O nosso cérebro é péssimo para pensar sobre o futuro


21 abr 2017

Os nossos “eu do futuro” são estranhos para nós.

Isso não se trata de uma metáfora poética, mas de um fato neurológico. Estudos por ressonância magnética (FMRI) sugerem que, quando você imagina o seu “eu do futuro”, o cérebro faz algo esquisito: ele deixa de agir como se estivesse pensando em si mesmo e começa a agir como se você estivesse pensando em uma pessoa completamente diferente.

Funciona assim: normalmente, quando você pensa sobre si mesmo, uma região do cérebro conhecida como córtex pré-frontal mediano (MPFC) “acende”. Quando você pensa em outras pessoas, ela “desliga”. E o que acontece  quando você sente que não tem nada em comum com uma pessoa em quem está pensando? O MPFC se ativa pouco.

Mais de 100 estudos com imagens cerebrais relataram esse efeito. (Aqui está uma metanálise interessante. Embora alguns estudos recentes de FMRI tenham sido questionados por erros estatísticos e falsos positivos, esse achado, em particular, é robusto.)

Mas há uma grande exceção a essa regra: quanto mais tempo você tentar imaginar sua vida, menos o seu MPFC será ativado. Em outras palavras, o seu cérebro age como se o seu “eu do futuro” fosse alguém que você não conhece muito bem, alguém com quem você não se importa.

Tal comportamento do nosso cérebro pode tornar mais difícil tomar ações que beneficiem nossos eus do futuro, tanto como indivíduos quanto como sociedade. Estudos mostram que, quanto mais o seu cérebro trata o seu “eu do futuro” como um estranho, menos autocontrole você demonstra no presente, e menos provável que você faça escolhas pró-sociais, ou seja, escolhas que provavelmente ajudariam o mundo no longo prazo. Você fica menos capaz de resistir às tentações, tende a procrastinar mais, executa menos, guarda menos dinheiro para a sua aposentadoria, desiste mais rápido diante da frustração ou da dor temporária, e  fica mais improvável que você se importe ou tente evitar desafios que estão no longo prazo como, por exemplo, as mudanças climáticas que estamos vivenciando.

Isso faz sentido. Como disse o pesquisador da UCLA, Hal Hirschfield: “Por que você economizaria dinheiro para o seu “eu do futuro”, quando, no seu cérebro, parece mais que você está entregando o seu dinheiro a um completo estranho?”

O clima político atual nos Estados Unidos reflete esse mesmo preconceito cognitivo contra o futuro. Recentemente, Trump assinou uma ampla ordem executiva desfazendo uma vasta gama de regulamentos destinados a mitigar as mudanças climáticas a longo prazo em favor de políticas que proporcionem benefícios econômicos de curto prazo. E o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, há pouco tempo ganhou as manchetes quando afirmou publicamente “não estar preocupado” com a possibilidade de que a automação possa eliminar milhões ou mesmo dezenas de milhões de empregos nos EUA no futuro. “Isso não está nem na nossa tela de radar”, disse ele, acrescentando que isso não vai acontecer nos próximos “50, 100 anos ou mais”. Mas, como Daniel Gross escreveu no Slate, ele pode estar errado. Provavelmente não vai demorar cinco décadas ou mais para que os robôs e a inteligência artificial reduzam significativamente o número de empregos disponíveis para os americanos. Pesquisas econômicas recentes do MIT sugerem que 670.000 empregos industriais já foram perdidos para automação nos EUA.

Mas, mesmo que demorasse 50 anos para que esse furacão atingisse a força de trabalho, estamos realmente confortáveis ​​com nossos líderes empurrando o problema para os nossos eus do futuro? De acordo com o último censo, aproximadamente 180 milhões de americanos hoje devem estar vivos daqui a 50 anos. Não estamos minimamente interessados ​​em pensar sobre em que tipo de mundo nós podemos nos encontrar ou queremos ajudar a criar ou evitar, quando esse tempo chegar?

Infelizmente, pensar sobre o futuro distante não é um hábito que a maioria das pessoas pratique com frequência. O Institute for the Future (IFTF), uma organização sem fins lucrativos com sede em Palo Alto, Califórnia, acabou de concluir a primeira grande pesquisa de sobre future thinking.

O future thinking (ou pensamento futuro) é apontado como a habilidade crucial para o século 21. Vários futuristas, como Marina Gorbis, defendem que esta habilidade seja desenvolvida amplamente e se torne quase um “meio de vida” para as pessoas.

Nessa pesquisa do IFTF, 2.818 pessoas (norte-americanos com 18 anos ou mais) refletiram sobre a frequência com que elas imaginam algo que pode acontecer ou algo que elas poderiam fazer pessoalmente em diferentes escalas de tempo do futuro.

A pesquisa descobriu que 53% dos participantes raramente pensam ou nunca pensam sobre o “futuro distante” ou algo que poderia acontecer daqui a 30 anos. 21% dizem imaginar este futuro menos de uma vez por ano, enquanto 32% responderam que isso nunca passa pela mente.

Da mesma forma, 36% dos entrevistados disseram que raramente pensam ou nunca pensam em algo que eles podem fazer pessoalmente daqui a 10 anos. Já 19% pensam sobre este futuro 10 anos a frente menos de uma vez por ano, enquanto outros 17% dizem nunca pensar sobre isso.

Felizmente, pensar nos próximos 5 anos é um pouco mais comum do que pensar  sobre daqui a 10 e 30 anos. Apenas 27% dos entrevistados raramente pensam ou nunca pensam sobre as suas vidas num horizonte de até cinco anos. A resposta mais comum para a questão “quantas vezes você pensa sobre algo que pode fazer ou que poderia acontecer daqui a cinco anos?” foi uma ou duas vezes por mês. Mas, em comparação com a frequência com que pensamos em nossos amigos e familiares — coisa que acontece quase diariamente —, dificilmente reservamos um tempinho para pensar nos nossos eus do futuro.

A pesquisa do IFTF sugere que, quanto mais você envelhece, menos pensa sobre o futuro — 75% dos idosos raramente ou nunca pensam em daqui a 30 anos, enquanto 51% raramente ou nunca pensam em daqui a 10 anos. Uma resposta comumente dada era: “Eu não espero estar vivo, então, não penso sobre isso”. Mas a pesquisa neurológica precedente mostrou também que imaginar o futuro se torna simplesmente mais difícil enquanto nós envelhecemos. Isso porque perdemos a matéria cinzenta e a conectividade entre as regiões associadas à simulação mental do futuro.

Os dados mostraram que ter filhos ou netos não estimula o hábito do pensamento futuro. No entanto, outro evento da vida pode sim induzir: um “leve contato” com a mortalidade, como um diagnóstico médico potencialmente terminal, uma experiência de quase-morte ou algum outro evento traumático. Isso foi associado, nos dados da pesquisa, com um aumento estatisticamente significativo nos pensamentos futuros semanais, tanto no horizonte de 5 anos quanto no de 10 anos (mas não de 30 anos). Isso faz sentido: contatos com a mortalidade são frequentemente associados, na literatura psicológica, com um esforço revigorado para levar uma vida significativa e deixar um legado positivo. Pensar, planejar e contribuir com os nossos futuros compartilhados de longo prazo pode ser parte essencial para lançar as bases de ambas as coisas.

Mesmo sem essa “baforada” da mortalidade, algumas pessoas mostram-se muito orientadas para o futuro. Na mesma pesquisa do IFTF, 17% dos entrevistados disseram pensar sobre o mundo daqui a 30 anos pelo menos uma vez por semana. Quase um terço, ou 29%, pensa, pelo menos uma vez por semana, sobre o futuro de daqui a 10 anos. E um pouco mais (35%) pensa sobre o futuro num horizonte de 5 anos pelo menos uma vez por semana. O fato de que algumas pessoas pensam regularmente sobre o futuro se alinha com algo que os pesquisadores descobriram anteriormente: as pessoas têm limiares diferentes para quando elas veem o “eu do futuro” como um estranho. Em algumas pessoas, o MPFC “desliga” quando pensam em um eu futuro daqui a um ano; em outras, a interrupção não acontece até que esse “você do futuro” seja pensado para daqui a 5, 10 ou 15 anos.

Não está claro, a partir dos atuais dados, se pensar regularmente sobre o futuro  pode mudar o comportamento do cérebro, ou se as pessoas que têm um limiar mais alto naturalmente gostam de pensar mais sobre o futuro por já se relacionarem melhor com os seus eus do futuro. De qualquer maneira, isso deixa pelo menos os EUA (outros países certamente também) com uma espécie de “future gap” ou lacuna do futuro.

Algumas pessoas se conectam regularmente com seus eus do futuro, mas a maioria não. E isso é importante para além dos vínculos entre o pensamento futuro e um maior autocontrole e comportamento pró-social. Pensar sobre o futuro de daqui a 5, 10 e 30 anos é essencial para uma cidadania engajada e para que possamos solucionar problemas. Ter curiosidade sobre o que poderá acontecer no futuro, conseguir imaginar como as coisas poderiam ser diferentes e criar empatia por nossos eus do futuro são coisas essenciais, se quisermos criar mudanças em nossas próprias vidas ou no mundo que nos rodeia.

Se você raramente pensa sobre o futuro, saiba que isso é um hábito que pode ser trabalhado. Por exemplo, no curso “Como pensar como um futurista”, que faz parte do programa da Universidade de Stanford, é recomendado aos alunos  que façam uma lista das coisas pelas quais têm interesse, como comida, viagens, carros, a cidade em que moram, sapatos, cães, música, mercado imobiliário. Em seguida, pelo menos uma vez por semana, eles devem fazer uma pesquisa no Google buscando “o futuro de” uma dessas coisas que listaram. Então, recomenda-se que os alunos  leiam um artigoouçam um podcastassistam a um vídeo e tenham acesso a algumas ideias específicas sobre como o futuro de algo que gostam pode vir a ser.

Ninguém pode prever o futuro, mas muitas pessoas já estão falando sobre como o futuro poderia ser — com novas tecnologias, novas políticas, nova cultura. E quando você passa a poder imaginar detalhes concretos de um futuro possível, é mais fácil fechar essa lacuna do futuro e se colocar como protagonista desse futuro. O “você do futuro” se torna menos “um estranho” e mais um “alguém” com quem você pode conspirar pró-ativamente para criar um mundo melhor e uma vida melhor.

Texto original de Jane McGonigal Ph.D., pesquisadora sênior do Institute for the Future (IFTF) e autora de SuperBetter: The Power of Living Gamefully — traduzido e adaptado por Pati Rabelo, publicitária e coeditora do O Futuro das Coisas.

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Redação O Futuro das Coisas
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