Quem “corre atrás” está atrasado, perdeu a hora, ou nem sabia o que estava acontecendo


14 abr 2018

1. Histórias de sucesso: onde estava o professor em cada uma delas?

“Sou dessas”: gosto de histórias de superação de adversidade no mundo do empreendedorismo. Gosto da força e da resiliência dos que acreditaram e acreditam nas suas próprias ideias, especialmente daqueles que se intra-empreendem. Se você “é desses”, então puxa um café e senta, que a prosa vai ser das boas.

Como dizia, sou dessas: gosto ainda mais de compreender, de fato, quais são os elementos envolvidos em trajetórias de sucesso. Na grande maioria das histórias, esses elementos são científicos, temperados com muita energia e corajosas doses de futurismo reverso.

São pessoas que compreenderam a natureza dos seus próprios universos pessoais sem se desconectarem da visão ampliada dos muitos universos que podem, e devem, coexistir e colaborar entre si, para romper paradigmas.  Na educação, essas pessoas costumavam ser os professores e quem se interessava por ensinar.

Mas de uma década para cá percebe-se uma mudança importante: há mais gente interessada em aprender, em como aprender mais e melhor, aprender para a vida e não (apenas) para o diploma. Curiosamente (e surpreendentemente) essa gente não era, exatamente, professores.

2. Como as tecnologias lideraram uma rebelião no mundo da educação

Primeiro foram os estudantes que se rebelaram, indo além das aulas. Canais de videoaulas multiplicaram-se, grupos online (alguns internacionais), muito material disponível e mecanismos ágeis e flexíveis para encontrar qualquer conteúdo. A tecnologia chegara maciçamente às nossas vidas, e às palmas de nossas mãos, deixando todo o conteúdo desejado a pouco mais de três cliques de distância.

Depois, mais gente se juntou a essa ideia: afinal, quem não tem uma história para contar e algo para ensinar? Nasceram os “aprendedores” e os “ensinadores” (não com esses nomes, claro!). Todos aqueles que queriam estudar e compartilhavam a ideia de que, ora você pode aprender, ora você pode ajudar alguém a aprender. Surgiu a geração que entendeu que aprender era para a vida, e não somente para o diploma, e (pasme) nenhum deles (ainda) era professor. Surgiram os empreendedores de palco “di-cum-força”!

Culpa de quem? Das tais t-e-c-n-o-l-o-g-i-a-s! Pois é… As tecnologias abriram as portas, derrubaram paredes e, de repente, lugar de aprender era todo lugar e todos podiam se ajudar nesse processo.

“-Mas peraí, moçada! Cadê o professor? Cadê o ensino, a prova e o diploma para mostrar ao mundo quem você é, hein?!” PoiZintão (porque sou dessas: às vezes gosto de escrever como falo só para marcar um ponto importante de uma narrativa muito densa), essa foi outra virada da nova era dos aprendizes: mostrar ao mundo que ter um diploma não era tão importante ser profissional com boas competências para o mercado de trabalho exponencial. Pasme!

“-E de onde veio esse absurdo? Esse disparate!” diriam meus colegas professores. “-De um tal Vale do Silício, de algumas garagens, de alguns modelos de negócios totalmente nonsense, do ponto de vista acadêmico, mas altamente empáticos e escaláveis”, eu responderia.

Se você é desses do empreendedorismo, adorou essas últimas palavras, nénão?!

3. A globalização e a queda da territorialidade educacional: aprender tem todos os idiomas

Empatia e escalabilidade. Inovação e disrupção. Criatividade e conectividade. Pluralidade e personalização. Aprender ao invés de ensinar. Modelos novos, altamente absurdos (para quem é daqueles, das antigas) mas que super-deram certo!

Talentos e competências passaram a ser as vantagens competitivas, ao invés dos conteúdos e diplomas. Criatividade conectada passou da casa dos milhões de adeptos dos mais inovadores modelos de processos, produtos e serviços. A escola/universidade não era mais o único lugar onde buscar conteúdos, e o mundo inteiro se rendeu a esse novo paradigma.

“-Peralá! Cadê o professor nessa?” Infelizmente, ele ainda está reciclando aqueles velhos arquivos de PowerPoint para a próxima aula, pigarreando impropérios contra a tecnologia, banindo smartphones das suas aulas e dando provas “de lascar”, como se diz aqui pelo ensolarado e carinhoso nordeste do Brasil.

O professor ficou (lá atrás) e a globalização chegou e prossegue (para ficar).

4. A sala de aula no mundo e o mundo como sala de aula: a disrupção educacional

A vida virou híbrida: as fotos, o banco, o dinheiro, a comunicação, o filme, as séries, o táxi (que não é mais táxi), a comida, até o flerte e a paquera (esses nem precisa de exemplos!). “-Valha!” (Simplesmente adoro quando uma expressão simples se basta para mostrar o sentido de um momento. Sou dessas).

Tudo migrou muito rapidamente da tela do computador, de um lugar fixo e delimitado, para a palma das mãos, em qualquer lugar, para o mundo, em qualquer idioma (um viva aos aplicativos tradutores!). Mas as escolas e os professores continuam os mesmos, para desespero de todos que ainda queriam uma diplomação.

Todavia, também esse cenário começou a reagir com a força de titãs: pelo mundo afora as escolas começaram seu próprio processo de se reinventarem para reagir e interagir com os novos comportamentos e visão futurista. Assim começou a transformação.

Veio a Escola da Ponte (em verdade ela veio bem antes de tudo isso, mas ficou famosa aqui, só nessa época), veio o surpreendente desempenho da Finlândia no PISA, vieram Harvard e Stanford espalhando pelo mundo suas famosas aulas, agora virtuais e gratuitas (muitas delas). Entre muitos outros exemplos mais que eu poderia lhes trazer aqui, vou fechar com aquele que mais espanta e incomoda, na mesma medida que assusta: a Ècole 42. Se você não sabe a disrupção que traz esse último exemplo, se cuida professor, porque você não é desses. É daqueles!

Esse foi o momento da grande ruptura de paradigmas da Educação entre o século que nos deixava e o novo século que chegou para ficar: a valorização do diploma caiu, e a formação de competências profissionais e sócio-emocionais disparou seu valor, no mercado da aprendizagem (que não era mais do ensino).

Restava a pergunta, a ser respondida por estudantes e professores: para que vamos, todos nós, para a sala de aula? Certamente a resposta não era mais o conteúdo. Ou o ensino. Talvez ainda a boa resposta ainda não esteja clara na cabeça de todos os envolvidos (professores, estudantes e gestores de cursos e institucionais), mas o que já estava claro, desde então, era que a tecnologia e a globalização não ofereciam espaço para a perpetuação daquele velho modelo de ensino.

Esses novos tempos demandavam por estratégias, mais que métodos, e por planejamentos e personalização, mais que roteiros e nivelamentos de turmas inteiras. O coletivo, agora, obrigava-se a dar espaço para a personalização, e as tecnologias eram a única saída para os novos modelos, e os professores. Que continuavam lá atrás, nos seus velhos arquivos de PowerPoint, “-porque não sou obrigado”.

5. Para mudar um modelo de negócio, esclareça o consumidor e a mágica acontecerá

Os sucessos continuaram: histórias de sucesso de uma Geração de Valor, de Fundações que passaram a investir no despertar para essa nova educação. Se tem uma coisa que eu aprendi, ao longo dessas décadas de atuação docente, foi que se você quer mudar o sistema, não adianta tentar mudar quem oferece o serviço, mas sim, quem o consome.

Se o consumidor está esclarecido sobre o que é o melhor para seu investimento, ele procura por esse melhor. E se você não oferece esse processo, produto ou serviço, você fica sem esse consumidor. Lei de oferta e procura, pura e simples. Foi o que aconteceu.

Aquele professor, resistente à nova criatividade e conectividade educacional, foi surpreendido pela onda de esclarecimento à população sobre as vantagens de novos modelos educacionais sobre os velhos modelos. E tudo fazia sentido, para todos! Especialmente para os pais da nova geração que nasceu com conta no Facebook e Instagram.

Quem não gosta dos seus app (essa sigla você conhece, né?!) de banco, de séries, de comunicação, de navegação, de vídeo-chamadas, de viagens, de hospedagens, de locomoção. Tudo é mais ágil, mais barato, mais criativo, mais conectado. Mas a educação…

Minha pergunta é: você aceitaria voltar lá atrás, antes de 2007, e abandonar essa nova forma de acessar serviços, mediada por tecnologia e esporadicamente presencial?

PoiZintão…

O mundo mudou e bateu à porta da sala de aula e das salas de professores. Agora o professor “era obrigado, sim”, a mudar. Com o novo marco regulatório da educação à distância a regras mudaram (2016 e 2017), estimulando o ensino híbrido. Com a nova BNCC (2017) uma nova geração anuncia sua chegada ao Ensino Superior, já em 2021, egressa modelos baseados em itinerários formativos, e não disciplinas.

Como resposta a esse movimento na Educação Básica, quem é esperto já se movimentou, antecipando-se à obrigatoriedade. As principais universidades do país estão mudando também seus currículos e suas modalidades de oferta de educação, antes mesmo da virada da legislação para o Ensino Superior, que (aliás) já iniciou pelos novos Instrumentos de Avaliação de Cursos Superiores, do Inep/MEC.

Essa virada, no cenário e na competitividade, no modelo do negócio educacional, trouxe mudanças na oferta de colocação para profissionais, nessa tal educação híbrida. Demandas por currículos com repertórios capazes de abraçar tais mudanças, ou mesmo liderá-las, tornaram-se tão abundantes quanto escassos são, hoje, os candidatos que possuem e dominam tais repertórios.

6. Está na hora de possuir repertório para os novos tempos: você já os tem?

Olhando para trás, sou dessas que gosta de analisar o sucesso e o insucesso das histórias. Atualmente, está fazendo sucesso quem acompanhou essa onda altamente previsível de transformações, que as tecnologias trouxeram.

Não está fazendo sucesso quem está perdendo tempo e correndo atrás do prejuízo, porque só corre atrás de alguma coisa quem perdeu a hora e está atrasado. Uma verdade incontestável: ninguém quer contratar profissional atrasado em nada, nos tempos de hoje.

A enorme busca por formações docentes para esse novo cenário trouxe (pasme) um novo paradigma: o mesmo professor, que defendia que não era possível uma boa formação com parte (ou toda) da carga horária à distância, agora está em busca de formações totalmente online. Basicamente, o propósito é legítimo: ele está atrasado, correndo atrás do prejuízo (literalmente) e não pode esperar formação de turmas, deslocamento, perder dias de trabalho, tudo para investir em uma formação presencial. Certo?

Mas peralá! E a história de que formação tem que ser presencial, estudante tem que ter aula, e bla-bla-bla…? Se você, como eu, for desses que entende que quando a necessidade bate na porta, as prioridades mudam, você já está – há tempos – com seu repertório formado para encarar esse milênio das tecnologias educacionais. E está rindo desse tal paradoxo, porque é isso que ele é: um baita paradoxo!

E se está rindo, reconheceu alguém do seu contato ou convívio, nessa narrativa. Alguém daqueles.

7. O que aprendemos com isso tudo?

Assim são as histórias: foram feitas para nos reconhecermos secretamente no personagem principal, ou no vilão, ou no mocinho, ou mesmo no narrador. As histórias nos identificam e nos conectam, sem ferir egos, mas alertando sobre verdades duras e tácitas.

Boas histórias não aceitam sofismas. Boas histórias têm coerência e coesão entre propósitos e atitudes. Por isso, se você é desses, como eu, entendeu que essa pode ser a minha história, ou a sua, ou do seu colega, e nem por isso ela deixa de lado uma grande verdade: ainda estamos subdimensionados para a Educação 4.0.

Mas o mais legal, é que, se você leu essa história até o fim (obrigada pela paciência e deferência) não percebeu, mas aprendeu como montar um Storytelling! Quer saber como? Eu ensino:

1- Volte aos itens numerados, que parecem subtítulos. Eles constituem os sete pontos essenciais para se montar um Storytelling: 1, ponto de partida; 2, mudança do enredo; 3, elemento de pressão; 4, meia-vida da trama; 5, muito mais pressão; 6, a virada; 7, resolução.

2- Na narrativa, elementos marcam pontos de destaque. Podem ser termos especiais, ressalvas entre parêntesis, simulação de diálogos, grafias propositalmente incorretas, mas com sentido de expressão coloquial.

3- Personalize a narrativa: dê seu toque pessoal. Faça isso com leveza, bom humor (se for o caso), coloque-se como parte da narrativa, ria de si mesmo ou do personagem principal, seja empático, anteveja desfechos e mostre-os com seriedade, mas sem dureza.

O sucesso, na maior parte das histórias que li, sobre empreendedorismo, usaram esses elementos e fizeram de suas narrativas verdadeiros mapas de inovação e criatividade. E nenhuma delas foi de um professor dando aulas. Deve haver algum fundo de ciência nesse fato também, mas essa é uma outra história, que eu vou deixar você contar para mim.

Porque sou dessas: um bom café, uma boa história, e muita aprendizagem para colocar em prática no final da história.

 

Crédito da imagem da capa:  Giuseppe Milo

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Denise Da Vinha
Denise Da Vinha

Fisioterapeuta, Mestre em Fisioterapia, Doutora em Pediatria e Pós-Doutora em Engenharia Biomédica. Especializou-se em Metodologias Ativas de Aprendizagem e em Design Thinking for Education. Além de seguir atuando na carreira docente (no Brasil e na Espanha), atua na assessoria de desenhos Curriculares personalizados e inovadores, onde o principal trabalho é preparar, em mindset e repertórios, o corpo docente de instituições de ensino superior para que encontrem os melhores caminhos da inovação na formação dos egressos, dentro de sua própria realidade e recursos. Há dois anos iniciou a Rede Innovares (Facebook e YouTube), um projeto de desenvolvimento docente, baseado em modelos colaborativos, com o objetivo de dividir conhecimento para multiplicar experiências de aprendizagens. Sua produção científica conta com artigos em periódicos nacionais e internacionais, cursos e palestras em eventos científicos, livros, orientações de pós-graduação, sistematização de processos científicos e técnicos, todos nas áreas de Educação, Fisioterapia e Saúde.

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