempre me soa como resultado do futuro projetado, aquele que aborda o “business as usual”. Os seja, ao imaginar que absolutamente nada de diferente do que acontece hoje ocorrerá. Ou, pior ainda, me remete à tentativa de colonizar futuros, não sei qual dessas comparações eu acho pior.

Aluguéis de curta duração serão viáveis até quando? Prédios de escritórios serão uma necessidade até quando? Continuaremos desejando pagar caro para morar perto da “infraestrutura” de transportes frente a um mundo progressivamente desterritorializado? Essas são apenas algumas poucas (e óbvias) questões que precisam ser endereçadas e exploradas.

Quando a palavra “regenerar” vira marketing

A popularidade do termo seduz o marketing urbano: basta somar “regenerativo” ao release de imprensa para vender rooftops e lounges embalados por um jardinzinho vertical. Mas claro, a regeneração de fachada é tão limitada (para não dizer inútil) quanto a velha revitalização. Como separar discurso de prática?

O futuro é intrinsecamente regenerativo

É importante entendermos que a própria noção de futuro mudou: de linha reta de progresso para ciclo contínuo de regeneração, de seta de direção para o rizoma. Economia, meio ambiente, planejamento urbano, entre tantos outros segmentos, convergem para o mesmo verbo: reparar, nutrir, repensar, regenerar

Mas como fazer isso?

Claro que a ideia, como sempre, não é dar uma receita de bolo, até porque, realidades diferentes e contextos diferentes precisam de soluções diferentes e, particularmente, não acredito em soluções “tamanho único”. Mas deixo um roteiro bem embrionário, com o que entendo serem as principais seis macroetapas do processo, para ajudar na organização de uma abordagem urbana regenerativa orientada pelos futuros.

1- Engajar a comunidade: Envolver comunidade e stakeholders na tomada de decisão, fortalecer governança local, visão compartilhada, autenticidade e legitimidade.

2- Explorar futuros possíveis: futurismo estratégico para antever riscos e testar oportunidades

3- Requalificar o hardware: Criar o palco urbano- físico, alinhado às necessidades e desejos da comunidade e aos objetivos estratégicos.

4- Ativar o software: usos mistos, economia local, cultura, participação e pertencimento. Alguns podem estranhar a ordem, onde o software aparece depois do hardware, mas é sempre preciso lembrar que a requalificação do hardware é resultado da compreensão daquilo que acontece no lugar. Logo, o próprio software é explorado e compreendido na etapa 1, para então ser reforçado e expandido nessa etapa 4.

5- Regenerar com sistemas adaptativos: dados abertos, metas ambientais claras, soluções baseadas na natureza, dinamismo, adaptabilidade e antifragilidade.

6- Acompanhamento contínuo: abordagem complexa/ rizomática permanente para compreensão das mudanças e incertezas, comitê de futuros.

    Semântica que molda política

    Palavras importam. Elas viram cultura, orçamento, política.

    Revitalizar carrega uma visão ultrapassada da analogia da cidade com o corpo humano (artérias, veias…) na sua pior forma, a de um corpo morto que precisa ser ressuscitado; requalificar alinha o hardware, mas sem necessariamente levar em conta o software ou, pior ainda, pode ignorar o peopleware; regenerar integra hardware, software + peopleware e futuros, em uma visão sistêmica, complexa e antifrágil.

    Ao adotarmos a regeneração como paradigma, é preciso fugir do marketing rasteiro, do puro anseio por likes e da expectativa adolescente dos milhares de compartilhamentos. É preciso atenção naquilo que realmente importa: estabelecer métricas de aprendizagem, governança distribuída, transparência radical e reavaliação contínua.

    Penso que assim, conseguiremos de fato impactar positivamente a vida das pessoas. E alcançaremos aquilo que entendo como o único propósito das cidades: a transformação das pessoas que se relacionam com elas. Ao mesmo tempo, evitamos que torres reluzentes e vazias (de pessoas e de significado), de amanhã se tornem esqueletos urbanos de cidades distópicas de depois de amanhã.

    Ilustração da capa: Lars Leetaru

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    Caio Esteves

    Caio Esteves é sócio diretor na N/Lugares Futuros. Autor de "Cidade Antifrágil", "Place Branding" e "Lugares Futuros". Expert em place branding, placemaking e futuro das cidades.

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