Há algo profundamente revelador, e talvez perturbador, no fato de que o Brasil, em 2026, tenha discutido se a sua seleção poderia vestir vermelho.

Não é sobre futebol. Nunca foi. Também não é sobre design.

É sobre identidade. E, em um nível mais profundo, sobre a dificuldade crescente de produzir qualquer símbolo compartilhado em um país que já não compartilha quase nada.

A camisa nunca foi só uma camisa

A camisa amarela não nasceu da glória, mas da derrota.

Em 1950, o Brasil não só perdeu uma final de Copa do Mundo em casa, como perdeu uma narrativa sobre si mesmo. O branco e o azul, até então presentes no uniforme da seleção, passaram a carregar o peso simbólico do fracasso. Não por ter sido um uniforme ultra vitorioso anteriormente, afinal, o título mundial só viria anos depois, mas pela derrota para o Uruguai, em pleno Maracanã, recém-construído, calando duzentas mil pessoas naquele dia 16 de julho. A porrada foi tão grande que a maldita final tem nome: Maracanazo, ou Maracanaço.

Para terem uma ideia (quem é jovem demais ou desinteressado demais por futebol) o jornal “O Mundo” manchetou “Estes são os campeões do mundo” na primeira página, no dia do jogo, tamanha era a mistura de certeza e otimismo.

Algo então precisaria mudar. Sobrou para o uniforme.

Em 1952, a CBD (antiga CBF) promove um concurso em parceria com o jornal Correio da Manhã, parra escolher o novo uniforme da seleção brasileira. O resultado foi um modelo com as cores nacionais como conhecemos até hoje. A ironia fica por conta do vencedor do concurso, um gaúcho de Jaguarão que fica na fronteira com o Uruguai. Era, vejam só, torcedor da seleção uruguaia.

Mas esse concurso vai muito além de um mero exercício de design, e se torna, intencionalmente ou não, um movimento de reconstrução simbólica. Seria o primeiro da própria seleção brasileira.

O Brasil deixaria de focar no trauma e passaria a se imaginar como potência. Claro que, uniforme não ganha Copa ou jogo nenhum, mas o fato é que, em 1958, o título mundial veio. E aqui, chegamos à segunda reconstrução simbólica iniciada com o novo uniforme – uma reorganização de um país que precisava, e agora teoricamente poderia voltar a acreditar em si mesmo.

O que mudou de 1950 para cá

Em 1950, o problema foi uma derrota, em casa.

Em 2026, o problema é outro. O Brasil não é mais um sistema simbólico minimamente coeso. É um campo de narrativas concorrentes, frequentemente inconciliáveis, que disputam permanentemente o significado do país. A crise é tão grande que o próprio termo narrativa sofreu um desgaste.

Talvez o sinal mais evidente dessa ruptura esteja justamente na gloriosa camisa canarinho, e para muito além do futebol.

Ao longo da última década, as cores da bandeira, que representavam um simbolismo nacional, passaram a ser associadas a um campo político específico, especialmente durante manifestações ligadas à ultradireita (ou ao populismo de direita), onde a ideias como “cidadão de bem” e do “Deus, Pátria e Família” se apropriaram não só da estética, mas também do simbolismo. E isso muda tudo.

Vestir a camisa da seleção deixa de ser algo neutro. Em muitos contextos, passa a ser interpretado como posicionamento. Lembrando que, no século passado, a intelectualidade brasileira, que em grande parte, negava a seleção brasileira considerando o futebol um agente alienador e aparelhado pelo Estado, que sustentava o campo simbólico vigente, no caso, uma ditadura militar, numa política descrita como “Pão e Circo” onde, claro, o futebol seria o Circo.

Quando esse fenômeno acontece, o símbolo deixa de unir e começa a separar. A pergunta, bastante bizarra convenhamos, parece ser: afinal, a quem esse símbolo pertence? A quem ele representa?

Talvez a diferença mais profunda entre 1950 e 2026 não esteja apenas no tipo de crise, mas na relação com o tempo.

Em 1950, o Brasil projetava um futuro comum, ainda que incerto. Em 2026, diferentes grupos da sociedade, projetam futuros incompatíveis entre si.

E quando não há um futuro compartilhado, não há símbolo que consiga sustentá-lo.

A ameaça vermelha

A hipótese de uma camisa vermelha importa bem menos pelo que propõe e muito mais pelo que revela. A reação ao vazamento da suposta camisa vermelha foi imediata e intensa. O vermelho não foi lido como cor, mas como ideologia. Isso, claro, diz muito mais sobre o Brasil do que sobre a Nike.

O que está em jogo não é a cor, mas a impossibilidade crescente de dissociar símbolo e posicionamento. Em um ambiente onde tudo é imediatamente interpretado como sinal, toda estética se torna política, mesmo quando não pretende ser.

Se o design um dia foi passível de interpretação, hoje é um campo minado. Cada escolha estética carrega uma leitura política potencial, logo, nesse ambiente, qualquer tentativa de inovação simbólica se transforma em risco.

Entre o “cidadão de bem” e o “Vai Brasa”

Aqui que a coisa fica mais interessante. De um lado, o verde e o amarelo associados à ideia de ordem, progresso, tradição e pertencimento institucional.

De outro, uma tentativa recente de incorporar uma linguagem mais urbana, jovem e periférica, sintetizada em expressões como “Brasa”, “Vai Brasa” e nos seus desdobramentos promocionais.

O problema não é a intenção, mas o deslocamento.

Essa linguagem urbana e periférica não nasce ali, não foi, felizmente, inventada pela gigante do varejo esportivo. Ela vem de outros campos, de outras vivências, de outras camadas sociais. Quando é capturada e reposicionada como identidade nacional, sem mediação, ela pode gerar ruído. Aliás, qualquer ação sem mediação, colaboração e cocriação, no mundo contemporâneo, tende ao ruído. É verdade para uma camisa, é verdade para uma cidade, quiçá para um país.

O partido estético está errado? Não seria o futebol, antes de qualquer coisa, alegria? Não viria ele da várzea, dos campos de pelada presentes em todo e qualquer canto do Brasil? Não seria o futebol, provavelmente, a maior atividade de lazer das “quebradas” Brasil a fora? Se em sua essência o futebol é democrático, inclusivo e descontraído, ao passarmos ao campo simbólico da seleção brasileira, essa ideia acaba por não ser reconhecida como legítima por todos. Em um país fragmentado, legitimidade é quase tudo, e numa Copa do Mundo, seleção brasileira de futebol é o próprio país no país do futebol.

O “Brasa” e a tentativa de reescrever o Brasil

O uso do termo “Brasa” como representação do país foi defendido publicamente em peças recentes do uniforme da seleção brasileira (engraçado como falamos de seleção brasileira de futebol masculino como sinônimo de seleção brasileira, mas isso tem tantas camadas que merece um outro artigo), mas a recepção expôs mais um desalinhamento.

Muita gente simplesmente não reconhece esse termo como parte do seu repertório. Não se vê ali. Não se identifica. Justificaram nas redes como algo tão comum quanto um paulistano falando “Sampa”. Se você não é de São Paulo, fica a dica. Qualquer um que se refira à cidade dessa forma é, inevitavelmente, visitante.

Quando uma marca tenta introduzir um novo código simbólico sem que ele já esteja consolidado no imaginário coletivo, ela não está refletindo identidade. Está tentando produzi-la. E produzir identidade, especialmente em um ambiente polarizado, é sempre um ato político, mesmo quando não se pretende. Há aqui um erro clássico de leitura de identidade. Confundir linguagem com pertencimento. Linguagem pode ser adotada. Pertencimento não.

E quando essa diferença é ignorada, o símbolo não aproxima. Ele denuncia a distância.

Talvez a ideia seja propor um rebranding para o Brasil da seleção, tentando descolá-lo desesperadamente da polarização da qual foi vítima. Brasa é simpático? Talvez. É autêntico? Certamente não. Isso importa?

Alegria, confronto e o desconforto do sorriso

Há ainda uma camada mais sutil, mas talvez mais reveladora.

A tentativa de resgatar a ideia de alegria como essência do futebol brasileiro passa a conviver com uma estética mais dura, por vezes até agressiva. O sorriso continua ali, mas longe de ser o mesmo. Ele agora sobrevive, convive com tensão, com enfrentamento, com uma necessidade constante de afirmação, e isso, mais do que um detalhe, é um sintoma.

Reflete um país que já não opera apenas na lógica da celebração, da tal alegria um dia inerente e indissociável ao povo brasileiro, mas também na lógica do embate. Talvez este seja um dos sinais mais claros do Brasil contemporâneo. A alegria não desapareceu, mas deixou de ser suficiente para sustentar a narrativa sobre quem somos.

O problema é que alegria e confronto não coexistem de forma simples. Quando colocados lado a lado, sem mediação, eles não se complementam, mas se chocam e se anulam.

Quem apresenta a camisa também entra em campo

A apresentação do uniforme por uma profissional brasileira ligada ao projeto trouxe uma camada que talvez não estivesse prevista. A discussão rapidamente saiu do campo do design e entrou no campo pessoal. Ataques, questionamentos, tentativas de desqualificação. Nada disso é aleatório.

Quando o símbolo está em disputa, quem o constrói também passa a ser alvo.

E aqui aparece um dos paradoxos mais fortes de todo esse episódio. Enquanto a narrativa tenta projetar alegria, pertencimento e identidade, o ambiente de recepção é marcado por hostilidade, desconfiança e fragmentação.

Se em ambientes simbólicos estáveis, mediação é sutil, quase invisível, em ambientes fragmentados, ela se torna essencial.

E a ausência de mediação não gera neutralidade, e sim conflito.

Zeitgeist não é tendência. É tensão.

O espírito do tempo nem sempre reflete o consenso. Emerge no atrito, nada se estabiliza, tudo é imediatamente disputado, reinterpretado, reapropriado.

Esse é o Brasil de agora. Um campo simbólico instável, onde até aquilo que parecia intocável para uns ou irrelevante para outros passa a ser questionado por todos.

Esse é exatamente o ponto onde design deixa de ser design, e passa a ser estratégia, esticando a corda, estratégia de marca-lugar. Porque não se trata mais de representar um país. Mas de lidar com as forças que disputam o que esse país é, e o que ele pode vir a ser. A camisa pode sugerir um Brasil, mas não pode sustentar esse Brasil sozinha. Se a experiência cotidiana contradiz o símbolo, o símbolo perde força, sempre. Esse é um dos pontos centrais de qualquer discussão séria sobre identidade de lugar.

O que essa história realmente mostra

No fundo, essa não é uma história sobre futebol. Nem sobre design. É sobre um país que já não consegue se entender e se comunicar com facilidade.

Em 1950, o Brasil precisava se reconstruir.

Em 2026, o Brasil precisa se reconhecer.

E talvez o próximo passo seja ainda mais difícil, não apenas reconhecer o que somos, mas decidir, coletivamente, o que ainda queremos ser. Porque sem essa decisão, nenhuma camisa será suficiente, e nenhum símbolo dará conta, e claro, não cabe a uma fabricante de material esportivo.

A pergunta que fica não é qual cor o Brasil deve vestir ou como devemos nos referir à ele, mas, se ainda existe, de fato, um Brasil comum que possa ser vestido.

Imagem da capa: Giles Price

Caio Esteves

Caio Esteves é sócio diretor na N/Lugares Futuros. Autor de "Cidade Antifrágil", "Place Branding" e "Lugares Futuros". Expert em place branding, placemaking e futuro das cidades.

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