Como esperançar num mundo repleto de problemas sistêmicos? Podemos ter esperança que o aquecimento global será freado? Que haverá justiça social no mundo? Que iremos progredir na vida?

Cada esperança, sonho, objetivo ou meta contém caminhos de ação possíveis que podemos constantemente revisar, atualizar e ajustar, com novos objetivos contidos em outros maiores. 

Imaginar, traçar e percorrer caminhos rumo a recompensas que queremos alcançar no futuro, nos faz movimentar imensa energia mental e emocional. Por isso, ao esbarrarmos em algum grande obstáculo no meio da rota, nos abalamos, podemos até sucumbir em atos desesperados. Sentir que o futuro com o qual sonhávamos está se distanciando ou mesmo desmoronando pode ser uma experiência devastadora. A esperança se transforma em desespero. Por sua vez, este pode nos prender em ciclos autodestrutivos ou nos levar a desistir cedo demais. 

O desespero, às vezes, pode ajudar?

Estudos começam a identificar que sem a capacidade de sentir essa dolorosa emoção, talvez nos falte a clareza necessária para buscar novos caminhos. Breves encontros com o desespero podem ser esclarecedores para que analisemos mais de perto para onde estamos indo. Talvez só ao experimentar essa sensação possamos começar a recalibrar nosso futuro.

O desespero é uma emoção intensa. É o reconhecimento de que um caminho em nosso mapa interno de futuros que valia a pena percorrer foi perdido. Imagine você receber a notícia de que não irá receber a bolsa que tanto esperava para concluir sua graduação. De repente, o futuro que você imaginou – receber seu diploma e ter a sua festa de formatura no ano que vem – desmorona. 

Podemos considerar o desespero como um ‘desafio profundo à esperança’ porque imediatamente sufoca aquilo que ela depende: a imaginação prospectiva, o pensamento hipotético, o planejamento e a tomada de medidas concretas para buscar resultados que desejamos. O desespero nos rouba a capacidade de imaginar um caminho viável para seguir em frente. O que resta não é apenas frustração ou raiva, mas a sensação de que o futuro está se aproximando e que nenhum esforço pode fazer diferença.

Esperança e desespero podem ser “parceiros intrinsecamente entrelaçados na dança do desejo”, segundo o psiquiatra e cientista Randolph M Nesse: alternamos de um para o outro dependendo de como interpretamos nossas chances de sucesso. A esperança é o sinal de que um objetivo ainda está ao alcance – que devemos continuar persistindo em direção a esse sonho. O desespero, por outro lado, é o sinal de que as perspectivas futuras evaporaram. Isso nos diz que talvez seja hora de nos afastar, deixar ir e reconsiderar alternativas. 

Os riscos da esperança

Filósofos e psicólogos enfatizam o papel central da esperança em nos dar coragem e resiliência para perseverar, sendo um recurso vital para navegar por futuros incertos. A esperança é uma força indispensável que sustenta nossos projetos mais ambiciosos e nos permite ‘ver’ futuros desejáveis como alcançáveis. Mas também há riscos envolvidos nela.

Estudiosos começaram a observar virtudes do desespero: poderia nos proteger de pensamentos ilusórios e nos direcionar a objetivos mais viáveis. Diante da crise climática, alguns ativistas estão se afastando da esperança e mudando para atitudes mais sombrias como raiva, pânico e desespero. Alguns até pedem o fim da esperança. 

Por que pessoas dedicadas a construir futuros melhores estão pedindo a morte da esperança?

Para estes ativistas, a esperança pode nos levar a ilusões reconfortantes, a ignorar evidências e a não buscar alternativas mais realistas. Pode ser até mesmo arriscada, como por exemplo, a esperança no tecno-solucionismo – crença de que a tecnologia sozinha pode resolver os maiores desafios da humanidade – ou na geoengenharia, que é o conjunto de propostas tecnológicas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas ao implementar inovações para capturar e armazenar emissões. No contexto da crise climática, essa visão sugere que a tecnologia pode nos salvar sem termos que mudar nosso estilo de vida intensivo em carbono.

Há ainda os grandes “esperançosos” sobrevivencialistas ultra-ricos investindo em bunkers de luxo, ou sonhando em abandonar a Terra para colonização planetária. Esse tipo de esperança evita confrontar verdades desconfortáveis sobre nossa atual trajetória. 

Evitando falsas esperanças

Será que uma dose sóbria de desespero poderia evitar falsas esperanças e ilusões sedutoras? 

Sentir uma emoção que sinaliza a necessidade de abandonar um caminho frágil pode ser tão vital quanto ter uma que nos impulsiona a persistir em caminhos incertos, mas valiosos. Deixar de lado um projeto querido muitas vezes significa desmontar uma teia inteira de possibilidades imaginadas – uma teia de sonhos. Enquanto a esperança pode nos agarrar firmemente a um caminho escolhido, o desespero pode oferecer a distância psicológica necessária para reavaliar e nos adaptarmos. 

O desespero nos dá clareza, e até coragem, para reconhecer quando as coisas mudam; nos diz para nos afastarmos de atividades e papéis que não nos servem mais. Sem esse desconforto e tristeza, podemos perder o sinal para começar a redesenhar nosso mapa interno de possíveis caminhos. O desespero nos faz sentir todo o peso de um futuro escapando do alcance. 

Se a tristeza pode ser a arquiteta da mudança cognitiva, nos ajudando a ‘cair a ficha’ da perda e a entendermos uma nova realidade, o desespero pode nos dar o impulso para reorganizar nosso mapa de futuros depois que um caminho foi fechado. Nos leva de volta à realidade presente e interrompe temporariamente nossa imaginação para o futuro enquanto absorvemos o significado da perda e contemplamos o que vem a seguir. Esse momento de reinício cognitivo é o primeiro passo para projetar futuros mais viáveis.

Breves momentos de desespero podem nos ajudar a deixar de lado futuros que não podem mais existir e abrem espaço para que novas possibilidades tomem forma. No contexto de crises e desafios, sejam eles climáticos, sociais ou a nível pessoal, em vez de fugas ou soluções superficiais, seria um esperançar mais crítico e racional. Depois do desespero vem a esperança – imaginar caminhos melhores para seguir adiante.

Ilustração da capa: Josie Norton

Lilia Porto

Economista, fundadora e CEO do O Futuro das Coisas. Como pensadora e estudiosa de futuros tem contribuído para acelerar os próximos passos para organizações e para uma sociedade mais justa e equitativa.

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