A chegada dos primeiros migrantes climáticos de Tuvalu à Austrália não é um mero caso de política migratória. É um fato que expõe o que considero uma crise ontológica do conceito de lugar, um abalo profundo no senso comum de que o lugar é sinônimo de território, de geografia em seu sentido mais resumido.
Tempos atrás falei sobre isso, aqui mesmo, quando ainda era uma ideia meio doida de migrar uma cultura para a nuvem, de uma nação cujo território poderia sumir devido ao avanço no nível dos oceanos. Agora, infelizmente, fica claro: o lugar, não só pode, como deve persistir mesmo quando o território se desmancha fisicamente.
Outra obviedade enfrentada é o nosso apego a modelos e formas de pensar o mundo, e os lugares, já obsoletas. Nunca é demais relembrar que, para a geografia humana, minha chave de leitura tradicional, um lugar só é um lugar se for dotado de significado, caso contrário, permanece sendo um espaço, chão, terreno. Assim como no provérbio, supostamente do século XIX que diz que “home is where the heart is” (Lar é onde o coração está, em tradução livre), podemos dizer que, de várias formas, lugar também é onde o coração está.
O acontecimento histórico e sua ordem simbólica
Em dezembro de 2025, um grupo de cidadãos de Tuvalu chegou à Austrália por meio do Falepili Mobility Pathway, um acordo bilateral que cria um visto específico para mobilidade associada aos impactos das mudanças climáticas. Trata-se da primeira iniciativa estatal estruturada que reconhece, na prática, que a inviabilidade física de um território pode demandar novos regimes de mobilidade humana.
Segundo a matéria da DW, mais de um terço da população de Tuvalu se inscreveu para esse tipo de visto, não como uma escolha de oportunidade econômica, mas como estratégia de continuidade coletiva diante da ameaça existencial representada pela elevação do nível do mar.
Lugar e território: será que são a mesma coisa?
Historicamente, políticas públicas, planejamento urbano e desenvolvimento territorial trataram lugar como sinônimo de território. Recentemente, tenho tratado com bastante interesse, e um certo grau de ativismo, sobre a necessidade de darmos nomes certos para as coisas e compreender o que os nomes vigentes representam. “Planejamento urbano” é um desses termos questionáveis. Planejamos zonas, construímos infraestruturas e desenhamos mapas como se isso garantisse sentido, ignorando o fato de que sentido é intenção e não consequência. O caso de Tuvalu escancara que, o território pode falhar, mas o lugar insiste, persiste, sobrevive.
Essa insistência revela algo que há muito tempo também vem sendo discutido: O enraizamento, termo apropriado de Simone Weil, não se reduz ao território, mas tampouco sobrevive sem ele. Quando o chão desaparece, o que está em risco não é apenas a moradia, mas a continuidade simbólica que sustenta o lugar. O desenraizamento torna-se doença social não simplesmente pela perda física do território, mas pela ruptura entre memória, pertencimento e transmissão cultural que essa perda provoca.
Enfrentará o lugar uma crise ontológica?
A crise climática costuma ser narrada em termos de infraestrutura, risco e adaptação. Mas a emergência dos refugiados climáticos aparentemente revela algo mais profundo: uma crise ontológica do lugar, na qual o território deixa de ser capaz de sustentar, por si só, pertencimento, continuidade cultural e sentido, evidenciando que as pessoas e comunidades, de fato, carregarem o lugar consigo quando o território já não pode mais fazê-lo.
Ao reduzir o problema a reassentamento físico, ignoramos o fato de que lugar é uma construção histórica e cultural que atravessa o tempo. A dificuldade contemporânea de articular passado, presente e futuro agrava essa crise: sociedades que não conseguem se relacionar com sua memória coletiva também têm dificuldade de imaginar futuros coerentes para lugares em transformação, ou em desaparecimento.
O limbo jurídico como sintoma
Do ponto de vista do direito internacional, o termo “refugiado climático” parece não ser reconhecido formalmente, ainda. A Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados não contempla deslocamentos induzidos por mudanças climáticas. Essa lacuna jurídica revela um atraso epistemológico, no qual categorias legais, assim como tantas outras, permanecem presas a um mundo que já não existe.
Enquanto os marcos normativos hesitam, populações inteiras são forçadas a reorganizar suas vidas, transportando consigo o que realmente sustenta seus lugares: cultura, língua, relações e memória.
A insuficiência do place branding tradicional
Esse cenário também expõe os limites do place branding tradicional, ainda fortemente ancorado em território, imagem e elementos fixos. Quando o lugar se torna móvel, distribuído e desterritorializado, estratégias baseadas exclusivamente na “geografia” perdem capacidade narrativa e operacional.
Identidade, valor simbólico e pertencimento operam, ao menos desde o advento da tecnologia moderna de comunicação, como redes vivas, não como atributos fixos de um ponto no mapa. Persistir em modelos territoriais é ignorar a transformação radical do próprio conceito de lugar no século XXI.
Cultura como infraestrutura de sobrevivência
Se infraestruturas físicas colapsam com o avanço do oceano, a cultura atravessa fronteiras. Memória, linguagem, rituais e modos de vida tornam-se infraestruturas críticas de sobrevivência. Não são ornamento; são o que permite a continuidade do lugar quando o território se torna incerto.
Os migrantes climáticos de Tuvalu não chegam à Austrália como folhas em branco. Chegam como portadores de um lugar que insiste em existir, mesmo fora de seu chão original.
O futuro do lugar
O caso de Tuvalu não é exceção nem curiosidade geopolítica. É um prenúncio. À medida que o planeta se torna instável, o lugar se revela como aquilo que ultrapassa o solo: uma construção histórica, simbólica e relacional.
Diante disso, a pergunta que se impõe não é apenas como proteger territórios, mas como compreender e sustentar lugares em um mundo onde o próprio chão que pisamos já não é garantia.
Se o território pode desaparecer, mas o lugar insiste, o que exatamente estamos tentando proteger quando falamos em futuro?
Notas e referências (verificação independente)
Australian Government – DFAT — Australia–Tuvalu Falepili Union Treaty
DW Brasil — Austrália acolhe primeira leva de refugiados climáticos
Reuters — First climate migrants arrive in Australia from sinking Tuvalu
Reuters — Over a third of people in sinking Tuvalu seek Australia’s climate visas
Weill, Simone. O Enraizamento. Belo Horizonte. Âyné, 2022UNHCR (ACNUR) — Climate change and displacement: myths and facts
Foto da capa:
Pessoas nadam na lagoa de Funafuti, Tuvalu, em 2019 (Mario Tama/Getty Images)


