O recurso mais valioso do mundo


02 jan 2018

Um século atrás, o recurso mais valioso do mundo era o petróleo. Hoje, uma nova commodity está criando uma indústria lucrativa e de rápido crescimento, levando reguladores antitruste a intervirem para restringir empresas que querem controlar o seu fluxo.

Semelhantes às preocupações que despertavam os gigantes do petróleo, hoje quem causa preocupação são empresas que lidam com dados, o novo petróleo da era digital. Esses titãs – Alphabet (empresa do Google), Amazon, Apple, Facebook e Microsoft – parecem incontroláveis. Atualmente são as cinco empresas mais valiosas do mundo. Juntas tiveram mais de US$ 25 bilhões de lucro líquido no primeiro trimestre de 2017; a Amazon fica com metade de todos os dólares gastos online nos Estados Unidos; Google e Facebook representaram quase todo o crescimento da receita em publicidade digital na América em 2016.

O porte dessas empresas por si só, não representa um problema. O sucesso delas beneficia bilhões de pessoas. Afinal, quem quer abrir mão do motor de busca do Google, da entrega rápida da Amazon ou do feed de notícias do Facebook? Grande parte dos seus serviços são gratuitos (os usuários pagam, de fato, entregando ainda mais dados).

Mas há motivos para preocupação. O controle de dados por essas empresas da Internet lhes dão um imenso poder. O antigo modo de encarar a concorrência, concebido na era do petróleo, parece ficar completamente desatualizado nessa “economia de dados”. Faz-se necessária uma nova abordagem.

O que mudou? Os smartphones e a Internet tornaram os dados abundantes, onipresentes e muito mais valiosos. Praticamente todas as suas atividades criam um rastreamento digital – o que significa mais matéria-prima para as destilarias de dados. À medida que, por exemplo, dispositivos para carros se conectam à Internet, o volume de dados aumenta: alguns estimam que um carro autônomo gerará 100 gigabytes por segundo. Enquanto isso, técnicas de inteligência artificial, como a aprendizagem de máquina, conseguem extrair um valor ainda maior desses dados. Algoritmos podem prever quando um cliente estará pronto para comprar, um motor a jato irá precisar de serviço ou quando uma pessoa terá risco de desenvolver uma doença. Gigantes industriais como a GE e a Siemens agora se vendem como empresas de dados.

Esta abundância de dados altera a natureza da concorrência. Os gigantes da tecnologia sempre se beneficiaram dos efeitos da rede: quanto mais usuários se inscreverem no Facebook, mais essa rede se torna atrativa para as pessoas. Com dados, há efeitos de rede adicionais. Ao coletar mais dados, uma empresa tem mais informações para melhorar os seus produtos, o que atrai mais usuários, gerando ainda mais dados e assim por diante. Quanto mais dados a Tesla reúne dos carros autônomos, mais aperfeiçoados estes se tornam – razão pela qual, a empresa que vendeu apenas 25 mil carros no primeiro trimestre de 2017, agora vale mais do que a GM, que vendeu 2,3 ​​milhões.

O acesso aos dados também protege as empresas de rivais da seguinte forma: ao contrário de empresas que operam no escuro (sem dados), os sistemas de vigilância desses gigantes abrangem toda a economia: o Google pode ver o que as pessoas procuram, o Facebook o que elas compartilham, a Amazon o que elas compram. Eles possuem lojas de aplicativos e sistemas operacionais e alugam o poder de computação para startups. Eles têm uma “visão panorâmica” das atividades em seus próprios mercados e além deles; podem saber quando um novo produto ou serviço começa a ganhar tração, permitindo que copie ou simplesmente compre uma startup antes dela se tornar uma grande ameaça. Muitos acreditam que a compra do WhatsApp pelo Facebook em 2014 por US$ 22 bilhões, que na época era apenas um aplicativo de mensagens com menos de 60 funcionários, foi para eliminar um potencial rival.

Os dados podem propiciar sistemas de alerta, sufocando a concorrência e a natureza deles (dos dados) torna os recursos antitruste do passado ultrapassados. Quebrar uma empresa como o Google em cinco Googlets não impedirá que os efeitos de rede se reafirmem ao longo do tempo: um deles se tornará dominante novamente. Assim, à medida que os contornos de uma nova abordagem começam a se tornar mais visíveis, duas ideias se destacam.

A primeira é que as autoridades antitruste precisam evoluir da era industrial para o século 21. Numa fusão, por exemplo, tradicionalmente eles consideravam o porte da empresa para determinar quando deveriam intervir. Agora precisam levar em consideração a extensão dos ativos de dados das empresas ao avaliarem o impacto das ofertas. O preço de compra também pode ser um indício de que uma empresa já estabelecida está comprando uma possível ameaça. O fato do Facebook ter pago tanto dinheiro pelo WhatsApp, que não tinha nem receita, deveria ter levantado uma bandeira vermelha. Os “trustbusters” também deveriam ficar mais experientes em dados ao analisarem as dinâmicas do mercado, por exemplo, usando simulações com algoritmos para mapear conflitos com os preços.

O segundo princípio é diminuir a aderência que os provedores de serviços online têm sobre dados e dar mais controle a quem os fornece. Maior transparência ajudaria: as empresas poderiam ser forçadas a revelar aos consumidores qual informação elas detêm e quanto dinheiro ganham com isso. Os governos poderiam incentivar o surgimento de novos serviços, abrindo seus próprios dados ou gerenciando partes cruciais da economia de dados como infra-estrutura pública, como a Índia faz com o sistema de identidade digital, Aadhaar. Eles também poderiam exigir o compartilhamento de certos tipos de dados, com o consentimento dos usuários – uma abordagem que a Europa está dando com os serviços financeiros ao exigir que os bancos tornem acessíveis os dados dos clientes a terceiros.

Levar o antitruste para a era da informação não será fácil. Isso implicará novos riscos: um maior compartilhamento de dados, por exemplo, pode ameaçar a privacidade. Mas, se os governos não quiserem uma economia de dados dominada por alguns poucos gigantes, eles precisarão agir rápido.

Fonte: texto originalmente publicado no The Economist

Imagem da capa: David Parkins

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Redação O Futuro das Coisas
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