Entre dados, dashboards e sensores, as cidades do amanhã podem se tornar tudo, menos vivas. O conceito de cidades inteligentes, tradicionalmente pode ser substituído por cidades eficientes. Nessa busca por eficiência, talvez tenhamos esquecido que é o afeto que ancora, a surpresa que dá ritmo e o encontro que justifica a cidade.
O termo cidades inteligente é discutido há anos, não sem alguma controvérsia. Já tivemos inclusão de novos conceitos como “inteligente e humana”, “inteligente e inclusiva” e por aí vai…menos mal. Entendo que, e felizmente não estou sozinho, a tecnologia só faz sentido se estiver sempre a serviço da comunidade, da forma mais direta e transformadora possível.
Quando a cidade deixa de pulsar
E se a cidade do futuro for exatamente como sonhamos? Limpa, eficiente, segura, inteligente (independente do que isso queira dizer), mas acompanhado de frieza, tédio e insensibilidade?
Na empolgação com o que pode ser o futuro das smart cities, com a IA a todo o vapor (trocadilho péssimo, admito) corremos o risco de projetar cidades como máquinas, para máquinas, e não mais por gente e para gente. Trocaremos a cidade orientada pelo carro pela cidade desenhada por algoritmos, sem passar pela cidade orientada para as pessoas? E ao fazer isso, esqueceremos que a cidade não é uma planilha, não é um sistema fechado, simples, estável, e sim um organismo vivo, pulsante, complexo, onde contradição e desejo vivem lado a lado da ordem e desordem, do planejamento e da informalidade?
O que acontece quando tratamos a cidade como um sistema previsível, gerenciado por dados?
Sim, são muitas perguntas em um texto tão curto, mas o momento talvez seja esse mesmo, de refletir e discutir ideias que vem criando um verdadeiro fascínio em todos nós, especialmente agora que se tornou completamente acessível a qualquer um que tenha a dupla oráculo do século XXI: computador + internet.
Se já não bastasse o fetichismo da mercadoria, não vivemos agora uma era de fetichismo da tecnologia? O alemão barbudo (prussiano para ser mais preciso) não está mais entre nós para responder, mas meu “palpite educado” é que sim.
Em meio a essa reflexão, necessária aqui no meio dos anos 20, podemos imaginar que a cidade pode até funcionar melhor enquanto sistema, mas a vida vai além da eficiência, viver é uma outra coisa.
Do automóvel ao algoritmo
O século 20 foi o século do automóvel. O 21, pelo menos por enquanto, é o século do algoritmo.
Apps de mobilidade definem fluxos. Plataformas de delivery reordenam o consumo e a ocupação da cidade. Câmeras, sensores e plataformas digitais substituem assembleias, praças? Tadinha delas. A cidade parece cada vez mais um dashboard.
Mas a pergunta permanece: planejamos para quem? Ou para o quê? Sistema ou organismo? Carbono ou silício? Cidade não é máquina, felizmente já passamos dessa fase, não é sistema lógico, é organismo complexo. Com suas pausas, desvios, conflitos e imperfeições, a cidade vive das contradições que o sistema tenta eliminar.
Enquanto o sistema busca controle e eficiência, o organismo busca significado. O resultado? Uma cidade que funciona, mas não comove, não emociona. Um lugar que roda liso, suave, mas que não tem alma. Como alerta Hartmut Rosa, o excesso de controle e previsibilidade produz a indisponibilidade do mundo, quando tudo é gerenciável, nada nos afeta de fato.
Sabe quando você pede um texto para um GPT da vida e ele vem perfeito, sem um erro de português sequer, com os subtítulos perfeitamente organizados, as referências, vejam só, já no maldito padrão ABNT? Mas que, quando o lemos, não achamos nenhuma alma, nenhuma emoção? Queremos nossas cidades assim?
A anomia dos territórios automatizados
Se tudo é mediado por algoritmos, do transporte ao afeto, o que ainda nos conecta como comunidade? Émile Durkheim nos alertou: sem referenciais comuns, caímos na anomia. Um estado de desorientação moral, solidão coletiva, perda de sentido.
Pode até ser hiperconectada, mas será que a cidade pós-humana é emocionalmente ancorada? O que ela significa? Será que significa algo de fato? Tecnicamente integrada, porém afetivamente esfacelada. Um lugar que funciona (lugar sem lugaridade, diria meu amigo Emannuel Costa ou um não-lugar como diria Marc Augé, e eu mesmo até recentemente), mas não gera pertencimento, não enraíza.
Ordem x Desordem
Uma das minhas obsessões sempre foi a relação ordem x desordem no ambiente urbano. Por um lado, o traçado regulador do modernismo e depois um modernismo light, com sua rigidez no novo urbanismo, e por outro a informalidade dos espaços ocupados, dos lugares vivos, vibrantes e espontâneos. Como encontrar o meio termo, nem tão regrado, nem tão bagunçado, eficiência na medida certa com altas doses de vibração, ou como me refiro normalmente, a bagunça organizada?
Em seu livro “Desenhando a Desordem”, Richard Sennett e Pablo Sendra desafiam o urbanismo domesticado. Reivindicam a cidade como campo aberto, e não como gabarito:
“A cidade aberta é uma forma que aceita a incompletude. Que permite que pessoas a habitem de modos diversos, que não estão previamente definidos.” (SENNETT & SENDRA, 2025)
Desenhar a desordem é permitir o imprevisto. É entender que uma cidade não precisa funcionar precisamente como um relógio suíço, mas deve funcionar como diálogo, como colaboração, com pausas, conflitos, interrupções e afetos. Só que a IA foi treinada justamente para eliminar tudo isso.
A IA como temos hoje, se comporta, como já foi descrito por alguns autores e especialistas, de forma semelhante a um estagiário rápido e esforçado, ávido por agradar, uma metáfora que ilustra bem sua limitação em lidar com a complexidade e o contraditório urbano.
Ethan Mollick, no livro “Cointeligência”, propõe que a IA deve ser tratada como uma ‘pessoa com papel definido’, exigindo que o humano mantenha controle e consciência do tipo de colaboração que está sendo construída, e portanto, longe de abraçar a complexidade, o diferente, o contraditório.
O falso fim da política
Eficiente, coleta é otimizada, o trânsito flui, a luz acende sozinha, vejam só que maravilha a cidade automatizada. Mas não se engane: eficiência não é neutralidade. Quem decide o que otimizar? Quem define as prioridades? Quem programa as exceções?
Diferente do que o senso comum pode imaginar, ao deixarmos que a IA decida por nós, não eliminamos a esfera de poder, apenas o escondemos. E sem conflito, sem dissenso, sem debate, não há política. Há programação, planificação, estandardização, ou seja, a morte de quase tudo que faz da cidade uma…cidade.
Marc Halévy, em A Era do Conhecimento, fala de uma revolução noética, uma reconfiguração das relações que supera as relações mercantis e nos envolve numa era de conhecimento e criatividade, intuição, afeto, ética. Essa mudança que Halévy, inspirado em Teilhard de Chardin, sugere, é uma discussão central na nossa nova realidade.
Não é só performance, mas pertencimento e relacionamento, apoiada por uma IA que pode ser ferramenta, mas não arquiteta. Uma cidade urbanista, socióloga, antropóloga, geógrafa, orientada por uma abordagem urbana que não se limita a algoritmos, mas que cria, sustenta e fortalece vínculos afetivos.
Porque cidade sem vínculo é espaço, e só.
Afinal, o que ainda nos faz urbanos?
A cidade pós-humana talvez vença o desafio técnico, mas pode fracassar no essencial. Se eliminamos a imperfeição, matamos a pluralidade; se apagamos o improviso, silenciamos a surpresa.
O verdadeiro futuro urbano não está em como automatizamos o tráfego, mas, talvez, em como não automatizamos o cuidado com o outro. Porque, no fim, o que nos faz urbanos não são os dados, é o outro, os relacionamentos, as diferenças, as complementaridades, o afeto.
“Não existe O Futuro, mas futuros possíveis, desejáveis e temidos, que disputam espaço no presente urbano.” Disse eu mesmo no “Lugares Futuros”.
Talvez valha repensarmos o próprio termo planejamento urbano, já que planejamento está relacionado tradicionalmente a um pensamento fechado, monolítico, linear ou a um futuro projetado, aquele que será uma projeção contínua do hoje. Planejar para a diversidade e pluralidade, talvez não seja planejamento propriamente dito, talvez seja uma outra coisa, coisa essa que talvez nem tenhamos nome para ela ainda.
Uma cidade viva não será aquela que mais funciona como uma máquina, mas aquela que permanece aberta ao porvir.
Bibliografia
ESTEVES, Caio. Lugares Futuros: Place Branding, Placemaking e Strategic Foresight para Fortalecer Lugares, Cidades e Países. Homo Urbanus, São Paulo, 2024.
DURKHEIM, Émile. O Suicídio: Estudo de Sociologia. Martins Fontes, 2000.
HALÉVY, Marc. A Era do Conhecimento. Editora UNESP, 2010.
SENNETT, Richard; SENDRA, Pablo. Desenhando a Desordem: Experiências e Disrupções na Cidade. Perspectiva, 2025.
ROSA, Hartmut. Aceleração: A Transformação das Estruturas Temporais na Modernidade. UNESP, 2019.
DURKHEIM, Émile. Da Divisão do Trabalho Social. Martins Fontes, 1999.


