Que a educação tradicional dá sinais de esgotamento, disso já sabemos. Mas seria possível uma transformação radical no sistema de ensino? E, se admitirmos essa possibilidade, em qual direção deveríamos seguir?

Penso que o primeiro ponto passa por entender melhor a palavra “ensino”. Ensinar  – na maioria das vezes, de maneira compulsória –  tem sido a base da educação ocidental há pelo menos 200 anos.

Ensino tem a ver com encaixotar o mundo e entregá-lo devidamente organizado e explicado para alguém. Mas será que a vida, o mundo, a realidade têm realmente explicação?

Nas escolas tradicionais, o que mais vemos é ensino compulsório. Nas universidades também. Nas organizações, idem. É como se simplesmente não fosse possível conceber uma educação sem essas tentativas de encaixotamento. Será?

Muito sucintamente, quero propor aqui três caminhos para pensar uma educação capaz de reacender os corações das pessoas. E, além disso, capaz de dar conta da complexidade exponencial do mundo.

Mais descobertas, menos instrução

O ser humano nasce com uma capacidade (e uma necessidade) absurda de aprender. A criança pequena navega pelo mundo orientada principalmente pela sua curiosidade, um instinto natural humano.

Com o tempo, ou melhor, com o excesso de instrução compulsória que recebemos ao longo dos anos escolares, esse olhar da curiosidade vai ficando cada vez mais cego.

Até que, um dia, quando nos perguntam o que gostaríamos de aprender, o que nos fascina, o que verdadeiramente nos apaixona intelectualmente, nós ficamos mudos.

Quanto mais cegos e mudos ficamos, menos damos conta de descobrir as coisas por nós mesmos. Ficamos dependentes das explicações dos outros, reféns do ensino. Passamos a confundir aprendizagem com “curso”, “aula”, “treinamento” e coisas do tipo.

Como meu amigo Conrado Schlochauer gosta de dizer, se não tem uma seta apontando e dizendo “isso é um curso”, então não aprendemos.

E por que deveríamos nos importar com isso, afinal? Porque a capacidade de descobrir por si mesmo é o combustível dos inventores, cientistas e artistas mais notáveis. E, cá entre nós, estamos precisando de mais invenção, ciência e arte em todas as áreas da vida.

Mais convites, menos imposição

Quando te ensinaram a fórmula de Bhaskara, veio alguém e te perguntou se você realmente gostaria de saber aquilo? Muito provavelmente não.

A fórmula de Bhaskara é um exemplo emblemático para dizer de praticamente todos os conteúdos ensinados pela escola. O processo é o mesmo: não há consentimento.

Talvez você esteja pensando: “mas essa fórmula é um conhecimento importante da humanidade e precisa ser transmitido para as gerações mais novas”. Mas a grande questão é: pra quê, se ela está acessível a qualquer momento no Google?

Você se lembra da fórmula de Bhaskara hoje? Se você trabalha com algo relacionado à matemática ou engenharia, talvez sim. No entanto, quando faço essa pergunta em palestras, é muito difícil que mais de 5% das pessoas se lembrem dela.

Outra pergunta que precisamos nos fazer: por que alguém escolheu a fórmula de Bhaskara para ser ensinada e deixou de fora um monte de outras coisas? Por que não se ensina feminismo, filosofias africanas ou K-pop nas escolas?

Yaacov Hecht, um brilhante educador israelense, usa a analogia do “quadrado” para representar o conhecimento que consta nos currículos escolares.

O que está fora do quadrado é menos importante? Para quem?

Voltando ao ponto inicial, precisamos resgatar o consentimento na educação. Por isso a ideia de convite em vez de compulsoriedade.

Se eu me interesso por fotografia e quero que mais gente esteja comigo nesse processo de descoberta, eu convido as pessoas. Um convite sempre pode ser recusado – e, quando é aceito, ele gera paixão e engajamento em vez de ódio e indiferença.

Imagine como seria sua experiência na escola ou na universidade se ela fosse baseada em convites.

Mais humildade, menos certezas

Quanto mais instrução compulsória recebemos, quanto mais normatização, quanto mais disciplinamento, mais tendemos a nos tornar arrogantes.

É como se depois de tantos anos sendo encaixotado, a gente não tolerasse o desencaixotamento do outro.

Nos tornamos míopes, enxergamos apenas o nosso quadrado e o pior, não estamos conscientes disso. Achamos que a nossa verdade é “a” verdade.

Isso não seria um problema se o mundo estivesse perfeito e tudo que precisássemos fosse reproduzi-lo fielmente, tal como uma máquina copiadora.

Se queremos futuros melhores, precisaremos criá-los, e não apenas reproduzir o que já existe. Esses três caminhos – Descobertas, Convites e Humildade – são possibilidades para aprendermos a criar o novo com nossas próprias mãos.

E se tudo que eu estou falando aqui gera curiosidade (ou mesmo resistência) em você, te convido a conhecer as tantas outras vozes que já estão construindo uma educação baseada nesses pilares. Você pode encontrar algumas delas neste artigo que escrevi.

Referências

Educação democrática: o começo de uma história. Livro de Yaacov Hecht.

Imagem da capa: Daiana Ruiz

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Alex Bretas

Alex Bretas é escritor, palestrante e especialista em aprendizado autodirigido e lifelong learning. É o idealizador do MoL, uma comunidade de aprendizagem autodirigida, e coautor do livro Core Skills: 10 habilidades essenciais para um mundo em transformação. Colabora com as empresas na redefinição da sua cultura de aprendizagem e com os indivíduos na sua capacidade de aprender a aprender. Saiba mais em www.alexbretas.com

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