Futuros Experienciais: visitando futuros para lidar com um mundo pós-normal


24 jun 2018

Tunísia, janeiro de 2011. A pressão popular consegue derrubar uma ditadura que perdurava 23 anos. Mas, imediatamente após a queda do líder ditador Zine El Abidine Ben Ali, a economia do país começa a despencar – os revolucionários não sabiam como administrar e nem havia um plano estruturado de como tocar a nação após a revolução. Com a crise política e econômica, uma série de fatos apontavam o iminente colapso da Tunísia. Foi então que aconteceu algo extraordinário.

Um mês após a revolução, durante um dia inteiro, vários jornais, estações de rádio e veículos de TV, reportaram notícias como se fosse 16 de junho de 2014, ou seja, três anos e quatro meses depois. Foram veiculadas histórias sobre um futuro alternativo em que a Tunísia desfrutava de uma situação de estabilidade, democracia e prosperidade.

A hashtag #16junho2014 ganhou força nas redes sociais, culminando em um movimento que provocou uma mudança conforme as pessoas debatiam e imaginavam o destino do seu país. Essa intervenção ajudou a restaurar a confiança da Tunísia a fim de recuperar-se do caos.

Essa história representa um exemplo de como pré-experienciar futuros pode influenciar nossa tomada de decisão e até o destino de uma nação.

Nesse caso, os veículos de mídias tiveram um papel fundamental para influenciar os cidadãos daquele país, possibilitando que pré-experienciassem um futuro desejável e imaginassem novas possibilidades.

Não há um único futuro a ser previsto. Há muitas alternativas de futuros para serem antecipadas e pré-experienciadas em algum nível.Jim Dator, Diretor do Centro de Estudos de Futuros do Havaí.

Futuros Experienciais

E se fosse possível viajar 10, 20, 50 anos no futuro e vivenciar situações reais que estão acontecendo nessa época?

Há menos de um ano, escrevi um texto aqui sobre a possibilidade das pessoas tornarem-se exploradoras de futuros. É preciso democratizar o pensamento futuro, mas também, buscar formas mais imersivas que tornem o ato de pensar sobre futuros mais prático, divertido e emocionante.

Encontrei no entretenimento a melhor resposta até agora, na ativação da emoção e não somente da razão, engajando os cinco sentidos dentro de cenários futuros. Em outras palavras, uma abordagem para experienciar futuros com uma pegada mais Disney e Broadway.

E aí chegamos ao método Futuros Experienciais (ou Experiential Futures).

O exemplo da Tunísia representa os três princípios básicos desse método desenvolvido, originalmente, por Stuart Candy e Jake Dunagan: Pensamento Futuro, Design e Política.

Um dos primeiros casos de futuros experienciais criados por Stuart e Jake, no curso de Estudos de Futuros do Havaí em 2006, foi um projeto que trazia quatro cenários futuros sobre o Havaí em 2050. Nessa experiência as pessoas emergiram em um debate político no futuro, levando-as a imaginar como as instituições governamentais e o processo democrático poderiam ser diferentes em cada um dos cenários.

Da esquerda para a direita: os futuristas Stuart Candy e Jake Dunagan, a artista Sarah Kornfeld e o oceanógrafo Wallace J. Nichols. Eles participaram do Plastic Century, um projeto realizado em conjunto com a California Academy of Science, em San Francisco. O projeto analisou a evolução da poluição plástica nos oceanos e o impacto disso no futuro. Uma das experiências, para que as pessoas visualizassem essa poluição, eles encheram quatro garrafões de água vidro, o primeiro representando o ano de 1910, o segundo, 1960, o terceiro, 2010, e o quarto, o ano de 2030, projetando a tonelagem real de plástico nos oceanos e enchendo com porcentagens relativas de plástico para cada representação no tempo. (Crédito: Plastic Century)

 

Outra forma de trazer futuros à vida é através do design fiction, onde você visualiza novas tecnologias em um futuro alternativo, demonstrando seus desdobramentos, implicações a partir de um artefato de futuro.

Para tangibilizar o que é um artefato de futuro, imagine que você seja um arqueólogo fazendo uma expedição no futuro em busca de objetos e fragmentos que ajudem a entender como vai ser o dia-a-dia das pessoas daqui há 10, 20 ou 50 anos. Esse artefato pode ser um protótipo de uma tecnologia dessa época ou apenas uma imagem de algo que detalhe esse cenário de forma concreta.

O método futuros experienciais traz um olhar mais multidimensional, sistemático e empírico quando vamos dialogar, construir e tomar decisões orientados por cenários futuros.

Em outras palavras, estamos falando de um processo ou método que permite você vivenciar o mais próximo que temos hoje de viagem no tempo.

O choque temporal causado por uma experiência imersiva de futuros pode modificar a percepção das nossas normas sociais relacionadas ao tempo (como a ideia de futuro pré-determinado), modificando também comportamentos e atuando no nível cultural e mitológico das pessoas.

Podemos realizar análises gráficas, apresentações expositivas e até cenários escritos para ilustrar o processo de mudança que acontece hoje e os desdobramentos no futuro.

No entanto, existe uma outra alternativa que é explorar futuros alternativos e mergulhar dentro das suas “entranhas” para sentir na pele o resultado dessa mudança.

Cenários futuros à luz da fisicalidade da narrativa

Quando estamos diante de uma discussão sobre um cenário futuro que, aparentemente, não traz nenhum senso de urgência, a nossa mente interpreta esse cenário como algo distante da nossa realidade atual. Em outras palavras, para a nossa mente é tão abstrato que não nos afeta hoje.

É diferente de você estar diante de situações concretas, que você pode se deparar no dia-a-dia, que afetam diretamente a sua rotina.

Quando você assiste um episódio de Black Mirror por exemplo, ninguém precisa explicar os desdobramentos daquele cenário, a narrativa sozinha é suficiente para envolver e emocionar.

Um cenário experiencial ajuda a aproximar aqueles futuros que a nossa mente interpreta como improváveis ou distantes. É a diferença básica entre imaginar ou projetar futuros, e estar realmente lá, fisicamente e psicologicamente.

A fisicalidade de uma narrativa de futuros experienciada toca primeiro o coração, o que você está sentindo naquela situação. A sua mente registra uma emoção que é real em uma situação desenhada para sensibilizar você em relação aos aspectos mais profundos e viscerais de um cenário futuro. Essa fisicalidade também vale para experienciar um cenário do passado, se, por exemplo, reproduzimos gestos ancestrais como se agachar numa fonte para beber água.

A ciência justifica que quando imaginamos aspectos concretos e afetivos sobre futuros possíveis, o cérebro armazena essa informação como uma situação vivida naquele momento. Você cria, de fato, memórias de futuros.

E se a melhor forma de aprender sobre o futuro estiver na nossa capacidade de contar e imaginar novas histórias?

Queremos contar e ouvir histórias, isso é o que move a humanidade há séculos.  Da mesma forma que buscamos há séculos oráculos e tarólogos para ler e interpretar os sinais que revelam como vai ser o nosso futuro.

É incontestável, o desejo humano em contar e ouvir histórias sobre o futuro.

Mas, acredito que dois pontos cruciais precisam ser levados em conta no cenário complexo que estamos vivendo hoje:

Primeiro, que existem uma infinidade de histórias de futuros, portanto é preciso uma visão sistemática para compreender o significado dos sinais.

Segundo, que a imaginação é o principal combustível para navegar dentro das incertezas desse mundo pós-normal.

Imagine por um segundo qual formato que o Walt Disney utilizaria para provocar as pessoas a pensarem mais sobre futuros.

Infelizmente, não podemos perguntar a ele o que ele usaria, mas vou especular uma hipótese bastante plausível:

Possivelmente ele desenharia situações ou histórias de futuros com o objetivo de encantar, emocionar e divertir as pessoas.

E se o próximo Walt Disney World fosse um Alternative Futures World?

A série Westworld do HBO traz um cenário futuro em que existe um parque com robôs humanóides que interpretam diferentes narrativas, desde o velho oeste até os antigos samurais.

Os visitantes desse parque buscam vivenciar uma excitante aventura que poderia acontecer na vida real, liberando adrenalina mas sem riscos físicos.

Tenho investido bastante tempo e esforço na criação de ambientes seguros que sejam propícios para “test drive” de realidades possíveis. Explorando diversos formatos, desde jogos no Whatsapp até teatros imersivos que possam dar a sensação de como seria estar presente em um desses futuros.

Certa vez, realizei um experimento em que percebi a influência do comportamento de rede em uma situação de um futuro alternativo. Era um grupo de jovens de uma instituição financeira interpretando papéis dentro de um cenário futuro em que o mercado de dados genéticos cruzava com o mercado de investimentos. Para agravar a situação havia também os influenciadores, comunicando o seu sentimento em forma de protesto em uma nuvem de palavras, assim como uma discussão calorosa que acontece nas redes sociais.

A intenção dessa experiência foi provocar os participantes a sair da sua zona de conforto, e pensar em como eles se comportariam em uma situação que pode acontecer nos próximos anos, na pele de uma pessoa dessa época no futuro.

Foi um mix de sentimentos e foi impressionante perceber o engajamento deles em uma situação provável mas, que ainda não aconteceu.Uma reação emocional complexa, em que um argumento que inspirava medo levava a massa (influenciadores) ficar contra a tecnologia do cenário, mas, em outro momento, alguns argumentos os levavam a aspirar e até desejar essa tecnologia.

Por que futuros experienciais é importante para “surfar na complexidade”

Imagine agora se pessoas e organizações começassem a desenvolver um plano estratégico dinâmico, orientado por situações vivenciadas dentro de múltiplos futuros alternativos, e que provocam insights valiosos sobre como reagir em contextos de maior complexidade e volatilidade.

Dentro de minha experiência com algumas organizações no Brasil, percebo que existe uma preocupação em se preparar para a transformação digital. Mas, o real desafio é a transformação cultural.

Trazendo um exemplo bastante conhecido, a Kodak contratou Faith Popcorn, consultora britânica que disse que o futuro do filme era digital. O resto da história já conhecemos.

E, se em vez de um mapa de tendências, os gestores da Kodak tivessem vivenciado a transformação que acabaria acontecendo na indústria fotográfica através de uma experiência imersiva de futuros?

Os processos de mudanças após o surgimento da internet seguem a lógica de um mundo pós-normal com características de caos, complexidade e contradição.

Você consegue pensar em algum cenário dentro das obras de ficção científica que demonstra como seria um futuro em redes, com bilhões de pessoas conectadas, interagindo, co-criando, com uma pluralidade de visões em ação?

Memes, fake news, influenciadores digitais, criptomoedas, biohacking, crowdsourcing são todos fenômenos contemporâneos criados à margem por uma rede de pessoas que não precisam de nomes ou registros: são frutos de um mundo pós-normal.

Complexidade não é sinônimo de complicado, mas um sinal de sistemas maduros. Nesse contexto, precisamos aprender a “dançar” com ela, e não tentar vencê-la.

Futuros experienciais expande o campo de possibilidades das pessoas; permite você antecipar eventuais situações que provoquem a sensação real de lidar com dificuldades e oportunidades de um futuro alternativo em um contexto de caos e complexidade.

O pensamento futuro (ou foresight) é uma habilidade sócio emocional que deve ser democratizada

Uma das premissas de ser futurista é estar confortável com a complexidade e o absurdo. Acredito que as incertezas que acompanham uma mudança de era, tornam-se uma motivação para que mais pessoas desenvolvam a capacidade de pensar como um futurista.

Pensar sobre o futuro não deve ser algo restrito aos futuristas profissionais.O pensamento futuro é a razão pela qual evoluímos como espécie e desafiamos o impossível dia após dia. Inclusive, valeria um outro artigo só sobre a importância de pensar como um futurista, mas vamos por partes.

A principal causa de grande parte dos problemas do mundo é a tomada de decisões mal orientada, mal planejada, influenciada por vieses, pressupostos, medo, incerteza.

O nosso papel como futurista experiencial é iluminar caminhos que são desconhecidos ou ainda estão obscuros, criando ambientes seguros para que as pessoas possam experimentar futuros alternativos antes que eles aconteçam.

Me identifico com a visão do paquistanês e futurista da UNESCO, Sohail Inayatullah, sobre como as histórias que assumimos na nossa vida influenciam o futuro que você quer criar:

Quando falamos de futuros comentamos sobre previsões, alternativas e influência. Mas, lá no fundo, há as narrativas que cada pessoa possui na sua própria história, e o trabalho do foresight é perceber se a história que eu assumi para a minha vida está de acordo com a minha visão de futuro.”

Qual o futuro dos futuros?

Passo horas imaginando como será o campo de estudos de futuros daqui alguns anos. Tenho mais “e se” do que respostas.

A minha principal hipótese é que irá se relacionar com o futuro da aprendizagem, do entretenimento, da antropologia, da história, da economia, do trabalho, da comunidade  e da comunicação.

Futuros é um campo multidimensional.

Futuros é uma questão de linguagem que, quando você percebe que o papo real é sobre futuro‘s’ e não futuro, uma nova lente acaba de ser implantada, e um mundo com amplas possibilidades se abre.

Se existe uma coisa que eu gostaria do fundo do meu coração que você levasse desse texto seria: todas as vezes que você for pensar ou falar a palavra futuro, troque por futuros, no plural. É simples, e vai fazer uma baita diferença.

Um dos principais instrumentos que utilizo é esse cone abaixo que mimetiza um olho que representa o nosso espectro de visão relacionado às múltiplas possibilidades de futuros alternativos.

O Futures Cone e seu conceito de futuros “P” (Possível, Plausível, Provável e Preferencial), também chamado de Cone de Plausibilidade ou Futures Vuvuzela™. Crédito da ilustração: Voros, 2001

 

Experienciar futuros amplifica a nossa noção temporal, implantando memórias que não existem com níveis profundos de informação de futuros alternativos, que ajudam entender como as pessoas daquele tempo vivem, se relacionam, trabalham, etc.

É quase como acessar aquele cenário através de realidade virtual, mas sem telas.

Encerro o texto com dois possíveis cenários para um dos grandes desafios crônicos no mundo: a educação, que possui um sistema que prevalece há 200 anos, apenas com mudanças incrementais.

(1) E se instituições de ensino passassem a adotar experiências imersivas para que os jovens pudessem vivenciar múltiplos futuros alternativos? Isso abriria janelas para que pudessem encontrar mais rapidamente o propósito de suas vidas e o que gostariam de exercer como profissão. Seria muito mais do que perguntar “o que eles querem ser quando crescer”.

(2) E se gestores de escolas, secretários estaduais e municipais de Educação, líderes, empreendedores e pensadores voltados para essa área, experienciassem os desdobramentos das novas tecnologias e comportamentos em futuros alternativos para descobrir soluções para os grandes desafios da Educação?

Pensar sobre futuros nos prepara para agir de forma ética e responsiva, em outras palavras, pensar sobre futuros hoje, nos prepara para fazer história amanhã” – Jane Mcgonigal, Diretora de Pesquisa e Desenvolvimento de Games do Institute for the Future (IFTF).

Para mais informações sobre como participar de Futuros Experienciais, entre em contato com a gente: futurodascoisas@gmail.com

 

Crédito da imagem da capa: Nevan Doyle

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Bruno Macedo
Bruno Macedo

Bruno é futurista e designer de Experiências de Futuro na Rito, empresa em que é co-fundador. Também é game-designer e principalmente um curioso nato que estuda desde neurociência à gamificação. Tudo o que faz procura alinhar 3 coisas: Empatia, Subversão e Diversão.

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