No Brasil, a sensação de déjà vu diante de cada massacre, ataque policial, morte nas periferias ou destruição ambiental não é mera coincidência. É resultado de um país que, continuamente, atualiza a mesma estrutura de violência. Esse passado não apenas retorna, mas parece nunca terminar, e o que chamamos de “avanço” costuma ser apenas a modernização de uma necropolítica.
Essa repetição nasce de uma ruptura temporal produzida pela colonização. Não foi apenas um processo de ocupação territorial, mas a destruição de cosmovisões que organizavam o tempo e a relação com a terra, o corpo e a memória. Essa ruptura gerou um país incapaz de acessar plenamente suas próprias raízes porque rompeu os fios que conectam gerações e saberes. O que se perdeu não foi apenas o passado em si, mas a própria possibilidade de navegar por ele.
Assim, uma parte significativa do que nos constitui permanece soterrada: conhecimentos apagados, histórias esquecidas, mitos desacreditados, passados não documentados, fragmentos de memória que deixaram de ser transmitidos ou que sobreviveram apenas como sombra. Há também passados distorcidos, reinterpretados sob lentes coloniais que justificam hierarquias, ocultam violências e reescrevem a história para sustentar a dominação.
Vivemos o futuro de um passado que nunca acabou ou os atrasos de um futuro que nunca chegou?
Muitos passados sobrevivem na transmissão oral, nas lembranças compartilhadas, nas marcas do corpo, nos rituais cotidianos, nos gestos herdados e nos mitos que, mesmo desacreditados, seguem atravessando gerações. Mas quando outros passados desaparecem, se fragmentam ou são moldados de forma hegemônica, perdem parte de sua memória e de sua força. A imaginação coletiva perde densidade e direção. Assim, a colonização não fere apenas a continuidade histórica, mas a própria capacidade de imaginar e criar novos futuros.
É por isso que a desigualdade no Brasil não é apenas econômica, é muito mais profunda: uma desigualdade de imaginação, de tempo, de memória e de acesso às próprias camadas temporais, às condições mínimas para sonhar, planejar e existir para além da urgência de sobreviver.
Imaginar, nesse país, vai muito além de aspirar e fantasiar enredos de carnaval, é sobre expressar resistência, inventar rota de fuga, esconder código em canto, traçar caminhos em tranças, criar gambiarras para resolver problemas complexos, passar mensagem em mitos, planejar quilombos, sustentar pela fé e pela festa. A imaginação, aqui, sempre funcionou como ferramenta política, forma de proteção e inteligência coletiva de continuidade.
A Árvore
A metáfora do Entangled Time Tree ajuda a entender esse cenário. O tempo não é uma linha que avança; é uma árvore feita de raízes entrelaçadas. Algumas raízes são visíveis e reconhecidas. Muitas se tornaram subterrâneas. Outras foram cortadas, mas continuam enviando sinais, buscando reconexão. Outras, ainda, nunca foram vistas, porque sempre existiram nas escondidas daquilo que não se narrou.
Quando uma sociedade perde a capacidade de reconhecer essa multiplicidade, perde também a capacidade de se imaginar de forma complexa. O exercício de projetar futuros depende de como nos relacionamos com as camadas do tempo, inclusive aquelas que não conhecemos, não lembramos ou não compreendemos inteiramente.

TERRY, N.; CASTRO, A.; CHIBWE, B.; KARURI-SEBINA, G.; SAVU, C.; PEREIRA, L. Inviting a decolonial praxis for future imaginaries of nature: Introducing the Entangled Time Tree. [s.l.]: [s.n.], [s.d.].
O impacto da colonização não se limitou apenas a “narrar” histórias hoje contadas nos livros – desestruturou todo um modo de viver o tempo. Dissolveu a teia que conectava mitos, relatos, gestos, rituais, documentos, memórias orais e saberes ancestrais. Cortou a ligação entre o que é sabido e o que é pressentido. Rompeu a escuta do que não foi registrado e a legitimidade dos passados possíveis. E, ao fazer isso, inibiu e enfraqueceu a imaginação. Porque imaginar não é inventar. Imaginar é combinar raízes, recompor sentidos, aproximar fragmentos, ouvir o que restou, traduzir o que estava disperso. Quando parte das raízes é cortada, a árvore inteira sofre.
Afinal, como imaginar futuros em estado de sobrevivência?
Para quem vive sob ameaça constante, o amanhã não funciona como promessa, mas sim como prolongamento do mesmo risco.
A reconstrução da capacidade de imaginar futuros passa justamente pela reintegração dessas camadas temporais que foram apagadas, distorcidas ou relegadas ao silêncio. E esse movimento já está sendo tecido por comunidades, movimentos sociais, coletivos periféricos, povos indígenas, quilombolas e populações negras. Apesar da persistência da violência, esses grupos e tantos outros povos, têm criado práticas de cuidado, reconexão e reconstrução de vínculos capazes de religar o que foi rompido.
São essas práticas vivas que reativam histórias esquecidas, conhecimentos apagados, mitos deslocados, passados não documentados que sobrevivem nos corpos e nos territórios, e até passados incertos que continuam orientando modos de sentir e interpretar o mundo. Ao manter, ao longo de séculos, modos de existir profundamente conectados à memória e à coletividade, esses grupos demonstram que o Brasil possui recursos culturais e simbólicos potentes o suficiente para transformar feridas históricas em força criadora.
Romper com a repetição não é apenas possível, é necessário
Essa ruptura do tempo e a devolução da capacidade coletiva de imaginar acontecem com a cura e reconhecimento da ancestralidade, da cultura viva e dos costumes. Para que possamos retornar ao presente e ocupar nosso lugar, não só como história, mas como tecnologias vivas, modos de estar, de pensar, de imaginar. Para que o futuro deixe de ser a continuação de um passado e possa ser um território aberto, um espaço possível de ser criado, sonhado e escolhido.
E, como imaginar futuros em estado de sobrevivência? Quando a urgência consome o agora, a imaginação se perde. Por isso, não há futuro sem memória restaurada, sem resgatar o que foi descontinuado, silenciado ou arrancado.
Como ensina o princípio Akan de Sankofa:
“Volte e pegue aquilo que ficou para trás.”
Ilustração por Ivyy Chen


