Descolonizar. Provavelmente você já ouviu essa palavra, mas se não fizer ideia do que se trata, talvez possa imaginar que tem a ver com colonização.

Nós brasileiros, conhecemos bastante o que é colonização: fomos colônia de Portugal por muito anos, falamos português, comemos bacalhau na Páscoa e somos em grande maioria católicos por conta disso.

Já entender a palavra descolonizar é compreender que a colonização não trouxe só heranças linguísticas, religiosas e culinárias, mas também envolveu muita exploração: culturas foram apagadas, líderes locais foram mortos, riquezas foram roubadas e memórias destruídas.

Um dos primeiros expoentes do olhar decolonial foi o sociólogo peruano Aníbal Quijano (1928- 2018) que afirmava que o processo de modernidade produziu uma perspectiva de conhecimento que demonstra o caráter do padrão mundial de poder: colonial/moderno, capitalista e eurocentrado, ou melhor conhecido como Eurocentrismo.

Centro do Rio de Janeiro e suas bases neoclássicas no final do século XIX. A foto mostra o Teatro Municipal, por volta de 1910. (Foto: Marc Ferrez | Acervo IMS)

Eurocentrismo é, aqui, o nome de uma perspectiva de conhecimento cuja elaboração sistemática começou na Europa Ocidental no século XVII, ainda que algumas de suas raízes são sem dúvida mais velhas antigas e que nos séculos seguintes se tornou mundialmente hegemônica percorrendo o mesmo fluxo do domínio da Europa burguesa.

A colonialidade, em seu caráter de padrão de poder, acarretou profundas consequências para a constituição das sociedades latino‑americanas e também africanas, pois assentou a confor­mação cultural desses países, modelando suas instituições e reproduzindo nesse ato a dependência histórico‑estrutural de nossos pensamentos e estilos.

Como enxergamos o mundo

A maneira como fomos colonizados influenciou como enxergamos o mundo hoje. Por exemplo, tivemos como parâmetro das nossas construções históricas como igrejas, palácios e edifícios públicos, o neoclássico, o neobarroco e o ecletismo europeu. Como seria o Brasil se os índios e os negros tivessem influenciado e tido voz na formação das cidades e sua arquitetura?

Isso não se limita a construções arquitetônicas, mas a todo aparato cultural e social que nos cerca: vestimentas, música, culinária, religião, escolarização e economia.

Quando um pequeno grupo de pessoas decide o que é mais importante ou belo e não leva em conta o resto da história, tudo que foge dessa visão tende a ser tachado como exótico ou artesanal. A maneira como enxergamos o mundo hoje e como criamos nossas relações de gostos é totalmente fruto desse apagamento.

Já imaginou morar numa construção feita com materiais locais e conectada com nossas raízes ancestrais e não enxergar esse tipo de estrutura apenas como um design exótico para uma hospedagem turística numa praia do Nordeste?

Quando o arquiteto Freddy Mamani, um ex-pedreiro de El Alto, segunda maior cidade boliviana, começou a fazer sucesso com edificações fora do padrão modernista e inspiradas na identidade indígena aymara – cultura  ainda existente na Bolívia, Chile e Peru – foi duramente criticado por acadêmicos e estudiosos.

Mamani se posicionou contra as correntes modernistas presentes na Bolívia e resgatou a ancestralidade de seu povo nas suas obras representando diversidade cultural, dialogando com minorias e etnias, demonstrando a diversidade e a inclusão estética das suas raízes.

Para muitos, a estética de Mamani era de gosto duvidoso, popularesca, carnavalesca, kitsch e sem representatividade. Seria mesmo? Ou seria apenas a opinião de um olhar colonizado por designs eurocêntricos?

Mas nem todos pensaram assim. Alguns enxergam o seu trabalho como uma manifestação excelente do decolonialismo. Não à toa, Mamani foi chamado para uma exposição individual sobre o seu trabalho na Fundação Cartier em Paris em 2018.

Edifícios de Freddy Mamani em El Alto na Bolívia. (Reprodução: Arquiteturando)

Repensando nossos olhares

O grupo de pesquisa Decolonising Design , formado por designers europeus e latinos e que estuda sobre como ajudar as pessoas a se desapegarem do olhar eurocêntrico para observar suas raízes, afirma que descolonizar é reimaginar tudo além do sistema que vivemos. É sempre se perguntar: como isso seria se não fosse o olhar europeu?

Dentro dessa mesma ótica de praticar o olhar decolonial,  surgiu o movimento Design Justice, focado em redesenhar cidades, produtos, serviços e ambientes pensando em reparações históricas. O termo foi criado há mais ou menos cinco anos atrás quando os debates e diálogos sobre inclusão e diversidade nos espaços começaram a ficar mais fortes criando movimentos que lutavam pelo direito de pessoas que tiveram suas raízes e escolhas negadas na sociedade.

A “justiça no design” procura repensar os processos de design, centralizando as pessoas que normalmente são por ele marginalizadas e utilizando práticas colaborativas e criativas para abordar os desafios mais profundos que as nossas comunidades enfrentam.

Nos EUA, a professora do MIT , Sasha Costanza-Chock, defende o ensino do Design Justice nas faculdades, é autora de um livro sobre o assunto (Design Justice: Community-Led Practices to Build the Worlds We Need ) e também criou uma comunidade internacional para discussões e capacitação acerca do DJ no mundo.

Nessa ótica, o movimento Black Lives Matter – que iniciou em 2013 e foi muito impulsionado a partir do assassinato de George Floyd nos EUA em maio de 2020 – desencadeou a derrubada de estátuas de colonizadores escravocratas por pessoas que consideravam aquilo uma ofensa na sua caminhada pela cidade, ferindo a memória de seus ancestrais.

Intervenção do Black Lives Matter, na icônica Quinta Avenida, em frente à Trump Tower (Cortesia: The New Tork Times)

A informação e a discussão estimulada pela era digital e pelo rápido compartilhamento de informação têm despertado em grupos oprimidos a vontade de viver em ambientes justos com sua história.

Ainda dentro do movimento BLM, Intervenções urbanas nas ruas e em praças públicas criadas em colaboração com o escritório de design BlackSpace foram intituladas por jornalistas e especialistas como “Urbanismo do Futuro”.

Na Califórnia, o escritório DJ+DS vem se destacando nos projetos com práticas projetuais voltadas à metodologia do Design Justice. A arquiteta Deanna Van Buren, head desse escritório, se especializou em projetar e criar inspirada no diálogo e na construção compartilhada com quem vai utilizar o espaço. O arquiteto/designer/engenheiro é um mediador e não dono do desenho final e constrói suas ideias a partir de um painel colaborativo com diversos outros agentes.

Como agir

Para Dori Tunsall, primeira reitora negra de uma faculdade de artes e design do mundo (A Universidade de Ontario no Canadá) é hora de repensar a maneira como fazemos design e criamos cidades e objetos.

Segundo Dori, quando falamos de design é aquele vem da Europa. Precisamos olhar para culturas ancestrais e entender que essa construção histórica não faz mais sentido para o que vem por aí. Os livros têm a visão colonial, no entanto, devemos usar a tecnologia, o compartilhamento coletivo e o poder de disseminação das redes sociais para criar novos cenários.

Se você é arquiteto ou arquiteta, é importante também se desapegar dos conceitos do que é belo e feio: você pode ter formado seus gostos pessoais (e dependendo da sua formação acadêmica provavelmente são eurocêntricos), mas as pessoas que vão usufruir dos seus projetos talvez tenham um outro olhar. Que olhar é esse?

Outra dica é entender a história e as raízes do lugar em que você vive e fazer o seguinte exercício: se esse lugar não tivesse sido colonizado como ele seria de verdade? Como essas pessoas pensariam?

No Brasil, o líder indígena Ailton Krenak, defensor da manutenção e da história dos povos e culturas ancestrais e da preservação da natureza afirma que a ancestralidade é esse repertório de notícias que escutamos de geração em geração, como um segredo de sobrevivência.

Devemos ouvir presencialmente as histórias das gerações mais antigas para entender como viviam e como se deu o seu legado e isso não existe nos livros, são informações de pessoas que muitas vezes não sabem ler ou escrever.

Outra concepção notável é a do Bem Viver adotada pelo escritório mexicano Roth. Pressuposto ancestral Kíchwa, enaltece o equilíbrio e a sustentabilidade da vida entre os seres e a natureza, como também o indivíduo consigo mesmo e o indivíduo com a sociedade. Isto traz preceitos sobre relações comunitárias, decisões coletivas e cooperativas, políticas que dizem respeito a vivências coletivas.

Projeto do escritório mexicano Roth Architecture que utiliza os princípios do Bem Viver. (Crédito: IK LAB)

É fato que precisamos reconhecer as inadequações do passado dos nossos espaços e admitir as práticas preconceituosas e injustas que formaram o status quo e o privilégio injusto da maneira como nós arquitetos projetamos.

Nosso passado foi criado por uma visão europeia, hegemônica e historicista. Será que é essa mesma visão que vai inspirar e modelar os nossos futuros?

Crédito da imagem da capa: Roth Architecture

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Marilia Matoso

Arquiteta e urbanista, Marília também é Mestre em Design, educadora e é criadora da Tabulla, revista digital onde escreve sobre criatividade, tendências e inovação para arquitetos e designers. Tem um escritório focado em estratégias criativas e inovadoras para ambientes e produtos e também atua como docente em cursos de graduação e pós-graduação em universidades brasileiras.

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