E se você tivesse todo o tempo do mundo?


20 nov 2017

É comum hoje em dia a gente escutar que “o tempo está passando muito rápido”. Na verdade, ele está passando como sempre passou. A gente é que está ocupando e preenchendo o tempo de um jeito como nunca fizemos antes… Talvez mais até do que o próprio tempo possa suportar.

Mas o que você faria se o tempo não fosse mais um limitador? Se você tivesse todo o tempo do mundo?

Pois saiba que, bem provavelmente, daqui a pouco você terá.

Aquela coisa de “viver como se não houvesse amanhã” parece estar com os dias contados.

Esforços para evitar o envelhecimento e postergar a morte não nasceram ontem. Fórmulas mágicas para viver mais e melhor e até teorias sobre a vida eterna já foram retratadas na ficção. Só que agora essa coisa está vindo a passos largos da ficção para a nossa vida.

De certo que impedir o sofrimento ou a perda de alguém que amamos por causa de uma doença incurável pode parecer a solução para a maior dor que até então não se tinha o que fazer.

Mas um ser vivo que habilita o nosso planeta, a Turritopsis dohrnii, uma espécie de água-viva, tem sido fonte de estudos de cientistas no intuito de descobrir uma forma de regenerar células humanas adultas: talvez o primeiro ser vivo capaz de viver para sempre, ela tem a capacidade de rejuvenescer as próprias células infinitamente, e é incapaz de morrer de causas naturais.

Ou seja, daqui a pouco vai ser possível voltar no tempo e, quem sabe, viver para sempre.

Mas a coisa não para por aí.

Além de viver para sempre, logo você poderá dar um salto evolucionário e passar de um “simples” ser humano – um ser exclusivamente biológico – para ser um super-humano, ou seja, meio humano e meio robô.

Essa é a crença do movimento Transumanista, que defende a evolução da espécie humana através de tecnologias capazes de melhorar nossa capacidade física, psicológica e intelectual, levando o ser humano a uma condição de “quase” perfeição e até imortalidade. Ou seja, as capacidades humanas seriam potencializadas através da conexão com uma capacidade não-biológica – a inteligência artificial.

Tá difícil de acompanhar?

Bom, ainda vai muito além.

Logo ali, por volta de 2030, futuristas afirmam que os computadores serão do tamanho de uma célula sanguínea, e será possível colocá-los dentro do nosso corpo apenas com uma simples injeção. Isso significa que teremos pequenos robôs circulando dentro da gente. Esse microcomputador irá para dentro do nosso cérebro e vai se comunicar com um servidor na nuvem. Seremos capazes de pensar através de uma combinação de pensamento biológico e pensamento não-biológico, na nuvem.

Em The Singularity is Near: when humans trancend Biology, do futurista Ray Kurzweil, ele fala sobre o futuro da humanidade e da ideia de Singularidade – justamente o ponto em que a inteligência do homem e da máquina vão se fundir, tornando-se infinitamente mais poderosa do que é hoje e permitindo aos seres humanos transcender suas limitações biológicas e ampliar sua criatividade.

No TED “Get ready for Hybrid thinking”, também de Kurzweil, ele explica que um grande salto evolucionário na espécie humana aconteceu há 2 milhões de anos, quando expandimos nosso neocórtex desenvolvendo o córtex frontal – o que nos permitiu realizar pensamentos mais complexos do que até então e nos diferenciou de outros primatas. Ele diz que o córtex frontal não era assim qualitativamente tão diferente, mas ampliava o “espaço físico” da capacidade de pensar no cérebro. E essa quantidade adicional de espaço físico para pensar foi o que nos permitiu dar um salto e desenvolver coisas como a própria linguagem, a ciência, a arte, a tecnologia e tudo que até hoje continuamos desenvolvendo e explorando através das capacidades atuais do nosso cérebro – limitadas nesse espaço físico.

Na lógica desse futuro iminente, então, estaríamos dando novamente um grande salto na evolução humana, só que agora numa escala exponencial. É como se estivéssemos expandindo nosso neocórtex mais uma vez, só que, dessa vez, para um espaço na nuvem, sem os limites físicos do nosso corpo. Possivelmente, sem limite nenhum.

Conectando seu cérebro com um cérebro sintético, imagine que você poderá acessar qualquer outra fonte de informação em segundos diretamente na nuvem conectada ao seu cérebro. E a parte não biológica vai crescer exponencialmente.

(Me pergunto se a porção biológica vai parar de crescer, já que absolutamente não será mais estimulada… Pense se hoje você guarda na memória números de telefone como armazenava antigamente…provavelmente não, já que eles estão na “extensão” do seu cérebro, que hoje ainda é um celular…)

De repente sua própria consciência não é mais sua. Está na rede, acessível de qualquer lugar, talvez por algum hacker que consiga invadi-la.

A tecnologia vai nos tornar imortais. E os “Homo Sapiens vão dar lugar aos Robos Sapiens”, como mencionou Tirosh-Samuelson, filósofo e transumanista.

É evidente que esse “upgrade” na condição humana levanta questões éticas, morais, religiosas, espirituais, culturais, políticas, e muitas outras.

Certo ou não, controverso ou não, a questão não é mais se isso vai acontecer. E sim, quando, e como isso impacta a nossa própria vida.

Ninguém sabe ainda onde isso irá nos levar. Que espécie de ser vivo estamos criando.

Será que todo mundo vai ser igual? Ou criaremos diferenças mais abismais entre nós? Quais serão os preconceitos do futuro? Transumanos serão reconhecidos na nossa sociedade como gente como a gente? Será que veremos protestos de minorias transumanas pedindo espaço na sociedade para serem aceitos? Ou será que será a nossa própria condição de existir? Simples humanos mortais estarão à margem da sociedade por incapacidade intelectual? Será que, ao sermos capazes de pensar de forma não biológica poderemos eliminar o sofrimento e sentimentos negativos? E será que isso não nos tornará mais insensíveis e menos empáticos, num mundo onde a empatia já anda meio esquecida? Quais serão as dores e os dilemas do futuro, nesse mundo transumano?

Muito debate sobre o tema ainda há de vir pela frente. Não tenho a intenção aqui de julgar nada nem ninguém, e o tema é tão vasto que nem me considero capaz de arriscar uma crítica.

Mas é inevitável se projetar nesse novo mundo…

Tendo a acreditar que o que torna a vida incrível é justamente essa sensação inexplicável de descoberta do novo, de vencer desafios, de experimentar emoções, boas e ruins… coisas que não podemos prever, nem nos defender…simplesmente deixar ser.

Lembro daquele discurso incrível de Steve Jobs para os formandos da Universidade Stanford, em 2005, em que ele diz: “Lembrar que logo estarei morto é a ferramenta mais importante que eu encontrei para fazer grandes escolhas na vida”, e penso sobre o que aconteceria com a beleza das coisas mais incríveis que não duram para sempre, se o tempo durasse para sempre? O que aconteceria com aqueles momentos únicos, se eles não forem mais únicos? O que aconteceria com a sensação de viver como se não houvesse amanhã, se sempre houver amanhã?

Se “a crise planetária é a crise da humanidade que não consegue atingir o estado de humanidade”, como disse Edgar Morin, talvez a filosofia transumanista seja a resposta para algo que nunca então conseguiremos ser – verdadeiramente humanos.

Enquanto ainda somos espectadores do que há de vir, viver o presente talvez seja a melhor forma de se apropriar do nosso tempo, e de vivê-lo da melhor maneira possível. Esse tempo ainda linear. Que só anda pra frente. E que ainda é finito.

Porque talvez melhor do que viver pra sempre, é viver feliz.

Então que seja agora.

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Clarisse Pantoja
Clarisse Pantoja

Jornalista e designer, possui também formação em Relações Internacionais e Gestão Empresarial. Atua no mercado corporativo com gestão da mudança, cultura, comunicação e clima organizacional. Curiosa por natureza e apaixonada por estudar e aprender sobre tendências e movimentos que movem o mundo, e influenciar pessoas e organizações em processos de transformação para o futuro.

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