Sabe o poder das histórias no processo regenerativo?

Somos feitas de histórias — as que contamos e as que nos contam, as vividas e as inventadas que apreciamos pelas artes, como a literatura. Elas são matéria-prima da vida e componentes essenciais do processo regenerativo que desejamos, e, por meio delas, desenvolvemos repertório e encontramos inspiração e sentido para fins, começos e recomeços nas relações interpessoais. Para Robert McKee, uma inspiração em estudos sobre narrativas, elas são meios de expressão humana, essenciais para a formação de identidades.

Histórias não apenas descrevem a experiência temporal, mas a constituem, organizando nossa compreensão do passado e nos permitindo construir identidades coletivas orientadas para o futuro. Ou seja, narrar é dar contornos aos mundos possíveis. As palavras servem para reafirmar as histórias que resistem, se adaptam e que nos convocam a transformar a realidade.

Boas narrativas pavimentam nossas trilhas conscientes, finitas e abertas aos recomeços, sendo abrigos para as múltiplas verdades implícitas nas nossas relações interpessoais. A evolução humana não acontece sem o tecido da natureza que é memória, presença e desejo (passado, presente e futuro). As histórias que contamos ressignificam o passado e preparam o futuro, como moinhos que ventam esperanças.

Este artigo pretende trazer a inquietação sobre narrativas que nos desafiam a pensar, sentir e agir por futuros saudáveis, com justeza nas relações sociais e profissionais. É também um manifesto por mudanças que tantas vezes clamamos, mas que permanecem inativas. Se a história é nossa, somos responsáveis por ela e não meras convidadas. Fazer história é também contá-la com propriedade.

Regenerar e transgredir

Em meio aos desafios contemporâneos, a luta pela sustentabilidade ambiental, econômica e social, que frequentemente se limita à mitigação de danos, já não é suficiente. Precisamos de medidas regenerativas, como propõe Daniel Wahl (2017), autor que reúne magistralmente a teoria sistêmica, a prática regenerativa e a comunicação transformativa, para integrar humanos e ecossistemas. Tais medidas nos ajudam a avançar além do paradigma da sustentabilidade para gerar recursos que regeneram ativamente os ecossistemas naturais e sociais.

Regenerar é mais do que preservar: é transformar, revigorar. A sustentabilidade mantém, mas é a regeneração que vitaliza as histórias, pois exige escuta, presença e linguagem viva, capaz de transgredir o discurso. Isso permite que as histórias sejam sentidas, não apenas ditas.

Uma breve crítica às narrativas dominantes

Histórias podem ser distorcidas, apagadas, reduzidas e romantizadas, com versões oficiais a serviço de interesses dominantes, ao custo do silêncio das vozes contrárias. Mentiras históricas se perpetuam ao longo das gerações, impedindo a construção de futuros regenerativos a partir de múltiplas epistemologias e visões de mundo. Narrativas colonizadoras, através de distorções sistemáticas e de processos de dominação, usurpam conquistas e saberes de povos originários, reduzindo civilizações complexas a estereótipos simplificados.

Portanto, o pensamento decolonial torna-se essencial para desvelar essas manobras narrativas e recuperar histórias suprimidas, reconhecendo que a verdadeira regeneração social e ambiental depende da restauração da dignidade epistêmica de todos os povos. 

Contudo, num mundo moldado pelo individualismo e pelo capitalismo, distanciamo-nos do propósito regenerativo que um dia foi enunciado: cuidar do planeta e umas das outras. Vivemos guerras, preconceitos, consumo desmedido, violências e polarizações. Ainda assim, insistimos que agimos com boas intenções por um ideal humano. Mas será mesmo?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2015) denuncia como as narrativas neoliberais de autoaperfeiçoamento nos conduzem à exaustão psíquica e ao esgotamento planetário. Han é contundente em sua análise na obra “A Sociedade do Cansaço” descrevendo mecanismos sutis de controle e exploração, como a ideia ilusória de que é possível ser “CEO da própria vida” enquanto se massifica a performance e a produtividade, constantes e intangíveis.  

É como se repetíssemos histórias já gastas, destituídas do significado que desejamos. As antigas narrativas — da separação entre corpo e mente, humano e natureza, razão e emoção — não nos servem mais. Fundamentadas na modernidade ocidental, elas mostram-se incapazes de orientar nossos caminhos em meio às crises sistêmicas interconectadas. 

É necessário refletir sobre como sair desse lugar de espectadoras da vida, como se as nossas histórias fossem contos de outras autoras.  

Sem retóricas, precisamos assumir nossas histórias

Sim, precisamos de narrativas que renovem nosso sentido de responsabilidade e de pertencimento. Como sugere o colombiano Arturo Escobar (2018), referência em estudos sobre decolonialismo, os sistemas, objetos e narrativas que projetamos moldam, por sua vez, nosso modo de estar no mundo. Se quisermos outro mundo, precisamos imaginar outras histórias.

Esta perspectiva é fundamental para compreender a necessidade de narrativas regenerativas porque reconhece que não basta criticar as existentes, mas cultivar ativamente outras formas de contar histórias, que abrem espaço para modos de vida baseados na interdependência, reciprocidade e cuidado com a teia da vida

A escritora Chimamanda Ngozi Adichie, em sua palestra no TED, corrobora com essa ideia, alertando para os perigos de enxergar a vida por uma única história. “O problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que são incompletos”, afirma. Por sua fala, capta-se os indícios de que a pluralidade é o que expande nossa visão de mundo. Enquanto, reducionismos e maniqueísmos geram injustiças

Neste sentido, evidencia-se a intersecção entre o poder das histórias e a saúde social, que sucintamente refere-se à qualidade das conexões e interações humanas como constitutivas do bem-estar individual e coletivo.

Narrativas e saúde social

Se as narrativas moldam os relacionamentos e interferem na forma como são construídas as identidades coletivas, por óbvio, podemos concluir que a saúde social demanda o aprendizado da escuta,  curiosa e interessada, que já é uma prática narrativa em si mesma e provoca múltiplas possibilidades e movimentos para as transformações sociais.

Isto é, a escuta não é passiva, é criativa, participativa e colaborativa. Ela é uma tecnologia narrativa fundamental para a saúde social por contribuir para que a trama das histórias compartilhadas criem pertencimento, gerem empatia e compreensão mútua, e estabeleçam bases comuns para sonhar, para curar, para celebrar ou para construir futuros. Deste modo, entende-se que as narrativas regenerativas não apenas falam sobre regeneração: elas mesmas regeneram, pois transformam a percepção e, com ela, a ação.

Portanto, não se trata apenas de contar novas histórias, mas de revigorar as estruturas narrativas pelas quais existimos, e assim, deixar de ver o humano como entidade separada da natureza — como um salvador externo. 

Endossando o pensamento decolonial de Escobar, é nosso direito e é nosso dever reimaginar nossa existência como expressão integrada à vida planetária. Isto nos serve também como condição para projetos sobre futuros do trabalho.

Cidadãs do mundo em regeneração

Parte essencial do processo regenerativo é superar a falsa dicotomia entre cuidar do planeta e cuidar das pessoas. A emergência climática e a crise social nos mostram que essas dimensões são inseparáveis: o bem-estar humano e a saúde planetária são fenômenos interdependentes. Assim como um ecossistema florestal prospera por meio da interdependência de seus elementos, as comunidades humanas se potencializam quando reconhecem sua relação de reciprocidade com os sistemas vivos que as sustentam. Cuidar do mundo é cuidar de nós mesmas.

Regenerar-se é também um processo de reconexão, que apazigua o desespero de se sentir à margem e o reverte em ações construtivas afloradas pelo sentimento de unidade entre os sistemas vivos, como refere Joanna Macy (2014), que com seu trabalho vem provocando verdadeira revolução nas discussões sobre a relação dos humanos com o mundo e fazendo das narrativas poderosas ferramentas de transformação social.

A abordagem do Transition Design, de Terry Irwin, naturaliza o design como facilitador de transições sociais e destaca o papel das narrativas na reconexão entre humanos e natureza, para nos lembrar que nós existimos a partir das relações que estabelecemos. Essa consciência pode inspirar narrativas que dissolvem as fronteiras artificiais entre o humano e o não-humano.

Estou falando sobre novos modos de viver e sobre a urgência dessa escolha que transcende a preservação e a sobrevivência, que evoca a profundidade  de estar no mundo e de promover as mudanças e as melhorias necessárias.

O tempo regenerativo deve ser marcado pela qualidade das nossas relações

É chegada a hora de colocar luz sobre as relações interpessoais e acolher as vulnerabilidades que fazem parte do ser individual. Para curar, transformar e cuidar, é preciso reconhecer que esse processo começa (e termina) no espaço entre nós, pessoas. Seja na família, no trabalho ou onde a convivência saudável seja vista como um valor inerente à comunicação e aos vínculos sociais e afetivos. Ou seja, as narrativas regenerativas não dizem respeito apenas ao planeta, aos sistemas ou às culturas, mas são despertadas nas relações que cultivamos no cotidiano: no modo como escutamos, observamos, reconhecemos, apoiamos, nos manifestamos e nos deixamos tocar pelo outro. É nesse entrelaçamento de afetos que a saúde social se fortalece. 

Relações saudáveis regeneram mundos interiores e, por consequência, tornam possível a construção de mundos coletivos mais íntegros e sustentáveis. Regenerar o planeta, afinal, é também regenerar a qualidade do nosso estar juntos — e talvez não exista futuro viável sem conexão genuína entre nós.

Para finalizar, apresento meu depoimento como autora deste artigo, escrito intencionalmente com o uso do gênero feminino como genérico — um exercício prático das narrativas regenerativas que defendo. Esta escolha linguística demandou enorme esforço e atenção constante, pois fui formada, como a grande maioria, pela gramática tradicional onde o masculino funciona como suposto universal. Inspirei-me no texto de Sandra Guimarães, que articula com precisão:

“É sobre achar importante passar por uma etapa onde escolho conscientemente usar o feminino como plural e como não específico para tirar da zona de conforto aquela metade da humanidade que foi ensinada a se ver como representação do neutro.”

Este exercício revelou-se muito mais do que uma questão gramatical: a descolonização da linguagem e do pensamento. A cada frase, precisei conscientemente desconstruir automatismos linguísticos arraigados, experimentando a dificuldade de imaginar e narrar outras possibilidades. O desconforto inicial ao usar o feminino como genérico espelha exatamente o estranhamento necessário para questionar estruturas que naturalizamos como neutras ou universais. Isto incide na proposição de que, se queremos outros mundos, precisamos imaginar outras histórias, começando pela linguagem que utilizamos para contá-las. 

Referências Bibliográficas

Adichie, C. N. O perigo de uma história única. TED Talk. Link: TED Talks. 2009. https://www.ted.com/talks/chimamanda_ngozi_adichie_the_danger_of_a_single_story

Escobar, A. Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Durham and London: Duke University Press, 2018.

Guimarães, S. E se na gramática o genérico fosse feminino? Blog Papa Capim, 2021. http://www.papacapim.org/2021/02/12/e-se-na-gramatica-o-generico-fosse-feminino/

Han, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

Haraway, DJ.  Staying with the trouble . Duke University Press, 2016.

Irwin, T. Transition Design: A Proposal for a New Area of Design Practice, Study and Research. Design and Culture, 7(2), 229-246, 2015. https://doi.org/10.1080/17547075.2015.1051829

Macy, Joanna. O Trabalho que Reconecta: meditações para uma vida de cuidado com a terra. São Paulo: Madras, 2017.

McKee, R. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Curitiba: Arte e Letra, 2006.

Wahl, DC. Sustentability is not enough, we need regenerative cultures. Medium, 2020.

Imagem da capa: Kelvin Han em Unsplash

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Daniela Cais

Daniela Cais é Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker e palestrante. Mestre em Fonoaudiologia – ênfase em Comunicação Profissional pela PUC de São Paulo. Fundadora da Consultoria Daniela Cais Comunicação Interpessoal levando a abrangência da Competência Comunicativa para diversas áreas.

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