Ele resolveu um problema na Medicina e sua startup ganhou o QPrize 2015 como a melhor da América Latina


17 fev 2016

Empreender no Brasil é algo difícil e todo mundo sabe disso. Mas, Ricardo Moraes e seu irmão Rafael, tinham enxergado um problema real na área médica e estavam dispostos a investir tudo que tinham para viabilizar a solução que tinham imaginado.

Rafael, enquanto fazia residência médica em Dermatologia, na Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto, recebia inúmeras visitas de representantes farmacêuticos, que traziam diversos estudos e novidades, mantendo aquela comunidade médica bem atualizada. Porém, quando ele voltou para Avaré/SP, sua cidade natal com 80 mil habitantes, os representantes já não o visitavam mais. Conhecer as novidades mais recentes e tirar dúvidas sobre medicamentos e tratamentos já não era tão fácil quanto antigamente.

Como Rafael era um médico com forte conhecimento em tecnologia, o que o fazia criticar muitas das suas tarefas de consultório, não demorou muito para perceber que perdia tempo fazendo as prescrições à mão e que sua letra ficava cada dia mais corrida, dificultando a interpretação dos pacientes.

Juntando os problemas que tinha identificado, e com todas as peças “em casa” – Ricardo, voltado para negócios, René (irmão mais novo) um programador auto-didata; Marcel (primo/irmão) um web-designer de mão cheia, e o Rafael (médico), pensaram: “Por que não inovar na área da saúde?”.

Foi aí que nasceu a Memed, uma plataforma exclusiva para médicos, 100% gratuita, com informações atualizadas dos medicamentos disponíveis para prescrição no mercado brasileiro.

Acessando a plataforma, o médico encontra todas as bulas e informações organizadas de mais de 20.000 medicamentos constantemente atualizados conforme entram e saem do mercado. Além disso, há uma ferramenta de prescrições onde basta o médico digitar o nome do medicamento que deseja prescrever e imprimir a receita diretamente da tela do computador para as mãos de seus pacientes.

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A Memed faz parte do programa Promessas da Endeavor Brasil, foi acelerada pela 21212, a maior aceleradora digital da América Latina e é uma das selecionadas pelo programa Startup Brasil do Governo Federal.

Em Fevereiro de 2014, a startup foi investida pelo fundo de Venture Capital do Vale do Silício, RedPoint e Ventures. Em Agosto de 2015 venceu o QPrize, competição organizada pela Qualcomm Ventures, como melhor startup da América Latina, onde ganhou um prêmio de 500 mil dólares, recebendo aporte de 3 fundos: Qualcomm, Redpoint e Monashees Capital.

Memed - Premiação QPrize 2015 2(Memed no prêmio do QPrize 2015)

 

Hoje a Memed é a maior plataforma médica de consulta e prescrição de medicamentos do país. Mas, eles querem ir mais longe. Ricardo, 34 anos, graduado em Marketing e em Psicologia pela PUC-SP e hoje CEO da empresa, conversou com a gente para nos contar o que sentiu ao ganhar o Qprize, quais são as oportunidades para empreender na área da saúde, dentre outras coisas.

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Vocês ganharam o QPrize 2015 como a melhor startup da América Latina, recebendo um investimento de 500 mil dólares. O que vocês sentiram ao ganhar?

Nos primeiros 3 anos da empresa, nós vivemos completamente “no limite” financeiro. Vendemos nossos carros, voltamos a morar com nossos pais, investimos – absolutamente – todas as nossas economias na empresa, com a crença de que aquilo cresceria e viraria uma grande corporação um dia.

Eu me recordo as primeiras vezes que ouvi falar de investidores, VCs, capital de risco, e não compreendia exatamente o funcionamento, mas não me esqueço de uma frase: “Dinheiro é gasolina, não é pra sustentar o empreendedor”, e a gente aprendeu rápido com isso.

No momento em que participamos do QPrize e conseguimos ganhar o prêmio, a sensação foi clara: “temos mais gasolina para continuar nossa caminhada”.

Estávamos disputando com startups muito boas, empreendedores que eu admirava e sendo analisados por 3 dos maiores fundos de venture capital do país. Então imagine só a emoção quando a gente ouviu “E o cheque vai para… Memed!”.

Na hora, estávamos apenas eu e meu irmão René, e me lembro que levantamos, nos olhamos e demos um abraço de 5 minutos, com aquele nó na garganta, mal acreditando em tudo. Na hora já peguei meu celular, comecei a mandar mensagem pra todos na empresa contando a novidade, mas ninguém acreditava. Foi então que a gente tirou uma foto com os cheques e mandou pra eles, e aí sim, foi uma alegria geral!

Memed - Premiação QPrize 2015
(Memed após o prêmio do QPrize 2015)

 

Na sequência, a gente foi comemorar em um bar, pra extravasar toda aquela tensão da competição, pois em poucas semanas nós já teríamos mais uma competição pela frente: a final global em San Diego, com os vencedores de todos os outros continentes.

Memed - Comemoração QPrize 2015(Comemoração do QPrize em bar de São Paulo)

 

Lá em San Diego, vivi uma das melhores experiências como empreendedor. Conhecemos muita gente interessante, participamos do CEO Summit da Qualcomm, fizemos nosso pitch para diversos investidores, conhecemos excelentes empreendedores e, no final, ficamos em 2º lugar (batemos na trave). Independente do resultado, a experiência da viagem, as conexões, os 500 mil dólares ganhos no Brasil (e a cotação do dólar a R$ 4,00, rs), foi tudo perfeito!

Memed -Final Mundial QPrize 2015(Final Global do QPrize em San Diego, CA – Memed em 2º lugar)

 

A Memed foi indicada como uma das 15 empresas mais inovadoras de 2015, ao lado de nomes como Uber, Tesla e Nubank. Que conselho você daria aos empresários e jovens brasileiros que querem criar soluções inovadoras?

Isso foi algo que nos deixou com o coração batendo mais forte, pois todas essas empresas são fonte de inspiração pra nós e pra tanta gente ao redor do mundo.

O único conselho que eu posso dar é: tente descobrir o quanto antes algo que realmente faça sentido para você investir sua energia, seu tempo e sua alma. Eu penso que um dos pontos que mais atrasa o desenvolvimento profissional das pessoas é a demora em se conhecer, em saber quais são seus pontos fortes, suas paixões e seus desamores.

Montar uma empresa não deveria ser uma inspiração pra ganhar dinheiro, mas sim pra viver uma jornada que te orgulhe, que te faça sentido, e empreender na área da saúde, um segmento vital para o planeta, é algo que mexe muito comigo, me faz pensar e trabalhar com energia e alegria.

A saúde pública no Brasil está em crise; Hospitais estão sem verba; Os planos de saúde aumentando cada vez mais as tarifas; Por outro lado, hoje, no país, menos de 30% da população tem plano de saúde. Você vê oportunidades para empreender na área de saúde, aproveitando essa crise?

Como um amigo gringo, empreendedor aqui no Brasil, me diz: “o Brasil é um playground pra quem quer empreender, pois tem muita coisa errada pra se resolver”. E eu concordo bastante com isso.

Se olharmos pra saúde fora do Brasil, ainda temos muita coisa pra melhorar: planos de saúde diferenciados, sistema público de saúde que atenda a população de maneira justa e eficiente, remuneração correta para os médicos, prescrições eletrônicas sem erros, prontuários eletrônicos com registros completos de todos pacientes, etc.

Com a Memed, nós estamos focando em um único problema, o de prescrição, mas há muitas startups nesse segmento criando soluções incríveis, e outras várias oportunidades para surgir.

Para exemplificar melhor, vejo muita oportunidade no segmento de seguro de saúde, pois os médicos estão descontentes com a remuneração, os pacientes acham que pagam caro e não tem atendimento de qualidade e muitas seguradoras quebraram. Da mesma maneira que o Nubank inovou no setor de fintech, acredito que esse seja um problema imenso, com bons benchamarks gringos e com um tamanho de mercado que atrairia diversos investidores.

E, mais do que isso, hoje a saúde é um dos segmentos mais olhados pelos VCs, pois lá fora os grandes IPOs que estão surgindo estão vindo dessa área.

O que você faria para democratizar o acesso à saúde?

Essa é uma questão muito complexa, mas a boa notícia é que há vários benchmarks de acesso democrático e eficiente à saúde, com o NHS da Inglaterra e o sistema de saúde do Canadá, por exemplo.

Para não ficarmos apenas na crítica, vale um elogio ao que o Brasil se propôs a resolver na saúde: nós somos o único país do planeta, com mais de 100 milhões de habitantes, que enfrentou esse desafio de criar um sistema de saúde público universal e gratuito – o SUS.

Os números da saúde do SUS são impressionantes: mais de 3 bilhões de procedimentos ambulatoriais por ano; mais de 500 milhões de visitas médicas; 30 milhões de procedimentos oncológicos; o maior número de transplantes realizados na saúde pública no mundo, entre outros.

Democratizar o acesso à saúde é exatamente o que consta na legislação brasileira com o SUS, pois é um sistema único de saúde, gratuito, onde qualquer pessoa que esteja em território nacional tenha o direito de ser atendido, não importando classe, sexo, credo e nem sua nacionalidade.

No entanto, por mais democrático que seja, ele não funciona na maneira que deveria, e todos temos consciência de que é um desafio que precisa ser enfrentado.

Um ótimo ponto de partida seria criar grupos de discussão com pessoas que estão inovando na saúde, consultar os benchmarks dos locais que deram certo, visitar e aprender com esses exemplos para depois trazer esse conhecimento pra cá. Quando você aprende com quem já fez, você aprende mais rápido.

Se você tivesse mais 500 mil dólares para investir, o que faria com esse dinheiro?

Como eu disse antes, dinheiro é gasolina, então eu teria mais condição de acelerar e ir mais longe. O que eu faria seria olhar para o nosso plano interno e analisar onde vale a pena acelerar, onde precisamos esperar um pouco mais e onde podemos repensar nossas ações.

Um exemplo concreto, no nosso negócio, seria ampliar a participação em congressos e investir mais no relacionamento com os médicos, viajando e visitando pessoalmente as clínicas para conversar com eles, ouvir suas necessidades, etc. Esse tipo de ação ajuda muito no desenvolvimento do produto e no engajamento do usuário, mas infelizmente é super caro e difícil de se fazer diariamente.

Dinheiro é muito importante, mas não é apenas isso que faz a empresa prosperar. Também é necessário muito relacionamento, estar atento ao que está acontecendo, criar parcerias, conhecer as necessidades dos usuários, etc.

O que você faz para se manter motivado em tempos como esses?

Recentemente, o Romero Rodrigues (fundador do Buscapé) começou a trabalhar na RedPoint eVentures, fundo que é nosso sócio há 2 anos. Em um dos eventos de confraternização, ele faz uma fala muito interessante sobre esse momento de crise, mostrando o tamanho das oportunidades que nós temos.

Se olharmos bem, em momentos como esse, temos grandes talentos com dificuldade de recolocação nas empresas, que demitem aos montes. E é nesse momento que nós, pequenas empresas, podemos ter acesso à esses profissionais, pois em condições prósperas, seria muito difícil concorrer financeiramente por eles.

Outra questão importante é que a competição fica mais amena, já que os investimentos diminuem e quem está capitalizado consegue acelerar e ir mais longe. Portanto, um ótimo momento para pisar no acelerador.

Pra mim, motivação é algo que você não pode ficar pensando: ou você é motivado pelo que você faz, ou não. Não tem meio termo. E, nesse ponto, com ou sem crise, se o que você faz não te motivar, talvez essa seja a hora certa de você parar e repensar seu caminho.

Como você vê o futuro para a medicina em 10 anos?

Eu vejo com muito bons olhos, pois tenho uma crença de que toda a inovação que a revolução digital trouxe para os mercados de comunicação, varejo, transporte, etc, ainda está engatinhando na saúde.

Particularmente, eu acredito que teremos processos completamente automatizados, desde o momento do diagnóstico de doenças até acompanhamento em “real time” dos tratamentos dos pacientes.

Um dos pontos que mais me tem chamado a atenção, tanto pela disrupção como pela melhoria de vida que isso vai causar, é a telemedicina. Quando funcionando em escala, isso permitirá um acesso instantâneo a tratamentos e contato com especialistas do mundo todo, oferecendo um melhor atendimento, mais opiniões sobre casos e até intervenções cirúrgicas à distância.

Outro ponto que eu leio bastante sobre é a customização de tratamentos, onde empresas oferecerão medicamentos para cada um de nós de acordo com o nosso DNA, nossas tendências e patologias. Junto disso, virá a possibilidade real de impressão de medicamentos em impressoras 3D, facilitando e democratizando o acesso para qualquer cidadão.

De maneira geral, não tenho dúvidas de que viveremos momentos muito prósperos.

Qual o seu propósito como empresário?

Além de inovar na área da saúde, meu sonho é poder inspirar pessoas que acreditam que nós somos capazes de construir a realidade que nos cerca, e não temos que esperar que alguém de fora do nosso país faça isso pra gente.

Eu me incomodo bastante quando vejo que a maioria dos meus amigos preferem trabalhar no sistema público ou seguir carreiras executivas, enquanto reclamam dos problemas e das mazelas que acontecem no Brasil via Facebook.

Ora, se tem algo que te incomoda, serviços que você não admira, situações que não te deixam confortável, por que você mesmo não vai atrás e se esforça para construir algo melhor?

De uma certa maneira, se eu for capaz de mostrar que as coisas que nos incomodam podem ser resolvidas com o nosso próprio esforço, então eu conseguirei multiplicar essa crença para outras pessoas, que farão o mesmo até que um novo modelo mental aconteça.

Aliás, essa foi a decisão profissional que eu tomei pra minha vida: investir minha energia e meu tempo em algo que resolva algum problema, deixe um legado e me permita viver uma jornada completamente imprevisível.

Como a Memed quer se posicionar no mercado?

Toda 2a feira, às 9:00hs, a Memed tem um café da manhã com todos os “Memeds”, onde nós abrimos com a nossa missão principal: “Garantir que toda prescrição recebida por um paciente esteja perfeita.”.

Essa frase diz muito mais do que parece, pois, pra nós, prescrição perfeita significa:

– se o paciente não tem dinheiro, o médico será capaz de oferecer o melhor custo benefício, conhecendo os preços dos medicamentos para tomar sua decisão;

– se o paciente é alérgico à algum medicamento, o médico terá como verificar se há algum tipo de interação medicamentosa e evitar erros;

– se o paciente teve uma experiência ruim com um medicamento, o médico terá acesso a qualquer substituição que garanta um tratamento com resultado e eficácia semelhantes;

Esses são apenas alguns dos pontos que a gente descreve, mas que está no nosso DNA, que é garantir que cada um de nós, pacientes, tenhamos a melhor e mais adequada prescrição médica no momento da consulta.

O que você imagina para a Memed daqui a 5 anos?

O problema das prescrições no Brasil é muito mais sério do que se imagina. Sabia que, segundo a OMS, até 75% das prescrições médicas feitas no Brasil possuem chance de erro? Isso é uma das principais causas de internação hospitalar, uso indevido de medicamentos e até mortes por erros básicos, como prescrever um remédio e a farmácia vender o errado porque não entendeu a letra do médico.

Olhando pra isso, nós trabalhamos com uma visão de sermos reconhecidos na América Latina como uma solução digital pioneira e confiável, com milhões de prescrições sendo geradas mensalmente através da nossa plataforma em 2020.

Isso vai construir um legado de impactar a vida de milhões de pessoas diariamente, e completará nossa missão, que é de garantir que qualquer paciente receba uma prescrição perfeita.

Qual seria um sonho que você gostaria de ver realizado?

Tenho muitos sonhos que eu gostaria de ver realizado, mas se eu puder elencar um hoje seria de ver o Brasil ter uma cultura empreendedora mais ativa e mais presente no dia-a-dia do nosso povo.

Eu realmente acredito que nós temos que nos esforçar para construir o país que a gente quer, e ter exemplos de pessoas que fazem isso cria uma espiral positiva que faz com que mais pessoas acreditem que é possível se desfazer dessa mentalidade colonial que vivemos há tantos anos.

Gostaria de ver o ecossistema empreendedor prosperando mais, com novos investidores, cursos de inovação e empreendedorismo em universidades, startups prosperando, IPOs, empresas globais, etc.

E nesse momento, quando os negócios estiverem evoluindo e nós formos aos médicos, todos nós receberemos uma prescrição eletrônica feita pela Memed. E aí sim, meu sonho estará completo. 🙂

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Redação O Futuro das Coisas
Redação O Futuro das Coisas

O Futuro das Coisas é dedicado a trazer conteúdo exclusivo em inovação, tecnologia, educação e medicina numa linguagem divertida e acessível.

Comments

  1. parabéns!

  2. Muito interessante! Só uma observação: um paciente pode não ser alérgico e ainda assim pode sofrer por uma interação medicamentosa, essa última é mais abrangente e mais importante de ser vista quanto mais medicamentos o paciente usa. Não sei como isso funciona no aplicativo, já que não é aberto para outros profissionais de saúde, mas se existe mesmo a intenção de vocês reduzirem as internações por problemas nas prescrições – o que é ótimo, as interações não devem ser mesmo ignoradas, até mesmo com os medicamentos que aparentemente não são de uso contínuo. Uma opinião. Acho que se vocês contratarem um farmacêutico, ele pode ajudar com isso! hehe 😉 Parabéns!

  3. Maravilha! A história da persistência me faz lembrar de uma passagem no pequeno príncipe do Exupery: é preciso suportar umas três larvas para poder conhecer uma borboleta.

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