Há palavras que retornam quando o mundo se aproxima de seus limites. Palavras que emergem como oração, semente ou memória daquilo que esquecemos.
Regenerar é uma delas.
Há pouco tempo visitei uma fazenda de café, no interior de São Paulo. Lembro, como se fosse hoje, das palavras que vieram do dono da fazenda ao mostrar, orgulhoso, sua extensa plantação de café:
“Está vendo tudo isso aqui? A beleza desses pés de café? É só sentir… A terra não mente, ela responde ao que damos.”
Naquele momento, me veio a percepção de que falar em regeneração seria, antes de tudo, reconhecer que é possível haver acordos vivos entre práticas, saberes e lugares. Que não se tratava de um um convite ao ‘ver’ e sim um chamado ao ‘sentir’.
Regenerar não é voltar ao que era antes
Regenerar não é restaurar uma forma antiga, muito menos consertar uma rachadura. É sobre gerar de novo, permitir que algo brote onde há cansaço, erosão ou excesso. É aprender a escutar o sussurro do tempo: do tempo da terra, da água, do corpo e de todas as relações que sustentam a vida.
“A regeneração envolve convergência, que pode ocorrer por meio de fusões, hibridizações ou simplesmente coexistências. O argumento central é que, por meio de um processo dialético, a regeneração é um pré-requisito para a emergência de uma sustentabilidade profunda e para o bem-estar planetário.” — Fábio Scarano, no Livro Diálogos regenerativos para futuros sustentáveis 2025
No centro do chamado à ação — da insurgência, do ecoar de um chamado por um “liderar regenerativo”, mora uma questão simples e profunda:
Como cuidar do que nos cuida?
O cuidar, aqui, não é uma mera metáfora; é prática diária que pede sensibilidade, disciplina e coragem para transformar estruturas e romper com acordos que já não servem mais. Não servem mais a nós e não servem mais a todo o tipo de vida que habita o nosso “planeta casa”.
O chamado à liderar com uma mentalidade regenerativa, é um chamado de “travessia” ancorada em princípios regenerativos. Não se trata de um chamado para ocupar o centro ou sentar-se ao trono. É um chamado para uma liderança que abre um ponto de passagem, que guia uma travessia — que deixa aflorar habilidades em tecer conexões, desobstruir fluxos e, principalmente, que seja capaz de criar condições para que outros brotem e façam brotar.
Isso pede humildade, delicadeza na condução e honra nos compromissos.
Neste fluxo, o processo de transformação é constante e circular, é como remover camadas de uma cebola até alcançar o núcleo. E a partir deste núcleo, compreender que mesmo que outras camadas voltem a se formar, elas não serão idênticas às outras que foram removidas. O brotar deste novo liderar, ao qual estou nomeando liderar regenerativo, exige repertório poderoso em profundidade, amplitude e em compromissos. E a base de cultivo para fazê-lo crescer e florescer está na simplicidade e na fluidez.
Pede conhecimento sobre ecologias materiais (solo, água, clima) e também sobre ecologias sociais (culturas, saberes locais, economia do cuidado).
Pede habituar-se ao pensamento sistêmico: Olhar e enxergar causas em redes interconectadas, não em eventos isolados. É sobre escolher não entrar no “aceleramento”, dar um passo para trás e observar o que emerge. Seus funcionamentos, causas, efeitos e nuances.
Pede, sobretudo, lucidez
Uma lucidez que seja capaz de traduzir o que emerge em políticas, práticas e rituais que sustentem a vida — dentro e fora das organizações, das instituições e da sociedade como um todo. Sociedade essa já impactada por um mundo cada vez mais moldado por inteligências artificiais.
A IA que amplifica a capacidade de processamento, predição, mapeamento de padrões e otimização logística, mas que, por si só, desconhece o conceito de “contexto com intimidade”; que não sabe escutar o tempo e também não é capaz de perceber, no entoar de uma voz, o agradecimento, sem que este agradecimento tenha sido feito de forma explícita; que não capta a sutileza do cuidado, de um carinho que é transmitido, de forma simultânea, em um fechar de olhos e um sorriso de canto de boca; que não tem volume, profundidade, buracos e imperfeições.
No liderar regenerativo, o caminho é mais consciente, o Sensemaking é profundo e o repertório é construído saltando de um assunto a outro, sem a necessidade de encontrar ganchos ou conexões que o validem de forma racional. O inconsciente ginga o consciente. E no momento em que a percepção vem à tona, o emergir do novo, regenerativo, já se fez presente.
Regenerar como um gesto político e prático.
Liderar com mentalidade regenerativa significa rescindir contratos sociais desgastados, regenerar cadeias de valor que já não geram valor para todos de forma igualitária e equilibrada. Regenerar regras e métricas que servem a um modelo de crescimento infinito, em um mundo onde a vida e os recursos são finitos. Abandonar as lentes do crescimento e substituí-las por lentes de abundância.
Regenerar indicadores que escutem o VIVO: não apenas toneladas de carbono evitadas, mas também percepções de saúde do solo, segurança alimentar sentida pelas famílias e redes de cuidado que se mantêm ao longo do tempo.
Praticar a governança como processo respiratório — aberto, iterativo, capaz de corrigir rumos quando necessário.
Na prática, isso passa por reescrever cláusulas contratuais que redistribuam valor. Que remunerem por serviços ecossistêmicos e que disponham de cláusulas e instrumentos financeiros que direcionam resultados e ações de longo prazo. Que garantam a vida e o bem viver das gerações futuras. Gerações essas que se tornarão herdeiras de um bem viver, não de uma ampulheta com um quarto de areia de tempo.
Como podemos despertar para um liderar como quem cultiva?
Não será através de receitas. Muito menos um passo a passo que se desenvolve através de caminhos lineares. Estamos falando em uma composição, que se aprende compondo, ou seja, fazendo.
Sentir o lugar
Ler um território é como aprender sobre sua gramática: quando chove demais, onde a água se acumula, quais saberes locais já percorrem aquela paisagem, sobre os veios que se abriram nos rios com o passar das águas.
Exige escuta paciente e atenta: entrevistas com os moradores locais, caminhadas para sentir a vibração da terra, mapas de fluxo cultural e conversas com quem vive ali há décadas.
Um mapeamento sistêmico que desenha fluxos de recursos, impactos, dependências e interdependências.
Coevoluir com a comunidade e a terra
Projetos regenerativos só funcionam de fato quando são moldados para beneficiar simultaneamente ecologia, economia, saberes ancestrais e a sociedade local. Pede acordos claros, pagamentos justos e contratos que reconheçam riscos e retornos compartilhados.
É um processo de gerenciamento de recursos vivos.
Recontar histórias
Toda mudança nasce de uma linguagem que torna possível outras realidades.
Recontar histórias é criar narrativas que restituem propósito, valor e responsabilidade; é também permitir que vozes marginalizadas ganhem lugar.
Promover a facilitação de diálogos plurais é uma convocatória que permite amplificar vozes diversas.
Imaginar futuros e projetar do tempo futuro para o tempo presente.
Aqui é onde técnicas de foresight e backcasting transformam visões de futuro em roteiro com narrativas estruturadas e métricas capazes de acompanhar seus avanços.
Metodologias e ferramentas que acionam prototipagem e cultura de experimentos, desenvolvendo a capacidade de agência e de agir de forma intencional. Escolher, decidir e agir de modo a transformar a própria realidade.
Criar uma governança que respira
Ao aplicarmos o conceito de regeneração a governança, utilizamos métricas quantitativas e sinais qualitativos. Consideramos percepções, nuances, rituais e narrativas de futuros.
Quando desenhamos indicadores com a comunidade, conferimos legitimidade e ajustabilidade.
O intuito aqui não é sacrificar lucro de curto prazo e sim acomodá-lo a um cenário que olha para um horizonte de antifragilidade e resiliência, o médio e longo prazos.
Cuidar do corpo e nutrir a alma
A prática regenerativa tem, como principal âncora, a consciência. É sobre estar de forma inteira no momento presente, sem atropelos e ansiedade, em um estado de “vivacidade”.
É um liderar que consegue olhar o todo e incluir a todos, de forma a entender que as decisões ali tomadas trarão consequências, positivas e negativas; que avança sem deixar que os olhos se percam nos pontos de risco, porque sabe que é no percurso que as soluções de mitigação ou resolução irão surgir. Não como um passo de mágica, mas pelo contexto com intimidade que está em constante atualização.
Conexão genuína
Rituais e pausas não acontecem de forma aleatória, são convites para ativar uma conexão genuína, construir relacionamentos entre pares e um espaço que sustente a capacidade de cuidar sem esgotar.
O liderar regenerativo não pode ser visto apenas como atualização de mindset. É uma atuação que se dá através de processos de regulação energética e conexão com tudo aquilo que tem vida. É o desenvolver do autoconhecimento profundo e do cultivo da espiritualidade. Apreciar o belo, através das artes, do esplendor da natureza e do simples fato de perceber a importância do respirar.
Não precisa de palco
A liderança regenerativa não precisa ficar mostrando tudo o que faz e aguardando por aplausos. Pede ação, presença e resultados concretos, sem necessidade de espetáculo.
Não há necessidade de discursos performativos que prometem mudança enquanto mantêm velhos hábitos. Distinguir o regenerativo do performativo passa por transparência, por métricas coerentes e por responsabilização comunitária. Mais do que narrativas bonitas, a regeneração exige redistribuição de benefícios.
Ritualiza-se ideia, testa-se prática, aprende-se em comunidade.
Ao final, podemos ler o verbo regenerar como uma espécie de esperança ativa. Não a esperança que espera, mas a que se levanta, planta, rega, insiste, aprende e recomeça.
Estamos apenas no início do próximo nascimento onde futuros brotam muitas vezes em solo árido, mas que cabe a nós nutri-los de forma a tornar o solo e os futuros que brotam dele, um futuro regenerado.
Referências bibliográficas
Regenerative Futures: Eight Principles for Thinking and Practice, em Journal of Futures Studies
Strategy in the Age of Chaos: Retooling Foresight for Today’s World, em IFTF
Livro Diálogos Regenerativos para Futuros Sustentáveis, por Fábio Scarano
Foto da capa: Hashim Badani / Patagonia


